O primeiro a vê-lo com os olhos foi Príamo, o ancião:
viu-o refulgente como um astro a atravessar a planície,
como a estrela que aparece na época das ceifas, cujos raios
rebrilham entre os outros astros todos no negrume da noite,
estrela a que dão o nome de Cão de Oríon.
É a estrela mais brilhante do céu, mas é portento maligno,
pois traz muita febre aos desgraçados mortais.
Assim brilhava o bronze no peito dele enquanto corria.(Homero. Ilíada (Canto XXII))
A imagem é impressionante! O mito em acção!
Replicado, por isso, no cinema, na pintura, na escultura, na literatura… Entre as Estrelas (2018, de Marcílio Moraes), num Canto (O Canto de Aquiles - Um Semideus, Um Príncipe, Uma Epopeia Memorável, 2011, de Madeline Miller), em Lágrimas (Lágrimas de Aquiles, 2027, de José Manuel Saraiva), etc., e, agora, num Nostos/Regresso (Regresso a Tróia, 2026, de Natália Constâncio)…
O seu escudo, descrito na Ilíada, consagrava também representações da terra, do mar e do céu, incluindo o Sol, a Lua e as estrelas, cenas de paz e de guerra, simbolizando o cosmos e a (des)ordem do mundo. Mas ele mesmo era protagonista “entre as estrelas”:
Como o astro que surge entre as outras estrelas no negrume da noite,
a estrela da tarde, que é o astro mais belo que está no céu —
assim reluziu a ponta da lança, que Aquiles apontou
na mão direita, preparando a desgraça para o divino Heitor1
Por isso, mereceu um Palácio. Achilleion. Onde
Éramos como deuses na alvorada do mundo,
e a nossa alegria era tão cintilante
que não conseguíamos ver mais nada.(Madeline Miller)
Palácio de Aquiles
Quero um palácio com colunatas e jardins suspensos, protegido de olhares indiscretos — um palácio digno de Aquiles,
que desprezava todos os mortais
e não temia nem mesmo os deuses.(Isabel da Áustria (Sissi),1884)
…a todos, no palácio e entre os demais.
(Haroldo de Campos)
A ou de Aquiles, cujo nome combina ἄχος (achos, "luto") e λαός (laos, "povo", "tribo", "nação", etc.), personificando o luto e a finitude humanos.
O incrível Achilleion (1890-91, pelo arquiteto italiano Raphael Carita), dedicado a Aquiles, entre a glória (O Triunfo de Aquiles, 1892, afresco de Franz von Matsch), no salão, e a morte (o trágico Aquiles moribundo, 1884, de Ernst Herter), nos jardins, ambas conquistadas em conjunto, de acordo com o pressentimento materno e a profecia revelada por Prometeu segundo a qual ultrapassaria Zeus.
O seu túmulo varia na localização: o Beşiktepe (o primeiro referido, junto da vila de Yeniköy), perto de Ílion, onde Alexandre Magno e Caracala o teriam homenageado, a foz do Danúbio (para onde Tétis teria levado as cinzas e onde os aqueus lhe teriam erguido um túmulo e celebraram jogos fúnebres, de acordo com Aithiopis, de Arctino de Mileto), numa ilha já invisível no tempo de Plínio, o Velho, ou na ilha de Aquileia (Achillea), entre o Borístenes e o Istro (Pompónio Mela), ou, ainda, na ilha de Leuca (Dionísio Periegeta, da Bitínia), etc..
Mas o palácio em sua memória é, sem dúvida, o que Sissi (imperatriz Elisabeth da Áustria,1837-1898) lhe dedicou em Gastouri (Grécia), entre Corfu e o mar Jónico, num promontório semelhante ao enlutado a que subiu Natália Constâncio no seu mais recente nostos romanesco Regresso a Tróia2 para, como digo no prefácio, “mergulhar no tempo e no verbo de Anita Graça Vicente, perscrutando através da convulsão da tragédia vivida e (re)cantada”, evocando os palácios da mítica Feácia. Uma Sissi-Pietà como a de Michelangelo (1499), que nele fazia o Réquiem pelo filho morto (o príncipe herdeiro Rodolfo da Áustria, falecido em Mayerling, 1889) como Tétis o fizera pelo seu e Maria, por Jesus…
Nele, arquitectura ambígua na sua função votiva, fundem-se o luto e o veraneio no tributo às artes e à filosofia. Pinturas insinuando as cenas da vida de Aquiles como imagens da vida da própria Sissi (na sua perspectiva)3, plasmam-se nas paredes e nos tetos do fabuloso palácio onde se exibem esculturas que também espreitam entre pérgulas, jardins de ciprestes e plantas exóticas: da vida de Aquiles aos deuses (Apolo, deus da música, da verdade, da poesia, da perfeição; Hermes, o alado mensageiro; as nove inspiradoras musas, filhas de Mnemósine e Zeus), de 13 filósofos4 a Shakespeare, passando por "Eros e Psique" (Ernst Herter). Um palácio sugerido, também, como uma autobiografia emocional de Sissi, presente em escultura de tamanho real5, um templo à dor e solidão, à arte e à inatingível eternidade. Por isso, surgindo em filmes significativamente intitulados For Your Eyes Only (1981, 12º da série 007).
No salão, especialmente criado para o Imperador Francisco José I da Áustria, impõe-se o precioso “Trono do Kaiser” (em ouro e marfim), que o ligou a Corfu através de um túnel subterrâneo, e que é homenageado pelo acrescentado Museu Keiser Wilhelm II.
Talvez o palácio se inscreva no sonho da inscrição reiteradamente bordada em árabe (um tughra com um antigo selo de sultão e a inscrição otomana "Eu testemunho”, compondo, quiçá, uma invocação mágica para adensar e fixar o amor do noivo6) no famoso e misteriosamente desaparecido vestido branco da despedida da Baviera (20/4/1854) da mais bela princesa da Europa para iniciar a vida de imperatriz: Oh, meu Senhor, que sonho lindo!7, fundindo os imaginários do oriente e do ocidente… antes de envergar o famoso vestido de Charles Frederic Worth bordado com estrelas de diamantes em forma de flor Edelweiss que se continuavam pelo cabelo (Sissi com 28 anos, pintura de Franz Xaver Winterhalter8), constelando-a de promessas de eterna juventude e poder que a sumptuosa cauda do anterior, a ele aplicada, repetia10. Um mantra mágico estendido no tempo…
Nove anos após o dramático assassinato de Sissi (10/9/1898), o palácio passou para o Kaiser da Alemanha. Guilherme II, que o enriqueceu com o gigantesco Aquiles Vitorioso, de 15m, com a inscrição “Para o maior entre os gregos do maior entre os alemães.” apagada após a II Guerra Mundial. É o guardião da entrada do Palácio que, por encomenda de Sissi, Ernst Herter fizera desfalecer olhando o mar, espelho da imortalidade (in)conquistada… dois Aquiles fazendo a rota da dor pessoal à propaganda imperial, da guerra à memória cultural.
Já o tempo "[d]os Leopardos, [d]os Leões” cedera ao “[d]os pequenos chacais, [d]as hienas”, sendo certo que “todos /…/ continuaremos a acreditar que somos o sal da terra", na célebre análise d’ O Leopardo (1956), de Tomasi de Lampedusa, que Luchino Visconti tornou seu também (1963)…
Aquiles: “Vou contar-te um segredo.
Algo que não te ensinam no templo.
Os Deuses invejam-nos. Eles invejam-nos porque somos mortais, porque qualquer momento pode ser o nosso último.
Tudo é mais bonito porque estamos condenados. /…/ Nós nunca mais estaremos aqui.”(Do filme Tróia; 2004)
Notas
1 Homero. Ilíada (Canto XXII, 317) [tradução de Frederico Lourenço], Penguin/Companhia das Letras, s.d. (ebook).
2 No momento de escrita deste texto, a obra está no prelo nas Edições Esgotadas para publicação ainda em 2025.
3 Sissi identificava-se com esse herói trágico no esplendor da juventude, beleza, força e vulnerabilidade. E revia-se, especialmente, em alguns momentos decisivos de Aquiles na Ilíada: a sua retirada da guerra (quando se afasta da corte), o lamento de Pátroclo (e o seu por Rodolfo), o enfrentamento do destino (como Sissi enlaça a dor existencial), a morte juvenil e bela (como a que Sissi idealizara para si), etc.. Escrevendo poesia (c. de 250 poemas entre 1885 e 1888, manuscritos recolhidos nos Swiss Federal Archives [Poetisches Tagebuch, 1. Band: Nordsee Lieder, Winterlieder Teil 1 (Original)] sob o nome de Elisabeth von Oesterreich (1837-1898)) e lendo obsessivamente grego antigo, Sissi afirma-se “gaivota errante” e queria ser lembrada como uma figura lírica, quase mitológica.
4 No Peristilo das Musas, ao ar livre, Sissi quis homenagear a sabedoria antiga representada pelas diferentes escolas filosóficas do estoicismo ao epicurismo, com bustos de Sócrates, Platão, Aristóteles, Epicuro, Zenão de Cítio, Demócrito, Heráclito, Pitágoras, Anaximandro, Empédocles, Tales de Mileto, Cícero e Séneca.
5 Cf.
6 Cf. Imagem da inscrição: 1, 2 e 3. Era conhecida a dedicação da Casa Bávara de Wittelsbach ao ocultismo hermético e o pai de Sissi, o Duque Max da Baviera, protagonista e autor das Viagens ao Oriente (1839), era fascinado pela cultura otomana. A representação de Sissi no quadro que tornou famoso o vestido demonstra estar de acordo com as recomendações do Picatrix (غاية الحكيم Ghāyat al-Ḥakīm, obra de magia e astrologia de meados do século XI que influenciou o esoterismo ocidental) para a invocação da Vénus hermética.
7 Desaparecido c. de 179 anos, tendo-se conservado apenas a cauda suntuosa posteriormente anexada ao vestido de noiva da Imperatriz, dele foi feita uma réplica em tamanho real que está exposta junto do retrato original de 1857 de Sissi com ele no Museu Imperial Carriage (Viena) e também. O vestido é peça central do “Trilho de Sissi”, exposição permanente do Museu Imperial das Carruagens e também. Cf., também.
8 Cf. Também.
9 Sissi tinha 2 conjuntos de 27 estrelas de diamante: a versão originária do joalheiro da corte, Jakob Heinrich Koechert, de 10 pontas com uma pérola no centro (já existente em 1865), e a de 8 pontas só cravejada de diamantes (de data desconhecida), de Rozet & Fischmeister, Kohlmarkt.
10 A cauda, de autor desconhecido. Retrato de Isabel da Baviera, Imperatriz da Áustria (1857), de Josef Neugebauer.















