Depois de conversar com Sabrina, percebi que o euskera tinha muitas formas de existir: como legado, como descoberta, como resistência silenciosa — mas também como busca. Cada pessoa que encontrei carregava no peito uma faísca diferente: alguns chegavam pelo passado, outros pelo futuro, outros simplesmente por amor àquilo que parece impossível.

E foi assim que conheci Carlos Prudencio Alonso, Jesús Varela e Robert Arrona — três caminhos distintos que, no entanto, se encontram no mesmo ponto: o desejo de manter viva uma língua que quase desapareceu.

Carlos Prudencio Alonso — o estudante eterno e guardião da memória

Aos 82 anos — “quase 83, com boa saúde e muito otimismo”, como faz questão de dizer — Carlos Prudencio Alonso continua aprendendo. Há algo em seu olhar que mistura serenidade e inquietação, como se ele estivesse sempre pronto para a próxima palavra, a próxima aula, o próximo desafio.

Não quero ouvir falar de Alzheimer nem de declínio cognitivo. Sempre estudei algo.

Essa frase, que ele diz com firmeza tranquila, revela não apenas disciplina, mas uma filosofia de vida.

Há mais de vinte anos, Carlos trabalha com traduções entre português, espanhol e inglês. Mas o vínculo com o euskera começou muito antes: em meados dos anos 1970, quando ainda era um “jovem sonhador”, como lembra com carinho. Ele frequentava o Centro Basco Denak Bat, perto de Buenos Aires, quando resolveu participar de uma aula experimental ministrada por um frade franciscano do Colégio Euskal Etxea de Llavallol.

O frade era falante nativo e queria testar materiais enviados do País Basco. Carlos saiu daquela aula com uma certeza ainda tímida, mas firme: havia encontrado ali algo que o chamava pelo nome. Décadas depois, o brilho que recorda esse momento ainda aparece em sua voz.

Nunca atingirei a fluência de um nativo — e tudo bem. Quero um conhecimento sólido, umas cinco mil palavras. O importante é não parar.

Ele fala com respeito quase religioso sobre o poder da língua. Recorda com emoção quando via Kinku Zinkunegi conversando em euskera com Estebe Ormazabal, no centro basco de São Paulo:

Ouvia aquele som e pensava: é isso que eu quero compreender.

Carlos descreve com ternura as aulas da década de 1970: grupos pequenos, encontros aos sábados, professores nativos, livros que passavam de mão em mão, e uma calma que hoje parece pertencer a outra era.

Sem pressa. Sem internet. Sem ansiedade por certificados. Apenas a vontade de aprender — e de pertencer.

Hoje, olhando para trás, é categórico:

Um basco sem conhecimento do euskera, que não tem interesse em aprender, não é um bom basco.

Não é arrogância. É uma convocação ética. Para ele, é preciso repensar a forma como se ensina o idioma na diáspora. Nem todos buscam diplomas europeus. Muitos querem apenas reacender um vínculo perdido.

O método atual desanima porque é rápido demais. As pessoas não desistem por falta de interesse — desistem porque o tempo não acompanha.

Mas Carlos lembra que ninguém precisa acompanhar esse ritmo para seguir aprendendo. O euskera não é uma corrida: é um reencontro. E quem avança um pouco por dia, avança muito. E então, quase como um selo de tudo o que acredita, ele conta uma história que guarda como uma prova:

Um associado do Denak Bat rezou o Ato de Contrição em euskera, durante a confissão. O frade abriu a porta do confessionário e o abraçou. A língua, ali, não foi comunicação — foi fé.

Carlos segue estudando. Não para honrar apenas a si mesmo, mas para garantir que o euskera continue sendo uma ponte entre mundos.

Resistência e memória — isso é o que ele carrega.

Jesús Varela — o reencontro com a língua da infância

Se Carlos encontrou o euskera como um chamado tardio, Jesús Varela o reencontrou como quem volta para casa depois de muito tempo. Seu tom ao falar é simples, direto, cheio de humor — mas por trás de cada frase há uma emoção que salta sem pedir permissão.

Eu nasci em Bilbao. Aprender euskera é herança familiar — e também paixão.

Jesús conta que, no começo, tudo parecia fácil: a lógica lhe era familiar, a sonoridade lhe pertencia, mas logo descobriu que o aprendizado não era apenas técnico — era memória.

Cada aula me fazia lembrar de onde eu vinha — e me mostrava partes de mim que eu ainda não conhecia.

Para ele, o euskera é também uma peça arqueológica viva.

Quem pensa que é uma língua sem utilidade prática não entende que ela é uma ponte para o passado das civilizações. Talvez venha até do Paleolítico.

Com humor, lembra das palavras que lhe arrancaram risos: kaixo, ederra, polita…e larrunbata — “sábado” — que ele brinca soar como um palavrão. E então, quase num sussurro, confessa:

Sempre gostei de História, com H maiúsculo. Saber que o euskera tem tanto a contar me emociona.

Assim como Jesús, muitos descendentes espalhados pelo mundo tentam reatar o fio interrompido por gerações. É nesse ponto que a história passa para outra voz — alguém que decidiu transformar saudade em ação.

Robert Arrona — a língua renascida dentro da família

A história de Robert Arrona, nos Estados Unidos, é sobre reconstrução. Um fio que foi rompido há duas ou três gerações — e que ele decidiu religar com as próprias mãos.

Meu pai é descendente de bascos que vieram via México. A língua se perdeu — e eu quis recuperá-la.

Robert começou a estudar euskera nos cursos da NABO (North American Basque Organizations), O gesto era íntimo, pessoal — mas rapidamente se tornou contagiante. Seu irmão, inspirado por ele, também se matriculou.

De certo modo, já alcancei meu primeiro objetivo: começar o renascimento do euskera na minha família.

Ele descreve o aprendizado como pertencimento:

É emocionante aprender a língua dos meus antepassados — e saber que faço parte de um esforço global para preservá-la. Às vezes parece até uma língua secreta.

Mais do que uma língua, o euskera se tornou uma porta para uma comunidade.

Robert encontrou conexões com a diáspora do Pacífico Noroeste, conheceu professores, mergulhou na cultura. Tudo começou a ganhar um peso afetivo que ele não esperava.

Hoje, ele ajuda outros estudantes facilitando o acesso ao material didático do programa.

Quero que mais pessoas possam acessar essa língua. E, quem sabe, um dia ensinar o básico para quem quiser começar.

Para Robert, o euskera é uma causa coletiva. É continuidade. É teimosia amorosa.

A cada palavra reaprendida, ele sente algo antigo respirar novamente.

Quando a língua volta para casa

Após as histórias de Carlos, Jesús e Robert, percebi algo que atravessava todas elas: o euskera não chegava a essas pessoas como um aprendizado comum — era sempre uma revinda.

Um reaparecimento à família, às lembranças, à terra, às ausências, ao que ficou adormecido durante gerações.

E, às vezes, esse regresso começava dentro de casa.

É nesse caminho que encontro Tomas Holbrook Barroetabena — alguém que cresceu ouvindo o euskera sem compreendê-lo totalmente, até que decidiu trazê-lo de volta para o centro de sua vida.

Tomas Holbrook Barroetabena — a língua que desperta na casa da infância

Para Tomas, o euskera nunca foi uma língua distante. Ele estava ali, misturado às paredes, aos objetos, às vozes que sempre o acompanharam.

A língua materna da minha mãe é o dialeto biscaíno. Eu a ouvi a vida toda.

Quando era criança, sua família deixou Boise e se mudou para Yakima, nos Estados Unidos. Com a mudança, algumas tradições ficaram para trás e a língua, embora presente na mãe, deixou de circular com tanta naturalidade.

As primeiras famílias que conhecemos em Yakima eram bascas, mas só minha mãe falava euskera. As festas e costumes de Boise já não existiam ali.

Ainda assim, a língua não desapareceu completamente. Ficou como uma presença silenciosa, aguardando um chamado. E o chamado veio.

Hoje, Tomas estuda três vezes por semana com uma professora também argentina, além das aulas em grupo. Também fez cursos intensivos no Maizpide Barnetegi e no Zornotzako Barnetegia. Em Donostia, deu inclusive uma entrevista para a ETB1 (televisão pública do País Basco).

O euskera, para ele, voltou a habitar o cotidiano — e habitar é exatamente o verbo que usa.

Aprender euskera toca o meu núcleo. É algo movido pelos olhos dos falantes, pela coragem dos meus avós e bisavós.

Ele fala com carinho de seu tio Felipe, o primeiro da família a imigrar para os Estados Unidos — o tio que o levava aos aeroportos do Vale do Tesouro para ver os aviões pousarem e decolarem.

Parávamos para tomar milkshakua eta french frizak!

Diz isso com riso na voz — como quem relembra algo guardado num lugar bom da memória.

Mas é em uma única palavra que Tomas encontra o centro de tudo:

Etxea.

Não significa apenas “casa”. É o coração da família, o ponto onde todas as linhas afetivas se encontram. Por isso tantas casas bascas espalhadas pelo mundo recebem esse nome: porque “etxea” é uma ideia mais do que um lugar.

E o euskera, para Tomas, é isso: a língua que volta para casa. Ou, talvez, a língua que mostra onde a casa sempre esteve.

Xabi García — o humor, a alma a juventude e o pulso de uma língua viva

Se Tomas representa a memória que desperta, Xabi García representa o movimento. Enquanto alguns aprendem o euskera como quem encontra um álbum antigo, Xabi o apresenta ao mundo como algo vivo, elétrico, pulsante — quase musical.

Professor e criador de conteúdo digital, ele fala do euskera como quem fala de uma força que respira.

Euskera não é só uma língua — é um ritmo. Um pulso que vem da terra.

Isso se percebe em tudo o que ele faz: no modo de explicar, na naturalidade com que brinca com as palavras, na facilidade com que leva a língua para os mais jovens.

Ele sabe que gramáticas não seduzem. Mas emoção, sim.

Os jovens não se conectam por regras. Eles se conectam por sentimentos. O humor abre portas. A curiosidade mantém essas portas abertas.

Para Xabi, o euskera é simultaneamente resistência e poesia.

Ele adora citar a palavra maitemindu — que significa “se apaixonar”, mas literalmente quer dizer “ser ferido pelo amor”.

Nenhuma outra língua explica melhor essa mistura de beleza e dor.

Xabi faz o euskera circular onde muitos pensavam que ele jamais chegaria: nos vídeos curtos, nos memes, nos comentários espontâneos, nos espaços digitais onde o mundo inteiro se atravessa.

Alguns acreditam que a internet ameaça a profundidade das línguas. Ele crê no contrário:

As redes não ameaçam a autenticidade — ampliam a aldeia.

E nesse processo, algo muito importante acontece: o euskera deixa de ser apenas um vestígio do passado e se torna uma linguagem contemporânea, moldada por novas gerações, por novas formas de sentir e de comunicar.

Termos antigos ganham novos usos. O humor encontra a tradição. A poesia se adapta aos algoritmos, mas não se perde. E Xabi faz isso com graça, com leveza, com a delicadeza de quem sabe que a língua só permanece viva quando continua respirando no presente.

As raízes que respondem

Ao caminhar por essas vozes — Sabrina, Carlos, Jesús, Robert, Tomas e Xabi — percebi que cada uma iluminava uma faceta do euskera: a memória, o reencontro, o renascimento, o humor, o pertencimento. Mas faltava ainda um fio fundamental: a raiz.

A voz que fala do euskera não apenas como língua, mas como território sensível, como modo de existir no mundo. Esse fio apareceu na fala de Iñaki Ibaibarriaga e depois, de outro modo, ecoou em Scott Zúñiga, que encontrou no euskera a própria casa.

Iñaki Ibaibarriaga — as raízes que falam

Quando Iñaki fala do euskera, a língua parece ganhar corpo.

Não é apenas idioma — é paisagem.

Ele descreve o som das montanhas de Bizkaia, a memória que vive nos vales, a resistência silenciosa das pequenas aldeias e diz tudo isso num tom que mistura respeito, ternura e uma sinceridade que só quem viveu o peso da história é capaz de carregar.

O euskera foi muito castigado durante a época de Franco. Tentaram destruir a cultura basca. O povo percebeu que precisava defender o que era seu — não com violência, mas com dignidade.

Há algo de profundamente humano em como ele conta essa ancestralidade. Para Iñaki, o euskera não foi salvo por governos — foi salvo pelas cozinhas, pelas mães, pelos avós, pelas conversas feitas em voz baixa para proteger as crianças.

Por muitos anos, falar euskera era perigoso. Nossos pais o esconderam por amor. Nós o recuperamos para que nossos filhos não sintam medo.

Ele não vê o passado com tristeza — vê com cuidado. E vê o presente com entusiasmo.

Os imigrantes que trabalham em bares estão aprendendo euskera com alegria. É uma forma de honrar a terra. As novas gerações estão mudando o que significa ser basco.

Fala das ikastolas — escolas que normalizaram o uso da língua — e da forma como o euskera voltou a ser ponte entre pessoas, gerações, regiões e até países.

O euskera não pertence só ao País Basco. Há gente estudando em Andorra, em Burgos, fora da Europa. É bonito ver como ele viaja.

Mas é quando se refere às palavras que sua voz muda de tom. Ele as vê como algo vivo. Quase sagrado.

  • Yargiya — “a luz dos mortos”.

  • Basamortua — “bosque morto”, palavra usada para “deserto”.

  • Aupa, que vem de aupatu — “erguer-se”.

O euskera tem alma. Não é só linguagem — é vibração. Algumas palavras parecem ter resposta do monte.

E quando lhe pergunto se a língua representa liberdade, ele pensa e então diz:

Não é liberdade. É algo nosso. Uma herança viva feita de resistência e amor pela terra.

No fim, ele pede desculpas pelas gravações apressadas. Mas é impossível não perceber o coração em cada uma de suas frases. Iñaki fala como quem planta e sua voz confirma o que toda esta jornada vem dizendo:

Há línguas que não precisam ser salvas — apenas ouvidas.

Scott Zúñiga — o estrangeiro que ouviu a voz da terra

Enquanto Iñaki fala da raiz, Scott Zúñiga fala do eco. Daquilo que uma língua pode despertar mesmo em quem não nasceu dentro dela — mas a reconhece como algo que estava esperando.

O euskera é uma língua nascida das montanhas. Ela não tem pressa de preencher o silêncio; ela o respeita.

Ao estudá-la, Scott percebeu que a língua basca não ensina apenas a falar. Ela ensina a escutar. O gesto que se suspende no ar, o silêncio que carrega memória, o olhar que se afasta para dentro.

O euskera me fez entender que o silêncio pode ser ancestral. Ele guarda histórias que nunca tiveram permissão para existir.

Mesmo ainda no nível A2, ele sente que a língua mudou o modo como pensa. A estrutura — com o verbo ao final — o obriga a pausar, respirar, formular menos e sentir mais.

Há mais espaço entre o pensamento e a palavra. Mais intenção. Mais presença.

Scott decidiu se mudar para o País Basco buscando algo que ele descreve como “o começo de si mesmo”.

Filho de mãe escocesa e pai mexicano, cresceu navegando entre mundos — sem nunca se sentir completamente em nenhum.

Até que descobriu que seu sobrenome era basco. E, mais tarde, descobriu que a sensação de não pertencer era, na verdade, uma bússola.

Aprender uma língua difícil é um presente. Se você desiste rápido, talvez amasse apenas a ideia dela. Mas se continua — mesmo quando é difícil — é porque algo sagrado está em jogo.

Ele fala do euskera como destino. Ver alguém no Brasil, na Argentina ou nos Estados Unidos dizer Agur ou Eskerrik asko o emociona.

Essa é a minha tribo. Não por sangue — por escolha. Por devoção.

Para Scott, o euskera revela uma verdade fundamental: existem línguas que sobrevivem não porque dominaram territórios, mas porque foram amadas.

Uma língua que viveu sem império, que não colonizou ninguém, e ainda assim permanece — isso é um milagre.

Em um de seus vídeos — cercado pela natureza, misturando inglês, espanhol e euskera — ele diz:

Nik entzuten dudanean, bidean nago etxera nire barnean.

Quando eu escuto, sinto que estou voltando para casa dentro de mim. E talvez seja isso: o euskera não lhe revelou um território — revelou um lar invisível, mas real.

O retorno — minha própria voz

Depois de tantas vozes, percebi que a minha também precisava aparecer. Porque, no fundo, todo este artigo nasceu de um reencontro que começou do lado de dentro.

Quando Iñaki me disse que era de Vitoria-Gasteiz, senti algo dentro de mim se mover — como quem ouve um chamado antigo. Meu pai também era natural daquela região. E quando eu era pequena, por pedido da minha mãe, ele deixou de falar comigo em euskera.

Ela temia que eu confundisse as línguas nas quais estava sendo criada. Ele aceitou rapidamente — não por falta de vontade, mas porque aquele era o espírito de uma época. Muitos acreditavam que silenciar uma língua era proteger os filhos e eu cresci herdando esse silêncio.

Durante a pandemia, em 2020, vivi pela primeira vez um luto verdadeiro por sua morte — quase trinta e cinco anos depois que ele partiu. Como se a ausência tivesse finalmente encontrado um nome.

Em 2021, quando o mundo voltou a abrir as portas, escolhi meu primeiro destino: o País Basco.

Ao colocar os pés em Vitória, eu soube. Sem explicação racional — apenas soube. Era como se aquele lugar me reconhecesse antes mesmo que eu o reconhecesse.

Meses depois, fiz um teste genético: 72% basca. Não foi o número que me emocionou. Foi o reconhecimento do que o coração já sabia.

Sou de São Paulo, mas descobri um lar entre colinas verdes e pedras antigas, num lugar onde nunca tinha vivido — e que, de algum modo, sempre me esperou.

Desde então, venho me organizando para voltar. Quero ouvir, pela manhã, as palavras que meu pai não teve tempo de me ensinar.

Às vezes parece difícil. Às vezes sinto que o tempo corre contra mim. Mas sigo com fé, com gratidão, com o sentimento de que há vozes que nunca nos deixam desistir.

E agora, ao escrever estas linhas, sei que não foi acaso que me aproximou de Sabrina, Carlos, Jesús, Robert, Tomas, Xabi, Iñaki, Scott e tantos outros.

Cada um deles me devolveu um fragmento que eu havia perdido: a lembrança, o som, a palavra, o pertencimento.

Para mim, o euskera não é apenas uma língua. É um caminho de volta.

Um agradecimento à minha história, ao meu pai, ao que permaneceu em silêncio — e, finalmente, pôde ser ouvido.