A memória colectiva teve sempre os seus ‘álbuns da tribo’ (Eric Havelock), registos de factos e personagens que fizeram a História comunitária: deles, avultam as epopeias. Desde a grande angular compreensiva de Hesíodo (séc. VIII-VII a. C.) que é a Teogonia /Genealogia dos Deuses, da cosmogonia e da história dos deuses até aos homens, e Os Trabalhos e os Dias, já com a história dos homens, passando por angulares mais restritivas em cenário mediterrânico, como as homéricas Ilíada e Odisseia relacionadas com Tróia (séc. VIII a.C.) e As Argonáuticas (séc. III a. C.), de Apolónio de Rodes, configurando os mitos modelares da Cultura Ocidental, alguns dos quais, fonte de inspiração para as medievais matérias de Roma, da Bretanha e de França.

Sob o signo dos reinos e do direito divino promovendo a emergência das identidades nacionais, as artes e as letras correspondem ao desafio do seu tempo, revisitando esse cânone: Os Lusíadas (1572), de Luís de Camões, em Portugal, e, no Brasil, Caramuru (1781), de Santa Rita Durão, e O Uruguai, de Basílio da Gama (1769), entretecem diálogos através do Atlântico. São outros espelhos dos Príncipes, ficcionais, unidos pelo protagonismo das figuras masculinas, empreendedoras, guerreiras, heróicas, temerárias e hábeis.

A “tuba canora e belicosa” (Camões) declinará, porém, com o Crepúsculo dos Deuses da modernidade, mergulhada “désenchantement do monde” (Max Weber, Marcel Gauchet) anunciado pelos Anjos da História (Walter Benjamin) e de Albrecht Dürer (Melancolia I, 1514). A ela sucederá a “Canção do Sonâmbulo” de Assim falou Zaratustra (1896), poema sinfónico, de Richard Strauss, inspirado no tratado de Friedrich Nietzsche (1883-85): em Portugal, ela será a Mensagem (1934), de Fernando Pessoa, vocalização portuguesa bebendo na névoa dos mitos e convocando a sua energeia simbólica.

Se as figurações masculinas podem pontuar um arco descendente de Prometeu, Narciso e Ulisses a Fausto, fantasmizadas por um Édipo trágico, as figurações femininas parecem contrastar, potenciadas em ciclo ascendente: a Europa deixa de ser a princesa raptada e lacrimosa e adquire régia e imperial presença, mantendo a sua venusiana beleza e declinando a sua aristocracia pelas cidades-princesas e pelas alegorias continentais e nacionais… por fim, eis todo um movimento feminista de defesa de direitos e valores, de reivindicação de uma acção ocultada ou dissimulada pela história de vocalização masculina.

Daí a contemporânea historiografia feminina a partir dos anos 1960/70 questionando a "invisibilidade" das mulheres na "história feita por homens", buscando-as além do matriarcado n’ Esta historia no te la habían contado (de Doña Gorgo, 2024), onde se evidenciam As Heroínas Desconhecidas (de Philippa Gregory, 2025): a História das Mulheres (coord. Georges Duby e Michelle Perrot) e As Mulheres ao Longo da História (2026, de Katarzyna Radziwiłł), com Histórias de Mulheres (2023, de Patricia Mayayo) e Mulheres na História (2017, de Sandra Ferrer Valero).

A Femme Sapiens (Instagram, de Helena Sotoca Garcia) ou Femina (2023, de Janina Ramirez e Joan Eloi Roca), Ni musas ni sumisas (de Helena Sotoca Garcia, 2022), desde as Míticas (2025, de Emily Hauser) e Eternas (2024, de Namina Forna), às Poderosas (2023, de María Pilar Queralt Del Hierro), Extraordinárias (2013, de Maria do Rosário Pedreira), que Inspiram (2017, de Luís Sítima), Magníficas (2025, de Helena Sacadura Cabral), Reformadoras (2021, de Rute Salviano Almeida e Jaqueline Sousa Pinheiro), d’As Maiores (2019, de Hannah Westlake) às Silenciadas (2022, de Sandra Ferrer) ou Ousadas da Idade Média (1997, de Vicki León) e dos Descobrimentos (2019, de Maria Barreto Dávila), outras faces da História ao lado de personalidades famosas (Historical Figures1). Em grandes angulares ou em zooms estratégicos.

É nesta moldura estimulante que surgirá, agora, o volume Portuguesas Magníficas (Porto, BookCover, 2026), de Joaquim Fernandes. A obra surge dessa emergência vitoriosa do feminino sob o signo da deusa Atenas, como o exprime o subtítulo, onde a citação convoca o épico camoniano, respondendo-lhe e sublinhando a vontade dessa protagonista (sobre o destino ou a vontade dos deuses): “Cientistas, pioneiras, inovadoras e heterodoxas que da “lei da morte” se quiseram libertar”.

São 33, ordenadas alfabeticamente, num itinerário que vai de 1548 (n. de Públia Hortense de Castro) a 2004 (f. de Maria de Lourdes Pintasilgo), quatro séculos e meio de história nacional perscrutada em case studies de mulheres que escaparam à norma, ao habitual, à mesmice, extra-ordinárias por isso: do amor (freira e amante de D. João V) às armas (uma militar travestida e uma heroína lusitana da República de Nápoles) e aos negócios (uma empresária), do ensino à investigação (as primeiras mulheres professora universitária, catedrática e investigadora), da advogacia e do jornalismo à cirurgia (também pioneiras), da aviação às artes (literatura, escultura, pintura canto, música, fotografia), da resistência política à governação (da Corte do Grão Mongol ao Portugal contemporâneo)… nenhuma área de acção lhes é alheia! Algumas serão mais expectáveis, outras mais surpreendentes, numa selecção hábil de Joaquim Fernandes. Cada retrato tem uma legenda inicial assinalando o traço que a representação destacará, muitas vezes, com uma ‘pincelada’ inesperada.

Joaquim Fernandes, que tem sabido, com mestria, mostrar-nos outras faces da História nacional (História Prodigiosa de Portugal. Mitos & Maravilhas, 2012-15, Portugal Insólito, 2016, O Grande Livro dos Portugueses Esquecidos, 2008, etc.) e de episódios seus (como o de Fátima), atento à heterodoxia (Heterodoxias para o séc. XXI, 2001) e à problemática do conhecimento (cofundador que é do Centro Transdisciplinar de Estudos da Consciência da Universidade Fernando Pessoa), traz-nos, agora, uma galeria de retratos ou uma exposição que rastreia a acção da mulher na história portuguesa (e de Portugal no Mundo), sinalizando, pela rigorosa inscrição, quer os sentidos da história nacional no seu conjunto, quer a da mulher nela inscrita. Estímulo para uma História da Mulher em Portugal ou…

Trata-se de trabalho a continuar na senda do resgate da memória colectiva, da iluminação das sombras que o mainstream projecta sobre o real, da investigação sobre os enigmas da História e do justo reconhecimento de que o real é muito mais complexo (Edgar Morin) do que as suas narrativas o fazem parecer…

E, lido este (como recomendo!), ficamos a aguardar os próximos trabalhos de Joaquim Fernandes, que felicito pelas suas Portuguesas Magníficas!

Nota

1 Historical Figures.