Outro dia, enquanto esperava o resultado de um exame de rotina, me peguei observando a sala de espera de um laboratório. Havia silêncio, mas não havia calma. Cada pessoa parecia imersa num diálogo invisível com o próprio corpo. Uma mulher folheava uma revista sem realmente ler. Um homem alternava olhares entre o celular e o relógio. Uma criança observava tudo, como se fosse a única ali de fato presente. E eu, tentando respirar fundo, me perguntava: como é que a gente aprendeu a se relacionar com a própria saúde?

Foi aí que algo me atravessou: e se saúde for, antes de tudo, um processo emocional?

Durante muito tempo, fomos ensinados a ver o corpo como um sistema mecânico. Um conjunto de peças que funcionam bem até que, de repente, algo quebra. Nessa lógica, a emoção aparece apenas como um "fator de risco": estresse, ansiedade, raiva. Mas e se for o contrário? E se a emoção for o ponto de partida? E se saúde for menos sobre "evitar a doença" e mais sobre sustentar um estado de presença consigo mesmo?

Quando falo de emoção, não estou falando apenas de choros ou picos de alegria. Estou falando daquela inteligência sutil que nos atravessa o dia inteiro, mesmo quando tentamos ignorá-la. A emoção como bússola, não como distração. Como ponte, não como obstáculo.

A medicina moderna avançou enormemente na compreensão do corpo físico, e isso é inegociável. Mas existe uma camada anterior, silenciosa, que também precisa ser ouvida. Porque o corpo sente antes de adoecer. E é aí que entra a pergunta que me move há anos: qual é o papel da emoção na construção (ou na desconstrução) da nossa saúde?

Certa vez, entrevistei uma paciente oncológica para um projeto sobre narrativas de cura. Ela me disse algo que nunca esqueci: "Eu não fiquei doente quando o tumor apareceu. Eu fiquei doente muito antes, quando parei de escutar o que eu sentia".

A frase me atravessou como um aviso. Quantas vezes silenciamos o corpo em nome da produtividade, da razão, do compromisso? Quantas vezes um sintoma "pequeno" é empurrado pra depois, até que o corpo finalmente grite o que a emoção já sussurrava há meses?

Emoção é linguagem. E como toda linguagem, precisa de tradução. Às vezes, a dor nas costas não é sobre postura. É sobre peso. Um cansaço constante não é apenas falta de sono, é falta de entusiasmo. Aquela dor de estômago recorrente pode ser, na verdade, uma raiva não digerida. O corpo fala, mas a gente nem sempre escuta.

A saúde emocional não é um luxo, é um alicerce. E talvez estejamos vivendo uma epidemia de desconexão: com o corpo, com os limites, com as pausas. Falar de emoção e saúde, hoje, é um ato de reconexão com o que é essencial.

Outro exemplo real: uma amiga enfrentava crises de enxaqueca há anos. Tentou tudo, exames, dietas, medicamentos. Nada funcionava de forma duradoura. Um dia, numa sessão terapêutica, ela chorou pela primeira vez em muito tempo. Chorou tudo o que havia engolido por anos. E nos meses seguintes, as crises cessaram. Não por mágica. Mas porque algo dentro dela foi, finalmente, expressado.

É claro que não se trata de abandonar a medicina tradicional, muito pelo contrário. Se trata de somar. De olhar para o ser humano como um todo: físico, mental, emocional, energético. E entender que um não vive separado do outro.

A saúde não é uma linha reta. É um processo dinâmico, vivo, íntimo. E a emoção é parte integrante desse processo.

Muitos estudos em neurociência já comprovam que estados emocionais impactam diretamente o sistema imunológico, os níveis hormonais e a resposta inflamatória do corpo. O que sentimos não fica só na mente, percorre células, glândulas, tecidos. Quando sentimos medo, por exemplo, o corpo inteiro entra em modo de alerta. Quando nos sentimos seguros, o corpo relaxa. E só no relaxamento ele consegue se curar.

O afeto é anti-inflamatório. O toque, quando vem com presença, regula o sistema nervoso. A escuta empática tem efeitos fisiológicos mensuráveis. Nada disso é abstrato, é biológico. E é profundamente humano.

Hoje, quando escrevo textos para marcas da área da saúde, carrego esse olhar comigo. Não importa se é uma clínica, um hospital, um laboratório ou um profissional autônomo: toda comunicação de saúde também é uma comunicação emocional. Porque saúde não é só dado, é também sensação. E as pessoas querem, cada vez mais, se sentir cuidadas, não apenas tratadas.

Faz sentido perguntar: como criar ambientes (e narrativas) que acolham o ser humano integral?

A resposta não está só no conteúdo técnico, mas na presença por trás da mensagem. Na escuta que antecede a fala. Na escolha de palavras que respeitam o tempo do outro. No tom. No ritmo. No silêncio também. Comunicar saúde é, no fundo, lembrar o outro de que ele não está só.

Volto àquela sala de espera onde comecei este texto. Eu também já estive ali, desconectada, ansiosa, querendo apenas que tudo passasse logo. Mas hoje, quando entro nesses lugares, tento me lembrar de respirar com intenção. De perceber o corpo. De perguntar como estou, de verdade.

Essa simples pergunta, “como estou me sentindo agora?”, é uma prática de autocuidado. E quanto mais a fazemos, mais próximos ficamos da saúde como presença.

Talvez o caminho para uma vida mais saudável não esteja apenas nos check-ups e exames em dia (embora eles sejam fundamentais), mas também em cultivar a coragem de sentir o que sentimos, sem julgamento. Em reaprender a dialogar com o corpo, com o coração, com a nossa história interna.

Emoção e saúde não são caminhos paralelos. São dimensões do mesmo território. E toda vez que negamos uma, enfraquecemos a outra.

Falar disso, hoje, é urgente.

E talvez, mais do que nunca, seja terapêutico lembrar: sentir é também uma forma de se curar.