O adjetivo lírico provém de lira, instrumento musical de cordas. O nome lírico se explica em razão de esse gênero, originalmente, ser cantado tendo por acompanhamento o som produzido por instrumentos musicais como a flauta e a lira. O gênero lírico costuma estar centrado no individual, por isso tende a se voltar para a subjetividade, para a emoção, para o sensível. Quem fala no poema, por meio de versos, é um eu individualizado, por isso mesmo chamado de eu lírico, que, como o narrador nos romances, contos e novelas, não deve ser confundido com o autor empírico.
Há casos em que a poesia lírica não está voltada para o subjetivo, mas para a realidade objetiva e outros em que trata da passagem da objetividade para a subjetividade. Mesmo quando deixaram de ser acompanhados por instrumentos musicais, os poemas líricos mantiveram o aspecto musical, reforçado pelo uso de recursos sonoros, como o ritmo, a métrica, as rimas, o refrão etc. Os poemas líricos podem se apresentar em várias formas, fixas ou livres. Como exemplo de forma fixa, podemos citar o soneto e o rondó.
Os gêneros literários podem se manifestar em prosa, isto é, expressos sem metrificação e ritmo regular como o conto, o romance e a novela, ou em versos como a poesia. Os versos podem apresentar metrificação regular ou não. Podem ou não apresentar rimas. Há metrificação regular quando todos os versos do poema têm o mesmo número de sílabas métricas.
Etimolicamente, poesia designa o ato de criar, de fazer, e poema, o produto do fazer poético. Atualmente, essas palavras têm sido usadas como sinônimas, de sorte que podemos falar em um livro de poemas ou um livro de poesias. Embora haja formas fixas de poesia, não é a forma que determina se um texto é poético.
Se a poesia não precisa apresentar necessariamente uma forma fixa, metro e rima, o que caracteriza um texto como poesia?
A primeira característica já apresentamos: trata-se de uma manifestação literária em versos, subdivisão do poema que coincide com o final da linha, mas não necessariamente com o final da frase; portanto um poema terá tantos versos quantas linhas tiver. Um soneto tem 14 versos; Os lusíadas, 8816; A divina comédia, 14233. Os versos podem ou não estar agrupados em estrofes: um soneto tem 4 estrofes (dois quartetos e dois tercetos); Os lusíadas têm 1102 estrofes, cada uma com oito versos.
O fato de um poema ser escrito em versos exerce uma função semiótica importante; pois o leitor, ao abrir o livro, pela própria disposição gráfica do texto na mancha tipográfica do papel, ou da sua disposição na tela de um computador, identifica de pronto o texto como sendo uma poesia. Evidentemente, essa antecipação pode não se confirmar, já que o texto pode ter a forma de um poema e não se configurar como tal. O uso dos recursos tipográficos na poesia foi levado ao extremo pela poesia concreta, em que a disposição gráfica do texto na página passa a ter função significante.
Falamos que o fato de um texto ser escrito em versos e de apresentar rimas não é critério suficiente para classificá-lo como poesia (lembremo-nos de que batatinha quando nasce é um texto em versos rimados!). Então qual o critério necessário e suficiente para que classifiquemos um texto como poesia? A pergunta não é fácil de ser respondida. Dizer que a poesia está no domínio da arte literária implica em que tenhamos de definir o que é arte e o que é literatura, que não são não conceitos absolutos, pois estão ligados a juízos de valor, embora possa haver consenso sobre a natureza artística de algumas obras.
Podemos dizer que o que caracteriza a poesia é uma forma de enunciação que denominamos lírica. Ao contrário dos gêneros em prosa (romance, novela, conto), na poesia lírica não há a presença de um narrador, mas de um eu individualizado que fala no poema, chamado propriamente de eu lírico. Também na poesia lírica não há temporalidade, não há um antes nem um depois, pois não se conta uma história como nas formas narrativas, daí seu caráter estático.
A linguagem da poesia tem uma configuração especial, o que a torna intraduzível. Quando dizemos que a poesia é intraduzível, não estamos afirmando que ela não possa ser traduzida para uma outra língua, ela é intraduzível mesmo dentro da própria língua. Isso porque na poesia a linguagem verbal está associada ao ritmo, à sonoridade das palavras e às imagens sugeridas por elas.
Se a poesia é intraduzível dentro da própria língua, a fortiori ela o será de uma língua a outra. Um poema como O corvo (The Raven), de Edgar Allan Poe, explora o caráter significativo de fonemas que lembram o crocitar de um corvo.
Ao final de várias estrofes, repete-se o enunciado never more, que traduzido para o português (“nunca mais”), não tem o mesmo efeito de sentido do que a expressão original.
Se experimentarmos repetir várias vezes as expressões never more e “nunca mais”, verificaremos que never more, ao contrário, de "nunca mais", imita o crocitar do corvo. Somemos a isso que no poema, more, rima com door, floor, implore, explore, shore, before, Lenore (o nome da amada do poeta) Atentemos ainda que os fonemas consonantais de raven são os mesmos de “never”, ao contrário (r-v-n / n-v-r).
Podemos agora tentar responder a uma outra questão: como a linguagem da poesia consegue atingir o sensível? Em primeiro lugar pelo ritmo. Se a poesia pode prescindir de rima e metro, não há poesia se não houver ritmo, isto é, as palavras na poesia não são apenas de unidades de significado, são também unidades melódicas, por isso é mais fácil memorizar um poema do que um texto em prosa.
O ritmo é inerente ao verso, seja ele metrificado ou não, e está ligado ao tempo, de sorte que o que confere ritmo à poesia é a forma com que as palavras sucedem no tempo e sua percepção se dá auditivamente, portanto duas palavras definem ritmo: temporalidade e sonoridade. Pelo ritmo, alguns elementos do verso são destacados.
Na leitura de poesia, um dos procedimentos essenciais é o leitor identificar o ritmo dos versos, e não ficar restrito apenas aos aspectos semânticos do texto. É preciso, pois, olhar a poesia como objeto semiótico em que se conjugam o verbal, o sonoro e, em alguns casos, até o visual.
No nível sonoro, além do ritmo, há que se destacar o papel exercido pelas chamadas figuras fônicas, rimas, aliterações, assonâncias, paranomásias. Evidentemente, essas figuras não devem ser vistas apenas como recursos sonoros, pois elas também são responsáveis pela progressão textual, à medida que estabelecem entre segmentos textuais, os versos, por exemplo, relações semânticas e/ou pragmático-discursivas.















