Freud, Nietzsche, Pascal são autores que apontam para dimensões do ser humano, além da dinâmica racional, para outra identidade do ser humano, não apenas a racional. Blaise Pascal inicia a modernidade com uma crítica ao espírito geométrico, presente na história da filosofia, que tenta, de todas as formas, alinhar o pensamento a uma dimensão geométrica e apolínea do conhecimento humano. Pascal argumenta que existe um mundo infinito que não pode ser percebido pelo espírito geométrico e, sim, pelo espírito da finura que vai além da dimensão geométrica, lógica.

A existência de Deus, para Blaise Pascal, por exemplo, é uma aposta realizada na dimensão do espírito de finura, buscando, de diversas formas, concretizar uma perspectiva de que é mais inteligente acreditar que Deus existe do que não crer na existência divina. A aposta se justifica porque é melhor acreditar que Deus existe e ele não existir, porque teremos ganho a possibilidade de realizar uma vida melhor; se apostarmos que ele existe e ele realmente existir, podemos ter perdido tudo. Pascal entende que o coração tem razões que a própria razão desconhece e, nesse sentido, é muito importante se pensar para além da dinâmica racional, voltando-nos para uma perspectiva do querer metrificar o pensamento humano como se estivesse circunscrito ao racional.

Nietzsche também ponderará acerca da superação de Dionísio sobre o espírito apolíneo, a importância de se valorizar o espírito dionisíaco do conhecimento humano, coadunando a dimensão meramente racional com tantas outras dimensões humanas mais interligadas ao espírito dionisíaco, que capta outras dimensões para além do meramente racional, daquilo em que pulsa a existência. Nietzsche aponta em seus escritos para um olhar para além do mundo metafísico, chegando a diagnosticar a morte de Deus.

Não é Nietzsche que mata a Deus, mas a modernidade mediante o espírito positivista. A crença de que a ciência toma o lugar de Deus é tematizada por Nietzsche. Augusto Comte, positivista, impactou diretamente toda forma de produzir ciência na modernidade. A humanidade teria passado, para Comte, em três estágios: o teológico, o metafísico e o positivo. O teológico seria o estágio em que a humanidade ainda acreditava em deuses; superado esse período, viveríamos um período metafísico da crença na filosofia; para além da física, a metafísica explicaria conceitos abstratos, como Deus, amor, felicidade. Finalmente, a humanidade teria alcançado um estágio positivo, o estágio da ciência experimental, da consideração como científico aquilo que pode ser experimentado em laboratório.

Freud, por sua vez, também pensou para além do racional, quando pressupôs instâncias quer transpõem o racional, culminando com a pressuposição do inconsciente. Ao longo de seus escritos, Freud analisou e refez análises sobre a própria conceituação do inconsciente, mas o que estava sendo posto é que existe o querer, que é racional, mas também existe o desejo, que está para além do querer racional, que é aquilo que realmente nos motiva a agir. Freud apontará que diversos sintomas, inclusive sintomas físicos, são manifestações de conteúdo reprimido no inconsciente e que, em dado momento, “explodem” em sintomas físicos. A psicanálise surge como ciência daquilo que não é explicado cientificamente, que é o inconsciente, que se estrutura como linguagem em que pulsa a existência, que fala sobre dores internas indizíveis pela linguagem lógica e racional.

Charles Darwin, por sua vez, também fere o ego humano ao pensar e defender o evolucionismo. Por um lado, o evolucionismo resvalou diretamente para o criacionismo, que entendia o ser humano como criatura divina por excelência, grande espécie racional, superior, a quem foi destinado o “reino” sobre todos os demais animais. Foi outra tensão no grande ego do ser humano considerar-se superior aos demais seres, quando, na verdade, seria fruto da evolução de outro ser.

Enfim, os autores mencionados neste ensaio abordam uma perspectiva para além do racional. Se Thomás Kuhn aponta para a importância de que a ciência opera a partir da ruptura de paradigmas científicos, outros discutem um novo paradigma: o paradigma além do racional. Não é um paradigma absoluto, trata-se de um paradigma aberto para a diferença que aponta para outras. Não que o racional seja inválido enquanto paradigma de cosmovisão, mas há de se perceber que existem outras formas de vida para além do racional, outras perspectivas para além do meramente lógico.

A vida pulsa em cada ser humano e cada ser humano é convidado a significar sua vida com base em parâmetros racionais, mas também para além da razão. A vida clama por sentido e Freud explica muito, como diz o clichê, para muito além do paradigma racional. Na filosofia, o conceito de inconsciente, como em Freud, desafia o primado da razão. A questão do dionisíaco, popularizada por Nietzsche, opõe-se ao apolíneo, representando o caos, a paixão e a irracionalidade. A exploração do inconsciente e do dionisíaco questiona a primazia da consciência, sugerindo que forças obscuras e pulsionais moldam a experiência humana, a arte e a cultura.