Ácido, sarcástico e inteligente, o cartunista brasileiro André Dahmer é responsável pela criação de Malvados, um universo de tira-humor dedicado a dissecar os pormenores da vida e do cotidiano. Se o humor popular costuma escorregar para o lugar-comum das ofensas, Dahmer mostra como é possível rir e pensar sobre aquilo que estamos rindo.

Em um cenário no qual o “politicamente correto” se tornou tema de intensa discussão — o que é engraçado? O que ofende? O que se pode e o que não se deve dizer? — Encontrar alguém que se inclina ao humor sem recorrer à humilhação das minorias é raro. Melhor ainda é ler algo que nos provoque o riso e ao mesmo tempo a reflexão consciente. Esse é exatamente o território de André Dahmer.

Nas suas tiras, ilustrações e quadrinhos, Dahmer trava um diálogo com as nossas “prisões sociais” — regras, amarras, convenções, falsas convicções. Suas criações dão tapas simbólicos na cara da sociedade — e abrem janelas para que nos desencantemos da mesmice de um humor que desmerece, ofende ou banaliza. Ganha força aquilo que provoca deslocamento, como um espelho que estala e faz percebermos como somos vistos ou como nos mantemos presos a verdades prontas.

André Dahmer nasceu em 14 de setembro de 1974, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. Formado em Design pela PUC-Rio, iniciou sua carreira artística em tiras-séries de modo mais informal e com o tempo transformou o hobby em plataforma autoral reconhecida. Carioca de formação, desenhista, cartunista e poeta — sim, a poesia também compõe seu horizonte criativo —, Dahmer é visto como um dos nomes mais instigantes do humor gráfico brasileiro contemporâneo.

O ponto de partida para muitos leitores é sua tira mais conhecida, Malvados. Nela aparecem dois personagens indefinidos — são “girassóis do mal” ou “flores do mal”, como já foram apelidados — apelidados de Malvadão (o crítico ácido) e Malvadinho (o que mais sofre). Costuma-se dizer: essas tiras não seguem uma linha cronológica: são pequenas epifanias visuais sobre o absurdo cotidiano, o trabalho, a vida em sociedade, o sexo, a internet, o vazio da rotina, as convenções e o poder.

Além de Malvados, Dahmer desenvolveu outras séries de destaque. Em Quadrinhos dos Anos 10, ele retrata as contradições do século XXI — internet, trabalho, capitalismo, relações pessoais — sob o filtro do humor corrosivo. Em Apóstolos: a série, ele aborda o cristianismo e a Igreja Católica de maneira crítica e irreverente. Personagens como Emir Saad (ditador sádico do fictício reino de Ziniguistão) também fazem parte desse universo que mistura crítica social, humor político e ironia fina.

A trajetória de Dahmer, embora tenha começado on-line (alguns trabalhos remontam à era do Orkut), conquistou as páginas de grandes veículos. Suas criações já apareceram no Jornal do Brasil, no portal G1, no O Globo, na Folha de São Paulo, além de revistas como Piauí, Caros Amigos e Sexy Premium. Quanto às publicações em livro, o autor já acumula diversos títulos: Malvados (2005, Ed. Gênesis); O livro de André Dahmer (2007); Malvados (2008); A cabeça é a ilha (2009), todos pela Editora Desiderata; Ninguém muda ninguém (2011, Ed. Flâneur); Rei Emir Saad: O Monstro Zazanov (2011, Ed. Barba Negra). Em 2019, uma nova edição de Malvados pela Companhia das Letras reafirmou o alcance da obra.

No campo das artes gráficas e colecionáveis, Dahmer vem ampliando suas frentes. Ele firmou parceria com a editora LTDA., especializada em gravuras em séries limitadas, para levar seu trabalho além dos livros e das tiras, num formato em que arte, crítica e colecionismo convergem.

Hoje, mais do que produzir tiras “apenas para divertir”, André Dahmer ocupa um lugar de tensão: entre o humor e o pensamento, entre o riso imediato e o desconforto produtivo. Lê-se, ri-se, e pensa-se. Esse movimento corresponde ao que podemos chamar de humor reflexivo, aquele que não se contenta em sacudir a plateia, mas pergunta: “Por que estou rindo?” E: “De quem são as risadas? Quais os alvos? Quais as omissões?”

Para o leitor que busca algo além da gargalhada rápida, Dahmer oferece uma porta de entrada para pensar o cotidiano com liberdade e ironia. Seu trabalho ativa a consciência: não apenas por meio do que mostra, mas pelo que omite, pelo espaço que deixa para a imaginação, pelo silêncio visual que persuade.

Nesse contexto, torna-se evidente como sua obra permanece relevante, dialogando profundamente com inquietações contemporâneas, questionando padrões culturais arraigados e estimulando debates mais amplos sobre ética, humor, política, comunicação, sociedade e sensibilidade artística brasileira.

Em 2025 Dahmer completou 50 anos de genialidade. Com um “olhar crítico afiado, segue atualíssimo, abordando temas urgentes na sociedade atual, como a ascensão das redes sociais e a crise ambiental, sempre com uma pitada de humor”. Se você ainda não parou para ler as tiras de Dahmer, talvez valha a pena: não apenas para rir, mas para escutar o silêncio — e refletir. O riso dele não é apenas alívio, é diagnóstico.

Fontes

“André Dahmer”, Wikipedia (versão em português).
“Sobre o autor”, site oficial de André Dahmer.
“Perfil do leitor | André Dahmer”, Biblioteca Pública do Paraná.
“Malvados”, Wikipedia (versão em português).
Cartuns de André Dahmer - revista piauí.
André Dahmer, cartunista do GLOBO, celebra 50 anos em mostra retrospectiva.