Por vezes à noite há um rosto
Que nos olha do fundo de um espelho
E a arte deve ser como esse espelho
Que nos mostra o nosso próprio rosto.

(Jorge Luis Borges)

A literatura funciona como um espelho (Manguel). Escolho esta metáfora, pois este objeto para mim não se configura como a descoberta de uma imagem, de uma vaidade, mas sim como descoberta de si mesmo. Existimos, portanto, refletimos no espelho.

A literatura, de acordo com o que nos diz Manguel, tem a mesma capacidade do espelho: mostrar que existimos. É o que chamamos de pacto entre o leitor e obra.

Reconhecemos na obra não apenas traços de semelhança entre determinada personagem e nós mesmos; reconhecemos a nossa humanidade nas personagens das obras literárias. Reconhecemos os seus sentimentos, ações e possibilidades: prováveis situações humanas.

É possível pensar a narrativa literária através da palavra espelho, que pode ser apreendida como uma grande metáfora do reflexo, da imitação, da mimese, neste caso, colocando-se uma das questões mais antigas da literatura: a sua relação com o Real, ou, mais propriamente, como o conceito de Real.

Entretanto, espelho é também tudo aquilo que estabelece relações, sejam elas simétricas, assimétricas ou inversas. Tudo aquilo que cria o duplo, que supõe duas cenas, duas articulações, passagem para uma outra dimensão; sendo outra, entretanto, reflete a primeira, nunca se esgotando como pura repetição... Essas múltiplas imagens fazem-se no nível da fabulação, da história ou do enredo e também no nível do próprio discurso, nem sempre levado em conta pelo leitor, já fascinado pela ficção, já do outro lado do espelho, mas sem consciência de ter feito essa estranha travessia. Escolhido esse caminho, interessa pensar aqui sobre o espelho, não só como tema recorrente da literatura, herdeiro das narrativas míticas, entre as quais se destaca de forma privilegiada a história de Narciso, mas também espelho, como processo, jogo, maquinismo ou engenho...

O texto literário é, então, o lugar da confluência de reflexos, complexo de espelhos que refletem outros espelhos. O espelho pode ser plano, côncavo, convexo, pode inverter, deformar, transformar, sendo sempre um espaço de encenação, lugar da produção de um espetáculo.

Sedução onírica do Verbo que se faz carne ao correr da pena, da escrita líquida solidificada pelo desejo de ser lido e reescrito, amado, querido, por ti leitor: o parente mais próximo das personagens.

O romance fala do eu que é já o outro dele mesmo, que é também o leitor que se apropria do que antes lhe era estranho. Ao jeito Ricoeuriano, o romance faz a corte à alteridade que jaz em cada um de nós; a esse chão aparente, mas que possui portas e puxadores rodáveis, ao alcance das nossas mãos-olhos. É a dimensão do sonho ancorado que se desprende sem medos dos sentidos proibidos, que faz do mundo a sua casa. Que se sinta ao ler que tudo o que temos é o que somos!

Pergunto-me se os livros têm respiração própria. As personagens se sentem sepultadas em vida? Entre páginas e páginas comprimidas…se renascem sempre que cada um de nós, leitor, abre esse livro? Se assim for, o leitor é um deus, tem o poder de dar vida e de matar personagens; tal como o escritor que as faz nascer quando as nomeia ou as mata, quando põe um ponto final na história pessoal delas! Maravilhoso.

Adoro esta metáfora de papel.

Ao espelho retrovisor...

Na tabuada do Tempo, multiplicam-se tentações, desejos e o Pecado fica à espreita...abre e fecha Portas...somam-se segredos, confissões e o coração fica dividido...Assim é a Vida!

Ainda na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, num dos Saraus Culturais da Queima das Fitas, entrei no Palco e recitei o Cântico Negro; um cântico que tem sido uma espécie de bússola no meu caminho.

Mais tarde, numa cadeira do Mestrado em Literaturas Clássicas Comparadas na Univ. Clássica de Lisboa, relia a obra de Régio que mais me fascinava: O Vestido Cor de Fogo e escalpelizei a personagem principal do romance: Eugénia.

A linguagem e o estilo sedutores de Régio impressionaram-me até hoje...não foi por acaso que aos 19 anos estava a colaborar na última página do Jornal de Notícias, com crónicas denominadas F(r)icções eróticas, nas quais todos os temas sociais e políticos eram abordados.

E, se pensar novamente em Régio e nos seus Poemas do Deus e do Diabo , relembro a minha faceta mística e a linguagem do sagrado e do profano que iluminam nas entrelinhas esta longa, longuíssima Carta que é a Literatura; nomeadamente num livro de contos editado em 2013 e cujo título é este: Vou seduzir-te.

Régio seduziu-me desde a adolescência, assim como as suas Casas, a de Vila do Conde e a de Portalegre, pois em ambas respirava-se simbologias, emoções intensas de Eros e Thanatos; confissões secretas e dramas inconfessáveis.

Muito em breve e para celebrar os 125 anos de José Régio e os 80 anos da 1ª edição do seu Vestido Cor de Fogo, irá ser apresentado o meu Conto: O Vestido Cor do Pecado.

O Vestido Cor do Pecado, celebra a vida como uma adivinha que se propõe aos sentidos; um breve abrir e fechar de olhos...celebra a matéria de que são feitos os sonhos e celebra a transgressão como salvação; a coexistência dos opostos numa maravilhosa harmonia em comunhão com a própria Vida; com a Pessoa Humana que, como nos ensinou F. Pessoa, pode ser tudo de todas as maneiras...

Sejamos Pessoas, sem medos, tabus ou preconceitos!

A si, caro leitor (a), vai ser um convite para entrar em páginas espelhadas, onde se vai ver a seguir por ruas sem saída e alguns sentidos proibídos...mas não se esqueça, os desvios fazem parte do caminho.