…uma estrela virá de Jacó e um ceptro se erguerá de Israel…
(Números 24:17)
Luzindo há tanto tempo,
Há tanto tempo...
…(Fernando Pessoa)
Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio. Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.Vem, vagamente,
Vem, levemente,
…(Álvaro de Campos)
Desta vez, em mês de Reis, será a Estrela de Belém a conduzir-nos e a encantar-nos!
Eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?Era uma estrela tão alta!
(Manuel Bandeira)
Não me refiro a uma Estrela visível nas velhas Cartas Celestes com os mapas do céu que a tecnologia vai progressivamente permitindo definir desde há 32.500 anos (quando parecia esculpir a constelação de Orion em marfim de mamute) e de há 33 000 e 10 000 anos (desenho do aglomerado aberto de estrelas Plêiades na parede das cavernas de Lascaux, em França), passando pelas belíssimas mais modernas, como a do cartógrafo holandês Frederik de Wit (séc. XVII), itinerário bem sedutor que podemos folhear em obras como a de Carole Stott (Cartas Celestes: Antigos Mapas do Céu, 1992).
Hoje, cedem progressivamente a aplicações como o Sky Map, planetário portátil para o Android que permite identificar estrelas, planetas, nebulosas e muito mais, ou o Stellarium - Mapa de Estrelas, ou, ainda, pelo Star Walk 2, Guia de Astronomia que nos faz observar um mapa do céu interativo em tempo real na tela do telemóvel e usufruir de uma “Enciclopédia do Céu”, ou pelo Stellarium - Mapa de Estrelas – Apps... Nem Vénus, nem Sírius…
Não. Refiro-me à dos Reis Magos, que os teria conduzido a Belém e ao Jesus recém-nascido, início de novo calendário.
Do Oriente, a Estrela veio para Portugal, onde se multiplicou da serra ao mar, do interior ao litoral, insinuando os sentidos da sua História na constelação de que falei já num outro lugar, onde segui “Na Rota da Estrela”, perscrutando “o Evangelho Português em transformação”1.
Nessa viagem, a Estrela projectou imagens suas pela Europa: espelhando-se em fortalezas estreladas, que rivalizaram entre si na imponência dessa representação, concentrando e contendo a urbe no seu seio2. Terá o modelo surgido em Itália por ideia de Da Vinci3 (cujas ideia influíram no projecto do Castelo Artilheiro de Vila Viçosa, 1525-37), e ter-se-á ele divulgado pela Europa4, dada a sua eficácia na defesa e no ataque ao inimigo, como assumiu Maquiavel (A Arte de Fortificar).
As crianças viravam as folhas
dos dias enevoados
e da página do Natal
nasciam os montes prateados.(Natália Correia)
Cidades-estrela
Oh, que esplendor! Que formosura aquela!
É lírio de oiro aberto! É rosa a arder!Aí vem a estrela! Aí vem, sobre a montanha,
Tão virginal, tão nova, que parece
Sair das mãos de Deus, a vez primeira!E como, sobre os montes, resplandece!
(Teixeira de Pascoaes)
E a estrela do céu parou em cima
De uma rua…(Sophia de Mello Breyner Andresen)
Espelhando em terra a Estrela de Belém ou outra, aludindo à nossa ânsia de mais além, as cidades muralhadas em forma de estrela (fortalezas abaluartadas) impõem-se na paisagem, pontuando-a de ideal. Regulares ou irregulares, inscritas em redes de defesa militar ou isoladas, elas pontuam o território da velha Europa e expandem-se pelo mundo.
Aí vem a estrela, alumiando a serra!
E os olhos encantados dos pastores
Voltam-se para a estrela...(Teixeira de Pascoaes)
No caminho…
Luz das estrelas, vaga luz silente,
Cai dos abismos do mistério ardente(Guerra Junqueiro)
Na Europa, o destaque vai para o "cinturão de ferro" em defesa da França, a “constelação” de 12 fortificações projetadas por Vauban5 (Patrimônio Mundial da UNESCO, 2008), uma obra-prima da arquitetura militar6.
A cidadela de Arras (Pas-de-Calais); a cidadela, as muralhas da cidade e o Forte Griffon de Besançon (Doubs); cidadela e as muralhas da cidade, o Forte Paté e o Forte Médoc de Blaye - Cussac-Fort-Médoc (Gironde); a muralha urbana, o reduto de Salettes, o forte de Trois-Têtes, o forte de Randouillet, a estrutura de comunicação Y e a ponte de Asfeld de Briançon (Hautes-Alpes); a torre dourada de Camaret-sur-Mer (Finistère); a nova cidade de Longwy (Meurthe-et-Moselle); a fortaleza de Mont-Dauphin (Altos-Alpes); a cidadela e o recinto de Mont-Louis (Pirenéus Orientais); a nova cidade de Neuf-Brisach (1699) (Alto Reno)7; o recinto e a cidadela de Saint-Martin-de-Ré (Charente-Maritime); as torres de observação de Saint-Vaast-la-Hougue e Ilha Tatihou (Mancha); o recinto, o Forte Libéria e a gruta conhecida como “Cova Bastera” de Villefranche-de-Conflent (Pyrénées-Orientales).
Acrescente-se a Cidadela de Lille, exemplo icónico de fortificação em estrela com 9 baluartes e modelo para muitas outras cidadelas, e não esqueçamos Rocroi (Ardenas, França)8.
Outros exemplos de fortalezas estreladas são, dentre muitos: as de Bourtange9, Heusden e Muiden (Países Baixos); Naarden Vesting (Alemanha); a de Neuhäusel, (1663-80, Baixa Hungria, hoje, Nové Zámky, Eslováquia)10; as de Palmanova11 e Lucca12 (Itália); as de Valença, Ciudad Rodrigo e Jaca13 (Espanha); a de Alba Iulia (Roménia); etc..
... E em Portugal
E neve, neve, a caiar
De triste melancolia
Os caminhos onde um dia
Vi os Magos galopar…(Miguel Torga)
Em Portugal, antes e com os Filipes, multiplicam-se pelo litoral, como bem assinala Augusto Moutinho Borges (Castelos e Fortalezas no Litoral Português, 2025): a Fortaleza de São Filipe (1582-94), o Forte de São Francisco ou Fortaleza de Peniche (1558), que aloja o Museu da Resistência e da Liberdade, Sagres (século XV)14, prolongamento humano do rochedo natural, durante séculos a principal praça de guerra de um sistema defensivo marítimo; Fortaleza da praia da Consolação (Atouguia da Baleia, Peniche), dedicada a Nossa Senhora do Cabo com baluartes triangulares, construída sobre escarpa rochosa; etc.
Com a Guerra da Restauração (1640-1668) a Coroa portuguesa reforçou as fortificações raianas já existentes adaptando-as ao modelo e formando a actual Rota das Fortalezas Abaluartadas da Raia15 estudada por Augusto Moutinho Borges (Castelos e Fortalezas na Raia Luso-Espanhola, 2023, obra associada à emissão filatélica “Castelos e Fortalezas da Raia”), com 1319 km de fronteira mais antiga da Europa, engloba as fortalezas de Elvas, Almeida, Marvão e Valença: de Castro Marim a Valença do Minho (1661-1713)sup>16, de Arronches ou Monforte a Almeida e a Chaves. Na nossa diáspora, outras foram surgindo ao longo do império-arquipélago nacional, projectando sinais da passagem lusa, como a Fortaleza de São Sebastião (Ilha de Moçambique).
Dois destaques:
Elvas17, Património Mundial pela UNESCO desde 2012, o mais bem preservado sistema de arte fortificado holandês no mundo e o maior do mundo na tipologia de fortificações abaluartadas terrestres, com um perímetro de 8 a 10 Km e uma área de 300 hectares: as muralhas abaluartadas do séc. XVII, o Forte de Santa Luzia Fortaleza da Graça ou de Lippe18 (1641)19, o Forte da Graça, o Aqueduto da Amoreira e os três fortins: de São Pedro, de São Mamede e de São Domingos ou da Piedade. A “verdadeira estrela do Alentejo”, segundo a National Geographic.
E Almeida20, uma incrível máquina de guerra com de mais de 100 canhoeiras nos parapeitos e nas plataformas para morteiros e paióis subterrâneos, que se espraia por 12 simbólicas pontas (como os meses, os apóstolos, etc.). Hoje, integra o Museu Histórico Militar de Almeida e o CEAMA, arautos da Fortificação Abaluartada, oferecendo uma visita guiada através da aplicação “Conhecer Almeida” que permite vários percursos sob a forma de vídeo, imagens ou áudio, devidamente contextualizados, assim como a funcionalidade de georreferenciação, realidade aumentada e virtual, som e vídeo 3D, gamificação e visitas inclusivas.
Recentemente, Almeida lançou com entusiasmo o projecto de “Almeida, Vila de Escritores”, homenageando mais de 30 autores que lá nasceram, morreram, viveram ou passaram21, num vasto programa comemorativo22 com Embaixadora (Annabela Rita)23 e celebração, também, de personalidades com ela relacionadas24. E atentemos a algumas das iniciativas da Estrela Geopark Mundial da UNESCO, que nos convida ao longo do ano…
Enfim…
Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim./…/
Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
- Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!(Augusto Gil)
… Suspendo este folheio das estrelas que em terra se projectaram com fins militares, é certo, mas que agora se enfeitam de luzes e… evoquemos os Reis que seguiram a do Oriente, essa mesmo na origem mítica das Beléns espalhadas pelos continentes.
E como é branca de graça.
A paisagem que não sei.(Fernando Pessoa)
E visitemos uma cidade-estrela (como Almeida) ou uma constelada (como Lisboa, com Bairro, Largo, Jardim e Basílica assim designados, anunciando Belém/Restelo), fazendo dela a nossa nova Belém e mergulhando nesse imaginário de outroragora em que Natal “é quando um homem quiser” (Ary dos Santos).
Haja bolos de Reis e de Rainhas! Porque
Ó da casa, nobre gente escutai e ouvireis da parte do Oriente, são chegados os três Reis25…
e…
Vamos cantar as janeiras.
Vamos cantar as janeiras.
…
Vamos cantar orvalhadas.
Vamos cantar orvalhadas.
…
Muita neve cai na serra.
Muita neve cai na serra.
…(José/Zeca Afonso)
Diante da árvore no cimo da qual a nossa Estrela brilha: bom Natal, ainda e sempre!
…
Eu vi, virei estrela!
Eu vi!(Maria Bethânia)
Voto de Natal
Acenda-se de novo o Presépio no Mundo!
Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!
Como quem na corrida entrega o testemunho,
passo agora o Natal para as mãos dos meus filhos.(David Mourão-Ferreira)
Em cada estrela sempre pomos a esperança
De que ela seja a mensageira,
E a sua chama azul encha de luz a terra inteira.(João Cabral do Nascimento)
Referências
1 Annabela Rita. “Na Rota da Estrela: o Evangelho Português em transformação”, Observador, 12/06/2025.
2 Cf. planta e nomenclatura de uma fortificação abaluartada.
3 Tradicionalmente (segundo a História de Itália de Maquiavel), teria sido a expedição de Carlos VIII da França contra o Reino de Nápoles (1494-97) a estimular inovações na arquitectura militar.
4 “/…/ [N]ascendo a fortificação abaluartada na Itália, no final do século XV (VIGUS, 2013: 1, 3, 9), ela predominaria durante todo o seguinte e parte de Setecentos, abrangendo as Escolas Italiana - cuja principal preocupação era a proteção das cortinas (5) -, Holandesa - tinha como foco principal o fosso e planta estrelada - e Francesa - desenvolveu o pleno traçado abaluartado contra a artilharia. // Ana Teresa Graça de Sousa. “Salvaguardar e Valorizar o Conjunto Abaluartado de Évora: Património Histórico e Militar”, Antrope (“Salvaguardar a Valorizar o Conjunto Abaluartado de Évora: Património Histórico e Militar”), nº 6, pp. 86 – 114.
5 Mapa da rede dos principais sítios arqueológicos de Vauban na França.
6 Les fortifications de Vauban, Patrimoine mondial de l'Unesco.
7 Fortificação abaluartada.
8 L’étoile fortifiée qui a marqué l’histoire.
9 Vista áerea do Forte Bourtange na província de Groninga, Países Baixos.
10 Fortification bastionnée.
11 Plan de Palmanova datant de 1593.
12 Lucca, Italy; Um passeio pela muralha de Lucca.
13 Cidadela de Jaca, Espanha.
14 Fortaleza de Sagres.
15 Rota das Fortalezas Abaluartadas da Raia.
16 Fortaleza de Valença.
17 Fortaleza.
18 Elvas.
19 Conferir.
20 Almeida.
21 Almeida Vila de Escritores.
22 Post de Rádio Fronteira.
24 Letras Convida.
25 Zófimo Consiglieri Pedroso. Tradições Populares Portuguesas. [S.l.], Edições Vercial, 2014.















