As guerras que devastaram a Europa na primeira metade do século XX exerceram influência direta sobre a produção artística do continente. Com o cinema não poderia ser diferente: além dos impactos na realização cinematográfica de países envolvidos na guerra, as consequências físicas e psicológicas dos conflitos tornaram-se matéria-prima para diversas cinematografias, algumas delas fundamentais para as transformações estéticas ao longo do século. Destaque para o neorrealismo italiano, surgido no contexto de retomada do cinema europeu após a Segunda Guerra Mundial, período em que autores como Roberto Rossellini e Luchino Visconti iniciaram suas trajetórias cinematográficas, seguindo diretrizes estéticas que privilegiavam uma dramaturgia naturalista, o uso de atores não-profissionais e o encontro da câmera com locações externas ao invés dos imponentes estúdios de cinema.

Dado o aspecto realista da imagem cinematográfica e a proximidade que esses cineastas alcançaram com os escombros da guerra nas cidades europeias, obras como Roma, Cidade Aberta (Roma città aperta, 1945), Alemanha, Ano Zero (Germania anno zero, 1948), Obsessão (Ossessione, 1943) e A Terra Treme (La terra trema, 1948) deram um novo passo na representação do real no cinema, propondo uma continuidade e um diálogo íntimo com esforços anteriores, como os precursores documentários dos irmãos Lumière na virada do século XIX para o XX e as proposições do realismo poético francês dos anos 1930. Filmes que revelavam em suas imagens um mundo que, naquele momento, estava esfacelado do lado de fora das salas de cinema, e que projetavam esse mundo nas telas com toda a sua complexidade, beleza e dor.

Do período pós-guerras até meados da década de 1970, a Itália originou uma das cinematografias mais prolíferas do cinema moderno, e suas qualidades, evidentemente, não se restringem ao aspecto realista das imagens. Poucos anos após o nascimento do neorrealismo, o cinema italiano incorporaria diferentes modelos e gêneros narrativos (horror, comédia, western, policial, capa e espada), sendo influenciado ainda por outras artes e campos do conhecimento, e desdobrando-se em múltiplas possibilidades de experimentação estética. Foi o país que deu ao mundo cineastas tão distintos quanto Michelangelo Antonioni, Riccardo Freda, Mario Bava, Mario Monicelli, Dino Risi, Pier Paolo Pasolini e Sergio Sollima - realizadores que, mesmo sensíveis às questões do seu tempo, construíram assinaturas estéticas absolutamente distintas.

Nesse aspecto, um dos cineastas fundamentais para mergulhar no cinema moderno italiano é Valerio Zurlini. Figura relativamente marginal - não recebeu o mesmo reconhecimento de Michelangelo Antonioni, por exemplo, embora seja frequentemente comparado a ele -, mas cuja filmografia atravessou com excelência três décadas da produção italiana (1950, 1960, 1970).

Desde a sua primeira obra-prima, Verão Violento (1959), a guerra foi tema onipresente no cinema de Zurlini, ora debruçando-se sobre vidas afetadas por ela (Verão Violento, A Moça com a Valise, A Primeira Noite de Tranquilidade), ora filmando militares no exercício de sua função (La Soldatesse, Sentado ao Seu Lado, Deserto dos Tártaros). A própria trajetória de Zurlini contribui para compreendermos sua dedicação ao tema: além de testemunhar o conflito com os próprios olhos durante a juventude, o então jovem Zurlini trabalhou no Comitê Nacional de Libertação, grupo que lutou pela destituição do regime fascista na Itália, enquanto lidava frontalmente com os impactos desse regime.

Os protagonistas de Zurlini refletem um sentimento de desencanto diante da enfermidade da Europa pós-guerras, vivendo às margens da sociedade e sob intenso conflito existencial. São testemunhas de um mal-estar onipresente, que o cineasta representa em suas imagens por meio da construção de atmosferas visuais sofisticadas, recorrendo a uma mise en scène que preenche o espaço em torno dos seus corpos com a matéria de suas próprias almas. Um cinema que não apenas aborda os aspectos psicológicos no âmbito narrativo ou discursivo, mas que se apropria deles para a composição pictórica, influenciando as definições de luz, o tom das atuações, a distribuição dos elementos no quadro, a angulação da câmera e seus movimentos, o ritmo narrativo.

Para o crítico francês Jean Gilli, especialista em Zurlini, o diretor ocupa uma posição particular na história do realismo italiano: a de quem, em suma, filma a realidade humana interior. São as paisagens da alma a matéria fundamental para o diretor, convidando o espectador a mergulhar na beleza da melancolia e nos dilemas existenciais das vidas representadas. Este procedimento atinge o esplendor em seus principais trabalhos, como Dois Destinos, A Primeira Noite de Tranquilidade e O Deserto dos Tártaros. Filmes envoltos por uma atmosfera exasperante de luto, onde o tempo parece fluir em suspensão e a existência humana ser destituída de sentido, restando às personagens perambularem sem direção e aguardarem em silêncio a própria morte.

Na primeira parte deste ensaio sobre Zurlini, contextualizamos o renascimento do cinema italiano após a Segunda Guerra mundial, sua versatilidade e importância para a modernidade cinematográfica, dentro da qual se encaixa Valerio Zurlini - um autor que deu forma ao vazio existencial e à fragilidade da experiência humana. Na segunda parte deste ensaio, repassaremos a trajetória de Zurlini filme a filme, observando o desenvolvimento de sua carreira desde o primeiro longa metragem, As Garotas de San Frediano, até sua despedida das telas em O Deserto dos Tártaros.

Filmografia – Valerio Zurlini (longas-metragens para cinema)

  • As Garotas de San Frediano (Le ragazze di San Frediano, 1955).

  • Verão Violento (Estate violenta, 1959).

  • A Moça com a Valise (La ragazza con la valigia, 1961).

  • Dois Destinos (Cronaca familiare, 1962).

  • Sentado ao Seu Lado (Seduto alla sua destra, 1968).

  • Mulheres no Front (Le soldatesse, 1965).

  • A Primeira Noite de Tranquilidade (La prima notte di quiete, 1972).

  • O Deserto dos Tártaros (Il deserto dei tartari, 1976).