Foi-se o tempo em que o acesso era realizado por cartas, ou por visitas marcadas com muita antecedência, ou mesmo pelas notícias do rádio. Tempo este, de ouvidos afinados! Mas, as variações no cenário das invenções humanas, fortaleceram a existência de novas construções sociais no cotidiano das relações sociais. Como um caleidoscópio, a vida vai se entrelaçando entre o que não serve e o que pode ser acessado.
Nessa brincadeira vivenciamos com velocidade novos paradoxos de modos de vida, que na verdade, configuram uma nova expansão de narrativas midiáticas em converter o que seja mais significativo para a praticidade nas tarefas do cotidiano, que geram novos suportes de vínculos entre as fronteiras do econômico, político e social. São tempos de estranhamento nas fronteiras do imaginário coletivo. Para tanto, são necessários novos recursos de conexões.
As culturas populares desenvolvem em seu cotidiano modos de conexões nas suas interações sociais. Fazem no seu cotidiano uso de alternativas para exibir da melhor forma suas conexões com o mundo, entre o sagrado e o que não é sagrado.
Cabe registrar que a comunicação nas culturas populares é carregada de sentidos. A potencialidade nas culturas populares reside na dinâmica da comunicação que atravessa a realidade. Assim, a comunicação ocorre quando escutamos, quando vemos, quando gesticulamos porque usamos artifícios para melhorar nossa interação. Susan Sontag afirma que “a imagem é a subversão da realidade”; as nossas experiências são necessárias para compor uma comunicação. Já o filósofo Vilém Flusser sinaliza que “imagens são superfícies que tentam representar algo” (Flusser, 2002, p.07).
Necessitamos compreender que na dinâmica das culturas populares essa perturbação, esse desequilíbrio para alçar a realidade, é a criação instantânea do resultado do imaginário nas culturas populares. Elas buscam de maneira imprevisível elevar seus interesses, seu cotidiano, suas expectativas, criando e recriando formas de comunicação. Para tanto, Vilém Flusser ressalta a questão imprescindível, que é o tempo. Diz Flusser (2002, p.08) que “o tempo que circula e estabelece relações significativas é muito específico: tempo de magia. Tempo diferente do linear, o qual estabelece relações causais entre eventos”. O tempo seria o lugar mágico de criação. Se o tempo exige novos acessos, por que não utilizá-los? E se o tempo fornece novas expansões de narrativas, por que não sofisticá-las?
Ainda nesse contexto da comunicação podemos salientar a devoção, a fé e a determinação que ajudam a dar sentido entre a natureza divina e a natureza humana.
Há de se considerar que as culturas populares assimilaram e assimilam de maneira rápida o acesso virtual pela expansão das narrativas midiáticas. Tudo isso ocorre porque a essência das culturas populares está na criatividade, na busca pelo novo e pelas novidades.
Encontramos nas festas populares incentivada e motivada pelas redes sociais, o aparato das narrativas midiáticas, desde as inscrições online, apresentação simultânea pelo youtube ou instagram e facebook, onde o virtual e o real se misturam para dar visibilidade ao mundo espetacular da criatividade. Nesse cenário controverso, as culturas populares se atualizam, porque a sua sobrevivência faz parte do acesso.
Isso tudo remete ao que Eric Hobsbawm intitulou de “as invenções das tradições”. Diz ele que, “muitas vezes, “tradições” que parecem ou são consideradas antigas são bastante recentes, quando não são inventadas…". O termo “tradição inventada” é utilizado num sentido amplo, mas nunca indefinido. Inclui tanto as “tradições” realmente inventadas, construídas e formalmente institucionalizadas, quanto as que surgiram de maneira mais difícil de localizar num período limitado e determinado de tempo - às vezes coisa de poucos anos apenas - e se estabeleceram com enorme rapidez…
Por “tradição inventada” entende-se um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente; uma continuidade em relação ao passado. (Hobsbawm, 1984, p.9). Se a tradição é inventada, podemos pensar que a tradição estará sempre viva a partir do aporte da comunicação. Digamos que as culturas populares driblam o sistema para compor sua existência.
Cabe ressaltar que os antigos folcloristas estão sempre interessados pelas antiguidades populares, pelos vestígios do paganismos e pelos movimentos de práticas, digamos um tanto suspeitos para a época vigente. Nesse ponto, o pesquisador John Brand (1744-1806), um dos primeiros antiquários ingleses, em Observação sobre as Antiguidades Populares, demonstra uma relativa tolerância às manifestações que deveriam ser preservadas e estimuladas, desde que fossem vigiadas de perto.
No ano de 1718 é fundada na Inglaterra a Sociedade de Antiquários, que se estende à França e à Itália. Durante o século XIX, vários clubes semelhantes se originaram, e entre eles a Folklore Society, criada por John Thoms. Este período foi marcado por grande compilação e organização dos materiais colhidos. No entanto, na Inglaterra, as antiguidades não eram ainda associadas como valor coletivo ou nacional1.
Brand notou a distância política existente entre os povos da cultura popular. Para tanto, o objetivo de Brand era “descrever os antigos costumes que ainda subsistem nos recantos obscuros do nosso país, ou que sobrevivem à marcha do progresso na nossa existência urbana” (E.P. Thompson, 1998, p. 14).
Isso implica dizer que as culturas populares produziam e produzem artifícios nas suas práticas cotidianas, verbalizando seu imaginário pela repetição de seus rituais com inovações do passado. “Contudo, na medida em que há referência a um passado histórico, as tradições “inventadas” caracterizam-se por estabelecer com ele uma continuidade bastante artificial. Em poucas palavras, elas são reações a situações novas que ou assumem a forma de referência a situações anteriores, ou estabelecem seu próprio passado através da repetição quase que obrigatória. É o contraste entre as constantes mudanças e inovações do mundo moderno e a tentativa de estruturar de maneira imutável e invariável ao menos alguns aspectos da vida social que torna a ‘invenção da tradição’” (Hobsbawm, 1984, p.9).
Toda essa repetição dos rituais pela tradição afirma o refinamento da embocadura nas culturas populares. Ou seja, elas precisam do passado, dos rituais para que o novo aconteça com mudanças significativas.
Há de se considerar que o conceito de "costumes" foi definido por Francis Bacon como a "segunda natureza do homem”, enquanto Jean Jacques Rousseau dizia que “os costumes ficam gravados no coração.”
Assim, o imaginário popular se constrói com base nos costumes, ou seja, com base nas práticas cotidianas e no seu acesso. A realidade aumentada através do uso da tecnologia possibilitou que o imaginário popular enfrentasse seus desafios.
O uso do QR Code, (QR code significa "Quick Response" (resposta rápida) e é um código de barras bidimensional que armazena informações como URLs, contatos, textos e dados para pagamentos. Ele pode ser escaneado rapidamente por câmeras de celulares e aplicativos, servindo como uma "ponte digital" entre o mundo físico e o digital. Trouxe mudanças significativas no dia a dia das culturas populares2. Para melhor compreensão do uso do QR Code, pode ser traduzido pela versatilidade de dados, leitura rápida e uso comum para todos.
As culturas populares já usam “QR code” faz tempo pelo seu imaginário, elas fazem e trazem a vivacidade das tradições. Há QR code nos postes das cidades informando o instagram das cartomantes, há QR code para quem deseja pagar os aplicativos móveis, há QR code, para facilitar o acesso ao instagram das manifestações folclóricas, há QR Code feito um colar para para pagar a cerveja no carnaval entre outras atividades. São tempos de versatilidade da realidade. Pois como dia Franklin Cascaes, “ É a manifestação do fantástico que permeia a realidade.”
Observamos que o acesso pela expansão das narrativas digitais fortalece a embocadura nas culturas populares. Assim, faz-se necessário e cada vez mais que conheçamos o Brasil. Que sobretudo conhecemos a gente do Brasil... Nós precisamos de moços pesquisadores, que vão à casa do povo recolher com seriedade e de maneira completa o que esse povo guarda e rapidamente esquece, desnorteado pelo progresso inovador.”3
Notas
1 Batista, Monique Mendes Silva. Dissertação de mestrado Universidade Estadual Paulista. Faculdade de Ciências Humanas e Sociais - Brasilidade e modernidade: folclore e sensibilidade romântica em Mário de Andrade (1920-1945).
2 Retirado da IA - Inteligência Artificial.
3 Andrade apud Carlini, Álvaro. Cachimbo e macará: o catimbó da Missão (1938). São Paulo: CCSP, 1993. p. 20















