Provavelmente, você já tenha ouvido falar sobre Elena Ferrante; quem sabe já a tenha lido. Particularmente, gosto muito dessa aclamada escritora italiana e sua literatura ricamente descritiva do que se passa mascarado em nossas mentes. Lendo seu texto “Filhas”1, me surpreendi: essa autora percebe suas filhas como eu percebo as minhas. Elena comenta como se identifica com suas filhas, vendo nelas sua continuidade, ao mesmo tempo em que nota diferenças entre as três, advindas das singularidades próprias de cada uma e da influência do espaço-tempo em que se desenvolveram.
“Filhas” me emociou. Possibilitou que eu desse maior significado a algo que sentia dentro de mim, mas pensava ser bobeira de mãe. Quantas e quantas vezes olho as minhas filhas e me vejo em um espelho, daqueles que teriam a capacidade de diminuir o refletido. Noto os jeitos pelos quais carregam suas bolsas, movem seus cabelos, sentam-se com as pernas cruzadas desde pequenas. Me recordo que uma professora da educação infantil de uma de minhas filhas comentou, durante uma reunião individual, que minha filha sentava igualzinho ao modo como eu estava sentada naquele momento.
Claro, penso eu, isso é modelação. Como mãe, que, afortunadamente, pode passar todos os dias juntos às minhas filhas de modo intenso e constante, é natural e esperado que muitos modos e comportamentos sejam assimilados por elas. Ou seja, todos os dias elas me observam, com toda a atenção oculta das crianças, e vão aprendendo como atuar. Afinal, muito do que sabemos e fazemos aprendemos por meio da observação de modelos mais próximos, como pais, familiares e professores, dentre outros, como também de modelos mais distantes, como os observados nos desenhos animados, filmes e vídeos de redes sociais.
Um estudo brasileiro2 realizado com mulheres de duas gerações da mesma família que viviam na zona rural do Nordeste evidenciou a semelhança entre mães e filhas. Nessa amostra as filhas demonstraram seguir os mesmos padrões quanto ao nível de estudo, idade em que iniciaram a trabalhar, a religião, a perspectiva de se casar como um projeto de vida e a escolha profissional. Esse estudo sinaliza que nas regiões mais distantes dos polos urbanos a modelação maternal quanto ao modo de vida de suas filhas parece ser intensa, auxiliando a se manter valores e tradições culturais e proporcionando pouco espaço para o novo, de modo que não foi constatada uma evolução social.
Quanto à vivência escolar identificou-se que o nível educacional das mães se relaciona com as percepções sobre as capacidades de seus filhos. Em duas3 pesquisas sobre autoeficácia acadêmica realizadas com estudantes de escolas públicas brasileiras foi constatado que os estudantes que mais se percebiam capazes de aprender eram filhos de mulheres com níveis educacionais mais avançados. Nesses casos, poder-se-ia inferir que por meio de um maior conhecimento as mães acreditam que suas filhas podem aprender o novo e as estimulam a ir além do que elas próprias foram, aspecto que contribuíria para a evolução social.
Sendo eu, alguém que já tinha consciência sobre o papel de modelação brevemente aqui comentado, por que o texto "Filhas", de Elena Ferrante, me há emocionado? Essa foi a pergunta que ficou rondando meus pensamentos e não encontrou resposta. Foi, somente ao deixar de buscar uma explicação, que senti no íntimo de meu ser. Me emocionei porque sinto que por meio de minhas filhas nunca deixarei de existir. Assim, como minha mãe, minha avó e minhas antepassadas que bravamente construíram os caminhos para que minha alma aqui chegasse. Essas mulheres continuam vivas dentro de mim, que as levo, com nossas imperfeições, a onde quer que eu vá.
É fato: quantas e quantas vezes já me peguei pensando o quanto sou parecida com minha mãe. Não digo fisicamente, mas quanto aos modos de atuar e de sentir. Sua coragem em romper muros e construir caminhos a levaram a novas aventuras que me inspiram e me guiam. Tenho seguido alguns caminhos que ela me mostrou e, nos caminhos que decidi trilhar diferente, noto sua força e confiança em sua capacidade para construir o novo como inspiração para que eu também construa o meu novo.
Construir o meu novo implica em ousadia. Ousadia para me permitir aprender, não apenas memorizando os conteúdos a fim de garantir uma boa nota nas provas acadêmicas e/ou profissionais; ousadia para assimilar e incorporar os novos modos de pensar e atuar decorrentes dos novos saberes e, assim, contribuir para a evolução da sociedade. Esta que, geração após geração, vem se desenvolvendo pouco a pouco graças à posta em prática dos conhecimentos e tecnologias contruídos a cada época.
É justamente nessa linha tênue entre o seguir e o romper que me construo como ser, mantendo minha mãe e minhas antepassadas pulsando dentro de mim, tornando-as eternas. É justamente com a reprodução desse ciclo que minhas filhas me manterão nesta Terra mesmo quando eu aqui não mais estiver.
Notas
1 O texto Hijas está publicado em Elena Ferrante, La invención ocasional. Lumen. 2019.
2 Ana Cleide da Silva Dias; Iraneide Nascimento dos Santos; Guilherme de Andrade Ruela; Aline do Monte Gurgel. Semelhanças e diferenças intergeneracionais entre mães e filhas trabalhadoras rurais: características sociodemográficas e reprodutivas. Esc. Anna Nery. 26. 2022. 10.1590/2177-9465-ean-2021-0334pt.
3 Estudo 1: Azzi, R.G.; Casanova, D.C.G. Sucesso escolar: em busca de estratégias para o fortalecimento de crenças de eficácia 2021.
Estudo 2: Guerreiro-Casanovai, Daniela Couto; Dantas, Marilda Aparecida; Azzi, Roberta Gurgel. Autoeficácia de Alunos do Ensino Médio e Nível de Escolaridade dos Pais. Est. Inter. Psicol., Londrina , v. 2, n. 1, p. 36-55, jun. 2011.















