Há algumas semanas, presenciei algo raro: minha filha saiu da escola toda empolgada! Entrou no carro e começou a relatar o acontecido em uma aula de linguagem, com uma velocidade de palavras que, confesso, necessitava concentrar-me para seguir sua história. O acontecido foi tão simples, mas tão efetivo, que julgo ser interessante compartilhar com você, leitor amigo.
Mãe, hoje tivemos uma aula socrática! O professor fazia perguntas e mais perguntas: parecia um debate. Você tinha que ver minhas respostas!
Como educadora, percebo que a estratégia utilizada em classe permitiu aos estudantes expressarem suas pensamentos e opiniões sobre o livro que haviam lido. E, o mais importante, a atitude do professor permitiu que os estudantes se sentissem escutados. Não se tratava de concordar com tudo o que os estudantes falavam; justo o contrário, se tratava de escutá-los e, a partir dessa escuta, questioná-los novamente, exigindo uma reflexão constante sobre os próprios argumentos.
Como o nome da estratégia anuncia, a aula socrática é fundamentada nos saberes propagados pelo filósofo grego Sócrates. Este marcou a evolução da humanidade, buscando desenvolver a arte do diálogo baseado na reflexão e no uso da razão. Defendia que estar aberto a novos saberes, conhecimentos e ideias era fundamental para o uso da razão e para a construção de argumentos racionais. Para esse filósofo, o verdadeiro conhecimento nasce do íntimo da pessoa, não podendo ser imposto pelos demais. Sócrates costumava dizer que Atenas era um pangaré e ele era como um carrapato tentando tirar seus cidadãos do torpor e despertá-los de volta à vida1.
Pessoalmente, observo a necessidade de despertarmos as pessoas de nossos tempos como defendia Sócrates. Atualmente, vemos uma massa acrítica, consumindo informação de todo e qualquer tipo, sem refletir sobre sua veracidade, sem questionar a qual contexto tal informação se aplicaria. A arte do diálogo está sendo substituída pela pobre habilidade de escrever uma pergunta a algumas das inteligências artificiais disponíveis. O autoconhecimento e a autorreflexão estão sendo anulados, tomando-se as respostas das inteligências artificiais como fatos absolutos.
Estudiosos da evolução humana externalizam suas preocupações. Alertam para possíveis reações fisiológicas, bem como o não desenvolvimento de competências como pensamento crítico, resolução de problemas e outras. Isto porque as competências humanas são, em sua maioria, desenvolvidas pelo estímulo que recebem e pelo uso que fazemos destas. Se não as usamos, se não as estimulamos, estas podem não florescer.
Nosso sistema nervoso é como uma semente de uma rosa, ou de qualquer outra flor. Não basta apenas comprarmos a melhor semente e plantá-la; necessitamos prover terra fértil, regar constantemente e protegê-la das intempéries ambientais que não podemos controlar. Se conseguirmos realizar tais ações, a semente irá germinar, chegando a florescer, caso sigamos oferecendo as condições necessárias para o seu desenvolvimento. Sabemos que é necessário cuidar da gestação de nossas crianças; sabemos, também, que para que nossas crianças desenvolvam todo seu potencial é imprescindível haver estimulação ambiental.
Por séculos, as escolas e as universidades têm sido algumas das instituições mais impactantes para o desenvolvimento das potencialidades humanas. No entanto, atualmente, tais instituições vivenciam uma crise existencial, a qual arrisco-me a qualificar como sem precedentes. O reconhecimento sobre a importância da educação formal tem diminuído drasticamente nos últimos anos.
Estudantes acreditam que podem aprender o que quiserem por meio de conteúdos divulgados em redes sociais ou por meio de uma pergunta às inteligências artificiais, as quais magicamente lhes proporcionam as respostas esquematizadas ou as tarefas, redações e pesquisas prontas. Qual seria a capacidade que os estudantes estariam desenvolvendo por meio de ações como a relatada? Qual o nível de pensamento crítico sobre determinado assunto estariam exercitando? Talvez os mais dedicados poderiam desenvolver a memória se dedicassem tempo para ler as tarefas realizadas pelas inteligências artificiais. Infelizmente, muitos nem isso fazem.
De modo condizente com o que tenho publicado, defendo o uso de estratégias ativas de ensino e aprendizagem como uma das possibilidades para se vencer a apatia estudantil. As aulas socráticas, acredito, encaixam-se perfeitamente no contexto educacional atual e poderiam ser uma resposta escolar para auxiliar o florescer humano em nossas crianças e jovens. À medida que as salas de aula se tornem espaços que vivenciam as reflexões, nossos estudantes podem voltar a se sentirem escutados e vistos. Nesse espaço onde estudantes são vistos, provavelmente professores também o serão. Iniciamos, assim, um ciclo de respeito pela individualidade de cada ser integrante da classe. Neste espaço onde cada parte é reconhecida, a reflexão pode ir, pouco a pouco, ganhando espaço, até que chegue a ser valorizada e cada um de seus integrantes busque refletir, escutar e rever suas verdades para construir novos saberes.
Não é necessário banir as inteligências artificiais. É imprescindível ensinar a usá-las sem abrir mão da reflexão e do questionamento. É preciso buscar novas conexões a partir das respostas obtidas via os recursos tecnológicos. Este é um tema ético e moral com o qual necessitamos lidar enquanto sociedade, de modo a valorizar o saber, o pensamento crítico e as singularidades de cada pessoa.
Sócrates foi condenado à morte porque pensava por si e estimulava as demais pessoas a também refletirem por si sós. Isso incomodou o status quo. Se a educação formal deixar de estimular o desenvolvimento do pensamento crítico em nossas crianças e jovens, quem estará controlando o atual status quo? Deixar de pensar criticamente, de desenvolver nosso potencial humano em sua totalidade é entregar o controle de nossa sociedade aos impérios tecnológicos.
Referência
1 Ggaarder, Jostein (2012). O mundo de Sofia: romance da história da filosofia. Seguinte. 566p.














