Olá, caro leitor!

Hoje quero ter uma conversa séria com você sobre uma nova moda que vem consumindo pouco a pouco a renda dos brasileiros (e não estou falando da inflação); que é uma quadrilha de animais que se instaurou nos celulares de diversas pessoas: o Tigrinho e seus amigos. Isso mesmo, o cassino online. Então, nesse artigo, eu não quero chover no molhado e ocupar o seu tempo com diversas obviedades, ou tentar convencer que isso não é investimento.

Quero ir mais profundo e discutir o motivo dessa verdadeira epidemia ter conseguido se espalhar tão rápido e quais foram os vetores que espalharam essa doença numa velocidade assustadora. E vamos arrematar o motivo no qual decidiram tentar controlar esse cavalo indomável antes que ele arrebentasse a cerca e fugisse.

Caso você tenha estado em outro planeta nos últimos meses, ou então não é um usuário de redes sociais, vou te explicar basicamente o que é o Tigrinho. O Jogo do Tigrinho (Fortune Tiger) é um cassino de slots, ou seja, você “gira a manivela” e as figuras vão se movendo para cima até um momento no qual elas param, ao parar podem formar combinações pagantes ou não. Cada giro consome uma quantidade de crédito definida pelo jogador.

Agora que você conhece a estrutura do jogo, vamos conhecer o RTP (return to player) do jogo. Basicamente esse é o número do quanto dos valores apostados são devolvidos para os jogadores, no caso aqui é de 96,81%. O que isso quer dizer? Vamos imaginar que temos na mesa 4 amigos e um crupiê. Os amigos estão jogando um jogo qualquer de cartas e apostando dinheiro. Então, cada rodada custa 1 real para participar, o valor não pode ser nem aumentado nem abaixado, sempre que a rodada acaba o crupiê divide o pote conforme as regras do jogo e fica com 3,19%, ou seja, quase 13 centavos do valor que estava no pote.

Então, como pôde ver, o dinheiro apenas mudou de mãos, alguém agora tem um pouco mais, outros um pouco menos, mas o crupiê está sempre ganhando. Ou seja, um perde, o outro ganha, mas a casa sempre ganha. Então. Agora que você conhece a estrutura do jogo e a matemática por trás, deve estar se perguntando “e por que alguém jogaria isso?”.

Finalmente chegamos no ponto importante do nosso artigo de hoje. Em um outro momento, falei do poker como forma de metáfora para fazer uma análise e crítica social. Se tu não viste, entre no meu perfil e veja meus artigos anteriores. Lá eu argumentava que quem possui a maior banca dita os rumos do jogo, mesmo que a sorte não esteja ao seu favor naquela rodada e que em casos muito específicos ele perderia essa capacidade de decisão. Agora, a lógica é diferente e quero explorá-la contigo.

O ser humano em geral possui aversão ao risco. Entretanto, existem diferentes níveis de risco. No bairro onde moro são 160 mil habitantes, na cidade onde moro a taxa de homicídios é de 4,31 para 100 mil habitantes. Então, fazendo uma conta bem simples, a probabilidade de eu ser vítima de um homicídio é de aproximadamente 0,004%. Vejamos, é um risco muito baixo, então podemos dizer que é seguro sair de casa. Entretanto, e se o risco fosse de 1%? Seria tão seguro assim? Note que para um risco de 1%, quer dizer que para cada 100 mil habitantes; mil não voltariam para casa.

Vamos voltar ao Tigrinho e às apostas. Então, qual seria um nível seguro de risco para os jogos de azar? Uma maneira falsa de mitigar o risco é realizar apostas muito baixas, pois ao apostar pequenas quantidades, no longo prazo teremos uma corrosão gigantesca do patrimônio. Porém, o usuário perde essa percepção, pois são perdidas em pequenas frações o capital. O que são centavos, não é mesmo?

O problema do risco é quando você o disfarça e deixa de conseguir medir o seu potencial dentro de qualquer esfera que estejamos falando. Ou, quando você não cobra o devido valor ao risco envolvido. “Como assim?”. Vou te explicar. Vamos supor que existe um tipo de investimento que te pague, com certeza, risco 0 e 10% ao ano; e existe um outro investimento, onde há o risco de se perder 20% do valor investido e que também te pague os mesmos 10%. Qual você escolheria? Provavelmente você escolheria risco 0 e 10% aa no bolso. E quando se escolheria o outro?

Bom, para escolher o outro, deveríamos entender se há ou não aversão ao risco dentro de você. Pode ser, que para o seu perfil, você escolha correr muito risco em busca de um acréscimo de 1% na remuneração. Pode ser, que nem dobrando ou triplicando o ganho, você aceite qualquer tipo de risco.

“Então Gabriel, você está dizendo que apostas é um tipo de investimento?”. De forma alguma. Aposta é aposta. Investimento é investimento. Quando se investe, você acredita de alguma maneira que aquele ativo poderá elevar seu valor: seja por uma boa gestão, seja por motivos políticos, seja por influência da economia. Quando você aposta, bem... você acredita que está do lado dos vencedores. Apostadores e investidores buscam ganhos. Apostadores através de qualquer custo. Investidores através de bons ativos e risco controlado.

Essa epidemia que tomou o Brasil, tem diversos vetores e vertentes. O jogo do bicho sempre esteve por aí. Entretanto, ele não estava no seu celular, você precisava ir até o bicheiro. O jogo de apostas sempre esteve com o brasileiro. Entretanto, ele não era vendido como um lifestyle, uma maneira de enriquecimento rápido. Isso mesmo, enriquecimento. “Mas Gabriel, os bicheiros bancam o Carnaval carioca, como assim não tem lifestyle?”

Calma! Eu explico! Quando víamos os bicheiros, era uma seletíssima cúpula que ficavam com o dinheiro. A ostentação e o luxo eram localizados, ficavam ali, naquele submundo. Já os casinos online fizeram uma simbiose do terror com os influenciadores e micro influenciadores. No qual, eles compartilhavam todo aquele luxo e divulgavam a possibilidade de enriquecimento em um clicar da tela do seu celular. Note que, uma coisa é você olhar uma pessoa afortunada e querer ser ela. Outra é você ver dezenas de pessoas aproveitando, bebendo e saber que elas são “gente como a gente”.

Repare que, os casinos se aproveitam de um viés psicológico importante, que também é explorado pelos influenciadores do mercado financeiro. Esse viés é conhecido como FOMO (fear of missing out), em português seria “medo de ficar de fora”. Olha só, tem centenas, milhares (pelo menos é essa sensação que eles tentam passar) de pessoas que estão ganhando, apenas você está de fora. Então, esse medo de ficar de fora faz com que você entre e não analise o risco, ou melhor, provavelmente você nem o conhece.

Veja que outros tipos de loteria não usam e abusam desse expediente, cito: Loterias Caixa, Jogo do Bicho e afins. Você sabe que elas existem, entretanto não te bombardeiam diariamente com as centenas de “vitórias” dos Gabriéis Brasil a fora. Então, o abuso do viés FOMO pode ser o principal motor para que tantas pessoas tenham entrado nessa onda.

Então, assim que abusaram da FOMO, os influenciadores também buscaram novos expedientes. Pois a natureza do negócio é o seguinte: o novo jogador entra, ganha no começo alguma coisa da plataforma e depois perde tudo; ele vai se sentir lesado e vai tentar “roubar” da plataforma, tipo um Robin Hood do dinheiro próprio; então, ele vai buscar alguma maneira de melhorar o seu estilo de jogo e é aí que os influenciadores atacam novamente.

Quando esse jogador passa a buscar por “ciências” ou “especialistas”, os influenciadores se vendem como os “experts que vencem qualquer RNG (Random Number Generator)”. Eles passam a se apropriar de estratégias de mitigação de risco do mercado financeiro para usar nos jogos de azar. O problema é que, jogo de azar é puramente um número gerado de maneira aleatória. Enquanto o mercado financeiro segue tendências, muitas vezes não são claras, mas é possível vê-las ali. Então, como eu vou usar uma ferramenta de uma coisa tendenciosa em outra não tendenciosa?

Então, o jogador, agora munido da expertise dos influenciadores vai novamente jogar. Provavelmente vai perder. Entretanto, o influenciador vai convencê-lo que talvez não tenha feito direito e que deve tentar novamente. Repare, quando eu erro uma previsão no mercado financeiro, meu ativo passa a valer menos do que eu paguei, mas com um pouco de estratégia e bom senso ainda posso reverter esse número. Em uma aposta, quando se perde, como reverte? Então, não se reverte.

Durante o ano de 2024, criei um perfil na rede Instagram e passei a assistir conteúdos voltados aos jogos de azar. Bizarramente, em coisa de 2 ou 3 vídeos, o algoritmo entendeu que era daquilo que eu gostava e consumia e passou a me mostrar vídeos atrás de vídeos de influenciadores com diferentes perfis. Muitos deles se vendiam como especialistas. Outros como hackers que conseguiram enganar o RNG. E tu, vai se vender como a vítima da vez.

Eu me assustei na velocidade que o algoritmo se viciou naquilo e me trazia cada vez mais. Durante muito tempo fiquei pensando em uma pessoa que não entende a lógica do jogo, vendo todos aqueles experts, vencedores, hackers e afins. Provavelmente são vítimas fáceis deles. Então, acredito que a Meta e outras empresas deveriam de alguma maneira filtrar, moderar e afins. Se você está lendo esse artigo, é por causa do meu editor que aceitou e postou na revista. Note, existe um moderador entre mim e você.

Entretanto, o Governo daqui decidiu se mexer e dar um jeito nos casinos. Claro, muito por causa disso aqui: “Em agosto de 2024, beneficiários do Bolsa Família gastaram cerca de R$ 3 bilhões em apostas online. Essa quantia representa aproximadamente 20% do total desembolsado pelo governo nesse mês. Além disso, cerca de 24 milhões de pessoas no Brasil participaram de jogos de azar e apostas online.".

Esses dados foram divulgados pelo Banco Central, que também destacou que a maioria dos apostadores tem entre 20 e 30 anos e que o valor médio das transferências aumenta conforme a idade.”. Esse resumo foi criado pela IA Copilot da Microsoft.

Note que, a população beneficiária do Bolsa Família em um único mês gastou praticamente o mesmo custo que o Governo tem com os acidentes de trânsito (aproximadamente 4,17 bilhões). Vale comentar, que até surgir a Lei das Bets, todo o valor arrecado pelos casinos não eram tributados pelo governo, indo integralmente para os bolsos dos envolvidos.

Quer ficar ainda mais surpreso? As empresas tabagistas movimentaram no ano de 2024 quase 6 bilhões de reais. As bets, só com os usuários do Bolsa Família movimentaram metade disso em um mês. Seriam as bets o novo tabaco? Só que um tabaco que não incomoda as pessoas ao redor?

Aqui, estamos destacando os números das pessoas que recebem algum benefício do governo e que estão utilizando para? Diversão? Busca de ganho? Empreendimento? Renda extra? É até difícil pontuar o motivo de alguém entrar nessa. Entretanto, imagina quanta pessoas estão fora desse guarda-chuva dos dados. O número deve ser assustador. Se partirmos dos 24 milhões de pessoas. Em um país com aproximadamente 171 milhões de adultos, segundo o IBGE. Então, aproximadamente 14% dos adultos brasileiros se “betizou” por aí. Ou seja, em uma sala com 100 adultos; caso todos estejam com o celular na mão; provavelmente 14 estão jogando.

Então, o governo passou a se mexer pois viu que os números podem superar a indústria tabagista, que desgasta uma parte do orçamento do SUS. Entretanto, é um vício solitário, que você pode fazer em qualquer lugar e a qualquer hora. E, por notar que nessa festa, o crupiê ganhava e o governo apenas “chupava dedo”, o leão quer a parte dele também. Imagine o efeito das bets no médio e longo prazo. Conseguiu? Eu não faço ideia de onde esse bonde irá parar.

Diante da crescente epidemia das apostas online no Brasil, é claro que a combinação de acessibilidade, estratégias de marketing agressivas e a influência dos meios de comunicação social está tendo um impacto significativo na população, especialmente entre os mais vulneráveis. A promessa de riqueza fácil e rápida, promovida por influenciadores e exacerbada pelo medo de ficar de fora (FOMO), está levando muitas pessoas a tomarem decisões financeiras precipitadas, frequentemente resultando em perdas substanciais.

O governo finalmente se deu conta da gravidade da situação, especialmente após a constatação do enorme gasto dos beneficiários do Bolsa Família em apostas online. A sanção da Lei das Bets é um passo importante, mas é apenas o início. Para realmente controlar essa "simbiose do terror" entre cassinos online e influenciadores, é necessário um esforço contínuo e coordenado. Isso inclui não apenas regulamentação, mas também educação financeira para que os indivíduos possam compreender melhor os riscos e as consequências de suas escolhas.

Além disso, plataformas de mídia social devem ser responsabilizadas por permitir a promoção desenfreada de apostas, muitas vezes sem moderação adequada. Assim como ocorre com o tabaco, é fundamental criar campanhas de conscientização sobre os perigos das apostas e estabelecer limites claros para proteger os consumidores.

O efeito a médio e longo prazo das apostas online ainda é incerto, mas uma coisa é clara: sem ações decisivas, o número de pessoas envolvidas e as quantias gastas só tendem a aumentar. É imperativo agir agora para mitigar os impactos sociais e econômicos dessa tendência crescente, antes que ela cause danos irreversíveis.

Somente através de uma abordagem multifacetada e integrada, envolvendo governo, sociedade civil e plataformas digitais, poderemos controlar e eventualmente reduzir o impacto das apostas online em nossa sociedade