Promessa só vale quando está no papel e assinada, caso contrário, são apenas palavras jogadas ao vento.
Foi o que nós descobrimos com a morte dela, a doce, gentil e amorosa madrasta do meu pai.
Meu avô era um homem metódico, mas um homem típico de sua época e de sua região.
Ele morava no interior da Paraíba, estado de cabra macho e mulher forte, destemida. Ele era um homem de palavra.
Seus acordos eram no fio do bigode, como se dizia. Meu avô nunca os desonrou. Foi o que meu pai aprendeu na vida.
Na cidadezinha, ele era rei. Dono de armazéns e comércios, tinha uma vida abastada, mas não tinha nobreza.
Casou-se com uma doce e gentil dama da alta sociedade. Agora sim, sua vida estava completa, será? Era o que toda a sociedade dizia.
Minha avó era a típica filha de fidalgos. Trouxe o requinte que a vida dele precisava.
O casal teve um único filho, meu pai. Criado dentro dos rigorosos padrões da sociedade nordestina, rica e elitizada.
Quando criança, ele não podia sujar as roupas, cuidadosamente engomadas e quaradas ao sol, para brincar com outras crianças.
Uma vida cheia de regras, desde sempre. Ele não se lembra quando o câncer chegou, era muito pequeno.
Lembra de sua mãe ainda bem vestida e arrumada, lhe dizendo que deveria ser padre.
Ele lembra do cheiro doce que impregnava o quarto dela, da luz que a fazia tão presente e sábia. Ele lembra daquela mulher imponente, um tanto austera, mas com ele, sempre amável.
Lembra do cafuné, da ternura, do amor de mãe. Isso ele lembra. Uma lembrança ofuscada pela dureza da vida e ação do tempo, mas ele lembra.
Eu mesma tenho essa lembrança da minha avó, que jamais conheci. A imagem que tenho dela é de uma mulher doce, ereta, centrada, gentil e forte. Uma mulher que me inspira.
Eu, por vezes, sinto o cheiro dela, não sei como e nem porquê, mas sinto. Outras tantas vezes, chego a sentir seu delicado toque em meu rosto com um sorriso, me dizendo para seguir em frente.
Meu pai não sabe dizer por quanto tempo ela lutou contra a doença. Ele tão somente não se lembra.
Quando fez dez anos, ela partiu… partiu do mundo e partiu o coração dele, que se sentiu abandonado.
Meu avô se esforçou para segurar a mão dele. Àquela altura, ele já estava realizando o sonho da minha avó em vida, estava no seminário.
Será que aquele era o sonho dele? O que será que meu pai queria da vida, aos dez anos de idade, ficando órfão de sua tão doce e amorosa mãe?
Voltar para sua cidadezinha não era uma opção que seu pai aprovou. Então, ele fugiu do seminário e foi parar na escola militar.
Um homem sem muitas escolhas, mas escolheu literalmente o mundo. Ele queria lutar para ser alguém na vida. Já havia entendido que o celibato e ser padre não eram para ele.
Ele seguiu a vida solitário em busca de si mesmo. Meu avô sempre se orgulhou do homem que seu filho se tornou.
Fui apresentada ao meu pai e ao meu avô ao mesmo tempo. Os dois ficaram eufóricos com minha chegada em suas vidas.
Tenho lembranças reais e vívidas na casa do meu avô. Onde a mesa era algo que eu nem entendia e me fascinava. O centro dela girava cheio de guloseimas deliciosas.
Desde que me entendo por gente, a madrasta do meu pai estava lá. Contam que ela era uma ‘solteirona’ que se casou com meu avô já velha, e não teve filhos.
Lembro bem, quando ‘descobrimos’ que meu pai tinha uma irmã. Uma ‘bastarda’, era assim que se falava da minha doce e amada tia.
Eu era tão pequena, e mesmo assim lembro de todo o mistério e pecado que pareciam envolver a tal situação.
Talvez seja coisa de criança, nunca achei difícil chamar minha tia de ‘tia’ e entender que ela era tão parecida com meu pai.
Ela era mais velha que meu pai, o que denunciava a traição que minha avó havia sofrido. Acontece que isso era tão ‘normal’ no nordeste.
Meu avô jamais aceitou seu erro, onde ficaria sua honra? Ele era um homem gentil, mas nunca lhe foi permitido errar, ele era homem.
Desde que me lembro, meu avô era casado com a tal madrasta, que não era minha avó. Algumas vezes cheguei a pensar que fosse apenas a criada daquela grande casa.
A casa do meu avô era uma das maiores da cidade, imponente e cheia de histórias. A madrasta me tratava tão bem, com tanta ternura, e eu, uma criança tímida, apenas retribuía.
Ela parecia adorar e venerar meu pai, ela não tinha filhos. Na minha memória, ela não tinha ninguém, além de nós em sua vida.
Era uma mulher solitária, à margem da sociedade de sua época. Obcecada pelo meu pai e por mim também, o que me causava certa estranheza às vezes.
Sempre achei que a predileção dela por mim era apenas para seguir meu avô, que nunca escondeu que eu era a neta favorita.
Mas, era tão fácil. Meu avô faleceu quando eu tinha dez anos, meus irmãos eram novos demais, eu sou a mais velha.
Minha mãe, uma mulher que não enxerga o mal em lugar algum, nem embaixo do seu nariz, era a favorita do meu avô.
Não tem como não se apaixonar pela minha mãe. Ela é a bondade e a pureza em pessoa.
Eu só soube que quando meu avô faleceu, foi ela quem convenceu meu pai a abrir mão da herança, em favor da madrasta, que não tinha mais ninguém em sua vida.
Eu nunca soube se meu pai fez isso por amor à minha mãe ou por desespero de ter perdido o pai.
O fato é que aconteceu, e o que se seguiu foi uma traição disfarçada de generosidade. Mas, foi assim.
O que aconteceu nos bastidores? A madrasta prometeu aos meus pais que a herança, que era fruto do trabalho do meu avô, seria dos netos dele um dia, ou seja, minha e dos meus irmãos.
Ela parecia muito nos amar, muito mesmo. Eu nunca duvidei do amor dela, de verdade. Meus pais acreditaram nela.
Acontece que meu avô faleceu, ela se casou novamente com um homem muito rico, aliás. Ela nem esperou o defunto esfriar, foi o que se disse pela cidade. Nós nunca a julgamos.
A vida seguiu e nós sempre tivemos muito contato com ela. A casa, que era do meu avô, parecia muito mais um museu da história do meu pai.
Eu sentia isso toda vez que visitava o local. Foram muitos anos e nós nunca falamos sobre aquela casa, que era do meu avô.
A promessa vazia que ela fez para minha mãe, nunca foi confrontada.
Minha mãe nunca perguntou sobre a promessa, sobre a casa voltar para o seu verdadeiro dono, meu pai.
Ficou para ela, pois minha mãe dizia: “ela é uma viúva desamparada, onde vai morar?”
A casa, tida como uma das melhores construções da cidade, abrigava muito do empenho e da vida do meu avô.
Ele a construiu com a herança da minha avó e com todo o suor do seu rosto. Era genuinamente um patrimônio do meu pai.
Foi difícil engolir a morte da madrasta, que nem ficamos sabendo. Logo nós, que nos importávamos e conversamos sempre com ela.
Fomos à cidadezinha, a casa do meu avô continuava, por fora, do mesmo jeito. Uma vizinha, que nem conhecia a história, quando nos conheceu, disse:
— Ah não, essa casa é do seu pai. Não aceitem o que os sobrinhos dela estão fazendo.
Acontece que depois de uma pesquisa, não tão rápida, entendemos que, na palavra ela havia dito que a casa seria nossa, mas no papel, ela assinou que era do sobrinho e da enteada.
Sim, a enteada filha do marido rico.
Foi assim que toda a herança do meu avô, o seu legado de vida ficou para desconhecidos.















