Eusébio de Cesareia conta que no verão do ano de 312 d. C., vésperas da Batalha da Ponte Mílvia, Constantino teve uma visão ou um sonho profético. Uma luzente imagem apareceu-lhe no céu e ao fundo uma voz que lhe prognosticava em rotundo latim: in hoc signo vinces (sob este signo vencerás). O sinal eram as iniciais sobrepostas do nome de Cristo em grego, o khi e o rho. Desperto, o futuro imperador absoluto mandou gravar nos escudos e albardas dos seus desalentados combatentes a insígnia prefigurada no seu divinatório transe. Sua vitória, vinculada ou não ao cumprimento do seu vaticínio, foi avassaladora.

Cética por natureza, a história moderna obviamente suspeitou da profecia. Desde os primeiros comentários laicos no séc. XVIII uma jogada estratégica ou o oportunismo político parafraseiam o episódio. Cerca de mil e trezentos anos transcorreram até darmos com essa variante, cuja autoridade vigora há três séculos desde sua divulgação; o que, considerada a larga cronologia envolvida, pode ser transitória.

Encarnados no plano físico e temporal, o porvir não deixa de ser apenas uma promessa, e não nos damos conta de que o agora, e com ele nós mesmos, será seu passado. Isso não afasta, contudo, a constatação de que uma versão definitiva, histórica ou teológica, deverá necessariamente sintetizar todas as outras que a terão antecedido.

Se assim for, os elementos dessa síntese obviamente não surgirão no futuro, porque têm de emanar dos fatos mesmos; já estavam neles, em germe. E creio podermos entrever um deles na intrínseca ligação, numa espécie de paralaxe, entre ambas as atmosferas: a original, envolta na teia de suas exóticas circunstâncias; e a analítica, o parecer histórico moderno sobre suas terrenas entrelinhas.

Em alguma medida, dois antigos enunciados já haviam resvalado no curioso vínculo a que me refiro. O primeiro foi resumido na doutrina que, ainda que poucas vezes ou nunca formulada, não é secreta: uma civilização seria produto menos das implicações dos seus fatos concretos que dos seus acasos míticos. O outro, verossímil justo por sua disparidade, foi o daquele ex-discípulo de Paracelso que, ao abandonar a alquimia, ensinou não haver matéria ou dimensões de espaço e tempo mais propícias para os milagres que o ordinário âmbito das coisas profanas.

O que proponho é algo menos sutil e mais sustentável, porém: o feito de que escapa não só à historiografia moderna, mas a todo o pensamento científico, a percepção de que ela mesma, com seu necessário ceticismo, teve sua origem remota no mesmo evento, miraculoso ou espúrio, que favoreceu o desenlace da Batalha da Ponte Mílvia, ou seja, a suposta revelação de Constantino.

Eis o vínculo.

Segue uma tentativa, embora não menos histórica, de deslindá-lo. O rompimento cuja causa ancestral fora justo seu nexo primitivo. Como na alegoria dos dois espelhos mutuamente refletidos, no fundo essa paralaxe insinua-se fugidia como duas percepções superpostas, como o khi e o rho do início, mas que se negam e não se sabe mais quem é o reflexo de quem, na trajetória dos treze séculos que separam o solene relato de Eusébio de Cesareia e o proto lógico-científico Discurso do Método, de René Descartes.

A passagem entre dois mundos exige uma transição, um portal, um barco à vela que seja. Essa via, ainda que de mão única, perfaz um contato. Entre tantas coisas, na Roma do séc. IV, havia uma tradição cumprida antes das batalhas decisivas. Todos os sonhos tornavam-se premonitórios. (Como até hoje, diante da iminência da morte, cremos que ocasião tão excepcional deveria emitir algum sinal). O canto ou o voo dos pássaros podiam ser de mau ou benigno agouro, requisitavam-se áugures e pitonisas, e consultava-se o que tinha a lhes prevenir o horóscopo nas vísceras dos bichos — como ainda hoje certos adivinhos remexem borras em busca de visagens e pressentimentos.

Embora ninguém soubesse, porque ainda vivendo sob seu influxo, o “sonho” cristão de Constantino deu-se numa transição, ou melhor, foi seu remate. A seguir, foi preciso retribuir sua graça com a contrapartida de temor e gratidão. Para a consolidação de toda grande revolução é preciso aniquilar o passado, demolir suas pontes, reformular o calendário, queimar navios e bibliotecas, profanar templos e monumentos. A necessidade de banir séculos de ritos, gestos e costumes civis e religiosos foi sua casus belli. Demonização e anátema. A ponto de uma dúzia de gerações adiante, o estabelecido cânone querer despojar-se do “sonho profético” de seu próprio fundador, eivado agora de resquícios pagãos.

A magia, a simpatia, o sortilégio, obviamente prosseguiram na reservada vida cotidiana — constritos, clandestinos ou consagrados a outras entidades. E mesmo o cristianismo finalmente encontraria uma saída em princípios do séc. XX por meio de um fervoroso neopentecostalismo. Mas em hasta pública, o culto espiritual foi-se tornando cristalino.

O antigo direito romano já regulara a causa formal dos litígios e seus princípios leigos, mas o Estado imperial a partir de Constantino oficializava um padrão de conduta ética e escatológica universal. Tornado assunto de Estado, cerca de duzentos anos depois um novo imperador, Justiniano, lançaria a pá de cal sobre os últimos remanescentes da antiga devoção popular.

Cortando-se na própria carne, operou-se então uma surda e despercebida sincronia. Calaram-se os oráculos e suas sibilas, fundiram-se moedas e comendas com a efígie de Mitra ou do velho deus sol invictus, curiosamente, pela mesma época em que cessaram também os milagres do cristianismo primitivo, que só mais tarde se tentou resgatar com a hagiologia dos santos mártires.

Esterilizadas, assim, a idolatria, a heresia e o ritual, rompeu-se afinal o primeiro milênio, mas sem o presumido Juízo Final. Em seu degelo chafurdou em seguida o beato heroísmo das Cruzadas, os olhos de novo voltados à terra, agora prometida, mas que soçobraria na derrocada de uma aventura inglória.

Pelas sendas da Terra Santa e da Civitas Dei, no entanto, é que estava o ímpeto com que os cruzados puderam abrir caminhos neste mundo e não no outro. Vias de comércio, entrepostos que esboçaram cidades, entesouramento do vil metal, e, sobretudo, a expansão da consciência de cultura e a desmistificação da geografia nas longas peregrinações, enfim. E foi por aqueles mesmos caminhos que vieram, ou regressaram de seu milenar ostracismo, os antigos clássicos aos poucos redescobertos.

Como ninguém se lembrava mais do fatalismo mórbido e sem saída com que a longo prazo o Estoicismo mergulhava seus letrados adeptos, cuja pusilanimidade doutrinal também havia favorecido o entusiasmo vitorioso de Constantino e sua “religião da esperança”, cresceu novamente o anseio por encontrar alternativa nos fragmentos de razão reintroduzidos no continente desde onde Justiniano os havia degredado quinhentos anos antes 1.

Sorvida com tamanha sofreguidão pela sede dos séculos, a sabedoria clássica trouxe embriaguez, e mesmo os enlevos da arte que proporcionou não deram conta da ressaca do gnosticismo que também nutriu. Passado o breve e febril interlúdio, era premente reconhecer que qualquer busca por causas primeiras em forças ocultas ou extracósmicas atentava contra a tão ansiada paz de espírito. A filosofia seria apenas uma porta de entrada para o recinto com uma janela esquecida pela qual finalmente se podia esquadrinhar o mundo do lado de fora sob outra perspectiva.

O que se via através dela era um lugar depreciado e efêmero. Hostil e finito. Uma vã massa bruta sequela de uma degenerescência, um simulacro. Mas por isso mesmo, ou porque era agora o único panorama disponível, é que passou aos poucos a constituir uma espécie de palco laboratorial onde homens pios e geniosos podiam então ensaiar sem compromisso sua nova adoração. Estanque e imediato, nele mesmo estaria a explicação autorreferenciada dos seus próprios fenômenos. Não importava mais um porquê transcendente, mas apenas o como, o quanto e sob que condições. Estava dado o noviço horizonte da história.

No fim das contas, não importou se o que moveu Constantino e o milênio subsequente foi um dom visionário ou um brilhante subterfúgio. Como uma espécie de uróboro, a imagem da serpente que traga a própria cauda até extinguir-se a si mesma, o sucesso de sua fé ou de sua ambição é que promoveria sua incrédula e devoradora versão futura, cujo afã pela depuração do conhecimento dependeu, portanto, indistinta e ironicamente, do triunfo de um sonho milagroso, de uma lenda, de um logro político ou de uma alucinação.

Notas

1 Em 529 d. C., por ordem do imperador Justiniano, o Grande, foi fechada a última Academia de Platão no Ocidente, a qual, segundo se especula, migrou para a Ásia Menor, assim como o haviam feito as outras antigas escolas anteriormente abolidas.