O que acontece quando somos capazes de ouvir um público que se alimenta do sagrado? Ou ainda, como estudar as reações do imaginário coletivo nas culturas populares que se mobilizam por tradições vivas? Aceitar a legitimidade das transformações entre argumentos dos fatos e valores não é tarefa fácil. Para a pesquisadora Isabelle Stengers em seu livro Uma outra ciência é possível: manifesto por uma desaceleração da ciência, ela aborda o fato de que a prática científica moderna se desviou do seu compromisso original que era a busca pelo conhecimento e passou a servir aos interesses privados.
As ciências são, portanto, um modelo que cada cidadão poderia seguir em sua vida cotidiana. Esses argumentos justificam o que é hoje uma verdadeira “palavra de ordem” das autoridades públicas diante da relativa desconfiança, ou ceticismo, de muitos cidadãos em relação ao caráter benéfico do papel dos cientistas em nossas sociedades: ‘é preciso reconciliar o público com sua ciência’.
(Stengers, p.20 e 21, 2023)
Já a autora Donna Haraway chama de “saberes situados”, que é a produção do contexto a partir da influência de gênero, de raça, de classe, de cultura, do desenvolvimento do conhecimento. Ou seja, há uma rede colaborativa que usa a parcialidade como apetrecho para uma ciência inclusiva e responsável. Há de se considerar que Stengers diz que é preciso uma inteligência pública para ouvir os cidadãos. Na verdade, devemos compreender uma gestão do conhecimento de inovação e eficiência com assessoramento qualificado para o avanço das “lealdades do saber”.
Como Isabelle Stengers aponta
O livro apaixonante e perturbador de Naomi Oreskes e Erik M. Conway revela a sabotagem de longo prazo empreendida por aqueles que eles chamam de “mercadores da dúvida” contra a credibilidade dos trabalhos científicos que abordam problemas “inconvenientes”... Desde Galileu, cientistas se vangloriam de produzir “verdades inconvenientes”.
(Stengers, p. 33 e 35, 2023)
Então, precisamos compreender a diferença entre ciência e opinião, que ultimamente, com as fake news vem ganhando um valor impertinente.
Mas precisamos argumentar fatos e valores. As culturas populares, por sua vez, trazem uma bagagem de suas vivências ao mundo de modo natural. Produzem seu trabalho e vida, aceitando suas transformações. Elas otimizam o fútil até torná-lo algo extraordinário. Brincam com o imaginário e fazem das tradições vivas o sentido do popular, a fim de entender o mundo no qual vivemos, o mundo que as ciências tornam possíveis. Cabe aqui dizer que é preciso reconciliar o público com sua ciência. Que pensar, hesitar, imaginar, sejam questões de interesses para o mundo da ciência, como afirma Félix Guattari, matéria de preocupação e não matéria de opção.
Irrigar o pensamento com novos hábitos traz um letramento científico. Compreender os modos de vivências de um povo é relacionar suas reações diante dos obstáculos da vida cotidiana existentes nas culturas populares, pelas manifestações do imaginário. É trazer a realidade envolvida em suas questões simbólicas.
Já em Cassirer (1972), é possível visualizarmos essa constatação de unidade entre tudo o que existe no mundo, incluindo aquelas atividades simbólicas humanas, pois segundo o autor, o mito, ritos, credos religiosos, obras de arte e teorias científicas igualam-se em sua gênese criadora e, tratando-se das criações humanas, na possibilidade também de se conferir significado e sentido a estas mesmas produções. Nesse contexto, o sentido conferido pelo ser humano está invariavelmente entrelaçado com a lógica do Imaginário, pois ainda segundo Durand, o Imaginário pode ser ilustrado simbolicamente por meio de um reservatório geral de imagens e representações1.O folclorista Franklin Cascaes afirma que “a manifestação do fantástico permeia a realidade". Daí, devemos afiar os argumentos com muitas perguntas. A escritora Virginia Woolf fala que “nunca deveríamos parar de perguntar.”
(Stangers, p. 49, 2023)
O antropólogo Néstor García Canclini diz que “As sociedades não se movem somente pelas regularidades estudadas pelas ciências sociais, mas também por imaginários.”2 É sabido que necessitamos de tempo, de observação e de sensibilidade para compreendermos as nuances das culturas populares. Observar as reações existentes nas culturas populares diante dos acontecimentos é mobilizar nossos questionamentos, pois o limite do atrevimento é a essência.
Assim, depois do aparecimento da internet temos uma dificuldade em separar o que é cultura de massa e cultura popular. A sociedade do consumo diminuiu a diferença entre o rural e o urbano. Para tanto, o bom pesquisador deve saber deliberar, e também resistir à nostalgia, segundo Isabelle Stangers, pois a ciência deve ser livre e fecunda. Ao que indica esses argumentos, devemos perceber uma característica existente nas culturas populares que é a contingência.
Mesmo admitindo a assertiva de Canclini (1996: 9) de que “a hibridização interessa tanto aos setores hegemônicos quanto aos populares, que querem apropriar-se dos benefícios da modernidade”, é necessário compreender que as reconversões que realizam as culturas populares, em relação à cultura massiva, não se dão de forma natural ou espontânea. Reconverter os códigos da sua cultura em outra, com a intenção de se inserir no mercado de trabalho, participar de uma ordem social ou simplesmente ser reconhecido, representa em muitos casos uma experiência penosa e difícil para as culturas populares. A explicação está no fato de que a principal característica dos contextos populares é a contingência, ou seja, o acesso aos bens materiais e imateriais se dá de forma incompleta, desigual ou desnivelada.3
(Tauk Santos 2001)
Com isso, podemos salientar que o imaginário se expande nas culturas populares, pois nela os riscos, as demandas, os acontecimentos inesperados revelam uma multiplicidade de argumentos típicos das culturas populares. Questionamos então: de que maneira se fortalecem os rituais das culturas populares em tempos de inteligência artificial? O que leva as culturas populares acreditarem no futuro de suas manifestações? Como as culturas populares visualizam a ciência na era da inteligência artificial? Essas perguntas são apenas algumas indagações existentes para começar um suspense na pesquisa que tanto fala a Isabelle Stangers, devemos gerar iscas para o pensamento e para imaginação. Daí, o que realmente importa, para ser estudado hoje em dia? Assim, segundo Stangers, “A lucidez, portanto, é inimiga da criatividade científica.” (Stengers, 108, 2023).
Então, manter as tradições vivas, existentes nas culturas populares, requer sabedoria diante das transformações. Não é só a ação do ser humano que importa, é a reação do ser humano, que vai gerar suporte na dimensão dos fatos, elaborando a criatividade em tempos de aceleração dos acontecimentos, a partir do uso da Inteligência Artificial. Precisamos entender que a área de Humanas está sempre em transformação e ebulição. O pesquisador deverá trazer o tempo como problema a ser abordado. O sentido da pesquisa nas culturas populares deve-se aos imprevistos que são os fatores de transformação. Ou seja, a dinâmica das culturas populares será analisada a partir de uma reflexão pautada em trilhas investigativas.
Digamos que “Há um horizonte de tempo em que um texto esgota o que tem a dizer? Tornou-se clássica, e com isso quase um clichê, a famosa frase de Italo Calvino (1993:11): ‘Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer’... Thomas Kuhn parece não assumir o aforismo de Calvino como pressuposto, mas, precisamente, como uma questão, uma interrogação, um problema a ser abordado.”
Segundo Kuhn, estava claro que havia uma tendência investigativa direcionada à compreensão contextual das articulações internas do pensamento e do desenvolvimento científico de cada época. Então, se assim o é, se os estudos historiográficos sugeririam mesmo que implicitamente uma nova imagem da ciência, A Estrutura pretendia tornar explícita essa imagem e as implicações que advinham dela.5
O desafio aqui está em afiar a comunicação entre pesquisadores para uma nova construção social na ciência. Esse pode ser o desafio ao qual a ciência lenta deve responder, tornando os cientistas capazes de aceitar que aquilo que é bagunçado não é defeituoso, mas apenas algo com que precisamos aprender a viver e pensar.
(Stengers,p.130, 2023)
Assim, que ordem queremos? O imaginário pode ser bagunçado, mas é nele que saem as melhores perguntas, então se a ciência está na vida cotidiana, a ciência também é contingente?
Refrências
1 No balanço das bruxas, de Franklin Cascaes: um estudo acerca do mal a partir de pressupostos dos estudos do imaginário e da memória.
2 Néstor García Canclini: Antropólogo da contemporaneidade.
3 Signos do consumo.
4 A Estrutura das Revoluções Científicas de Thomas Kuhn.















