Pedro Cera tem o prazer de apresentar Et fugit ad salices, a décima segunda exposição individual de Gil Heitor Cortesão na galeria. O seu título, baseado nos escritos de Virgílio – «e foge para os salgueiros» –, evoca um momento de um canto pastoril em que uma jovem se refugia por entre as árvores, mas assegurando-se de que a sua fuga é observada. O gesto não é, por conseguinte, um ato de fuga propriamente dito: a retirada transforma-se num convite e a ocultação numa forma de ganhar visibilidade. É esta tensão entre impulsos opostos – entre o desaparecimento e a revelação, entre a distância e o convite – que forma o ponto de partida da exposição.

Esta mesma ambiguidade estrutura o nosso encontro com as pinturas de Cortesão. Estas parecem oferecer a possibilidade de uma retirada, um refúgio temporário face à cidade que fica para lá das paredes da galeria, sem nunca permitirem que o espectador nelas desapareça por completo. As superfícies de vidro acrílico refletem a nossa imagem, trazendo o corpo para dentro da própria paisagem que parece convidar à sua fuga. A retirada transforma-se numa forma de presença: quanto mais nos aproximamos da imagem, mais insistentemente nos encontramos dentro dela. O olhar torna-se, assim, uma experiência simultânea de imersão e estranhamento, em que a promessa de um outro lugar é continuamente interrompida pelo reconhecimento da nossa própria presença.

Também a paisagem resiste à promessa de um outro lugar. O que à primeira vista parece contínuo e coerente revela-se, numa observação mais atenta, uma composição criada a partir de fotografias tiradas em diferentes lugares, estações do ano e anos. Estes fragmentos díspares são reunidos para criar uma paisagem sem um original: um lugar que nunca existiu para além da própria imagem. O que resulta é uma espécie de segunda natureza, suspensa entre o natural e o artificial. E, no entanto, tal como a figura que se refugia por entre os salgueiros de Virgílio, permanece deliberadamente disponível para ser descoberta.

Esta paisagem construída assume a sua forma mais ampla no políptico Et fugit ad salices (2026), que domina a sala principal e se revela à medida que o espectador avança ao longo do seu comprimento. Nesse movimento, as imagens mudam e a paisagem é continuamente reconfigurada. Comporta-se menos como um quadro e mais como algo próximo da música: uma sequência na qual se pode entrar em qualquer ponto, seguir em frente ou voltar atrás, sem nunca chegar propriamente ao início. A fuga invocada pelo título torna-se, assim, um movimento através da própria paisagem – um modo de olhar rítmico e contínuo sem um destino fixo. Ali perto, a peça autónoma Selva (2026) habita o mesmo terreno improvável através de uma lógica espacial distinta. A sua verticalidade interrompe o movimento horizontal do políptico, deslocando mais uma vez os termos: a fuga tornada gesto vertical, o refúgio emergindo como contraponto à exposição.

Fugit é o termo que Virgílio emprega para designar tanto a fuga que dá o nome à exposição como a própria passagem do tempo: fugit irreparabile tempus, o tempo que passa irremediavelmente. Assim como vários lugares se fundem numa única paisagem, também vários momentos convergem num plano que contém inúmeros futuros – todos ainda possíveis, embora apenas um venha a acontecer. E, contudo, esses futuros não vividos não fogem para a frente em direção à perda, mas divergem lateralmente rumo a um passado no qual nunca chegaram verdadeiramente a estar presentes.

Na sala do fundo, a arquitetura entra na paisagem. Até então aparentemente composta exclusivamente por árvores e vegetação, a natureza é interrompida – ou talvez prolongada – pela presença de uma piscina, de um muro, de um fragmento de uma estrutura construída. A distinção entre interior e exterior começa a dissolver-se: a arquitetura não se limita a conter a paisagem, nem a natureza se limita a envolvê-la. Pelo contrário, entrelaçam-se, cada uma parecendo invadir e absorver a outra. Estes fragmentos arquitetónicos sugerem também uma presença humana, sem nunca representá-la diretamente. Parece que alguém esteve aqui, mas o que resta são apenas vestígios de um futuro que já foi vivido e que já terminou. Suficientemente reconhecíveis para que os possamos situar no tempo, estes espaços parecem, no entanto, estranhamente retrospetivos, como se fossem encontrados a partir de um momento que ainda está por chegar.

Em última análise, Et fugit ad salices não oferece um refúgio sem retorno. Entrar nas paisagens de Cortesão é atravessar lugares suspensos entre a natureza e a construção, entre a presença e o desaparecimento, entre futuros que ainda não aconteceram e aqueles que, de alguma forma, já pertencem ao passado. À semelhança da personagem de Virgílio por entre os salgueiros, retiram-se num convite à aproximação. E, tendo fugido até tão longe, não resta outra forma de avançar senão retraçar os próprios passos através daquilo que já foi atravessado.