Por entre o abismo dos penhascos, o cume elevado das montanhas e o leito nascente do Lago Atitlán, comunidades indígenas como a Tz’utujil de Solalá, na Guatemala, mantêm vivo o conhecimento ancestral Maia que governa o cosmos, fundamentado numa profunda relação com a natureza e com a energia que irradia e constitui a essência de todas as coisas. Ancorando a sua prática numa abordagem artística que procura reivindicar a sabedoria poética dos seus antepassados e a relação com o universo e a sua criação, Manuel Chavajay apresenta Rupeequul kaajuleew / Vientre de los cosmos, a sua nova exposição na Galeria Pedro Cera, em Lisboa, e primeira mostra individual do artista em Portugal.
Em contrapartida às epistemologias ocidentais historicamente moldadas pelo objetivismo científico e pela racionalidade linear, a cosmologia Maia revela uma substância mítica através da qual os acontecimentos primordiais e a história são entendidos como cíclicos e interdependentes. Dentro desta visão do mundo, o pensamento e a ação permanecem ligados às origens ancestrais, acedidos através do conhecimento divino transmitido por via de sonhos e visões partilhados com aqueles que vieram antes, para quem a Terra florescia como um centro espiritual que regulava o tempo e os ritmos da existência. A sua essência era moldada por uma relação astral com os corpos celestes, visíveis em diferentes épocas do ano, a partir dos quais eram determinados os dias propícios para rituais e atividades agrícolas, bem como as forças energéticas que orientavam o destino e a sincronia inscrita no nawal, o poder guardião simbólico associado a cada dia. Assente numa conceção milenar na qual o tempo se sobrepõe continuamente por via de diversos calendários e práticas cerimoniais, a cosmovisão Maia articulava um método de cálculo baseado nos movimentos de rotação, translação e precessão do planeta Terra, no alinhamento dos solstícios e dos equinócios, e nas trajetórias do Sol, da Lua, de Vénus (a “Grande Estrela”), das estrelas e dos cometas.
Rejeitando definições teleológicas e lineares, Chavajay baseia-se nesta estrutura cosmográfica para situar Rupeequul kaajuleew / Vientre de los cosmos dentro do sistema ritualístico Tzolk’in. Composto por um ciclo contínuo de 260 dias, criado pela repetição de 20 nawal sagrados ao longo de 13 iterações galácticas (20 x 13 = 260), o escalonamento Maia Tzolk’in estabelece uma correspondência entre o mundo empírico e a compreensão ancestral do cosmos. Associado a práticas mesoamericanas e desenvolvido por civilizações como a Zapoteca, no Vale de Oaxaca, por volta de 600 a.C., este calendário lunar reflete o conjunto de redes numerológicas e espirituais que conectam movimentos celestiais e a passagem do zénite em determinadas altitudes – fatores que definem o padrão energético de cada Jun Winaq (Tz’utujil para “indivíduo” ou “pessoa”), comparável a um horóscopo ocidental – com o número de dígitos na contagem manual (20 no total, dez nos pés e dez nas mãos), as principais articulações do corpo humano (13 no total, incluindo o pescoço, os dois ombros, os dois cotovelos, os dois pulsos, os dois quadris, os dois joelhos, e os dois calcanhares), e com o próprio período de gestação feminina (260 dias, aproximadamente nove meses).
Reivindicando um espaço de presença sensível, as novas esculturas de Chavajay emergem assim na qualidade de corpos que partilham e ativam a sabedoria primordial do universo. Estas integram diversos Kuku, jarros cerâmicos historicamente utilizados em práticas indígenas associadas ao transporte de mercadorias, à recolha de água do lago e a cerimónias ritualísticas e fúnebres, tradicionalmente enterrados juntamente com os recém-falecidos sob a crença de materializarem o nawal que os protegia das energias negativas no pós-vida. Revisitados por Chavajay e decorados internamente com representações cósmicas, estes vasos, de forma arredondada semelhante àquela de um útero, concebem no seu ventre a semente criadora de vida. Dispostas sobre cinco estruturas de madeira e envoltas em fibra de agave – referenciando as armações utilizadas pelas comunidades Maia para o transporte de cargas pesadas e para as trocas comerciais via terrestre –, as esculturas retratam simultaneamente um simbolismo numérico deliberado, alinhado com a contagem sagrada das 13 energias do Tzolk’in, no qual o número 5, entendido como o algoritmo harmónico, ocupa uma posição central. Personificando o equilíbrio, a simetria da experiência humana (cinco dedos em cada mão, dez em cada par, vinte no total), os estágios da vida (infância, juventude, vida adulta, maturidade e vetustez) e o princípio ordenador da expansão energética, a sua potência surge de uma conceção na qual nada ocorre ao acaso, e onde cada experiência sensível encerra uma razão de ser na ordem intermitente da existência planetária.
Nesta cosmologia poética, as novas pinturas que ocupam o espaço expositivo configuram igualmente uma cenografia que enquadra as práticas destas comunidades, enraizadas nos ambientes naturais do próprio Lago Atitlán. Pertencente à série de trabalhos em curso Untitled (hay días que se acercan las montañas y los volcanes), as pinturas a óleo, carvão e petróleo sobre tela não só promovem uma inflexão crítica sobre a disputa territorial e a contaminação ecológica que assola estes locais, incorporando os resíduos poluentes das embarcações turísticas, como reafirmam a sacralidade da Terra enquanto presença viva. Com um horizonte natural marcado pela memória de erupções cataclísmicas, estas obras captam a perceção sensorial de um tempo em constante transformação, através de mudanças fenomenológicas e atmosféricas registadas na aparente aproximação ou afastamento de montanhas e vulcões de acordo com os movimentos das nuvens, a hora do dia, a intensidade da luz ou a própria chuva, onde a paisagem reflete uma ligação com a vitalidade de momentos únicos e irrepetíveis.
Enquanto artista Maia Tz’utujil, Chavajay procura estabelecer no espaço de Rupeequul kaajuleew / Vientre de los cosmos um vínculo intrínseco com os elementos e ensinamentos que compõe o universo e as conceções avitas do seu território nativo, apelando a uma consciência histórica da identidade e riqueza cultural indígena de ordem espiritual e intimamente simbólica.
















