A Galeria Nave tem o prazer de comunicar que Sonia Navarro apresenta uma exposição individual na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa.

A Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA), em Lisboa, acolhe a partir do próximo dia 29 de Outubro a exposição individual Pão e fio, da artista visual espanhola Sonia Navarro. A mostra, que conta com a curadoria de Susana González é financiada pela Região de Múrcia através do Instituto das Indústrias Culturais e das Artes, no âmbito do plano de impulso à Internacionalização dos criadores murcianos. Promoção e coordenação de Mercedes Cerón (Galeria NAVE), o projeto reúne obras de distintos períodos do percurso da artista, cuja prática parte de materiais e tradições têxteis enraizados historicamente no trabalho doméstico, nas economias de subsistência e nas dinâmicas de cuidado.

O pão e o fio, elementos que dão o título à exposição, condensam duas necessidades essenciais do ser humano — alimentar e proteger — e evocam formas de trabalho, especialmente feminino, tradicionalmente invisibilizadas e pouco reconhecidas pelos sistemas de valor profissionais. Através da costura, do bordado e da reutilização de materiais, Navarro reivindica estes saberes ancestrais e situa-os firmemente no centro da prática artística contemporânea.

«A obra de Sonia Navarro está profundamente ligada a uma genealogia familiar: a costura atravessa três gerações de mulheres do seu meio — as suas avós, a sua mãe Teresa e a própria artista. Esta transmissão de conhecimentos estende-se também à colaboração direta com costureiras, bordadeiras e artesãs, questionando a ideia rígida de autoria individual e valorizando formas de produção partilhada.» - comenta a curadora Susana González.

A exposição agrega materiais provenientes de tradições artesanais e rurais mediterrânicas, como jarapas, esparto, lã, linho, feltro e borracha, alguns deles recuperados, reutilizados ou explicitamente vinculados a ofícios em transformação ou em risco de desaparecimento. Navarro desloca estes materiais da sua função quotidiana para o âmbito escultórico, sem extinguir a sua memória nem a sua dimensão utilitária primária. Neste processo, o fazer manual ocupa um lugar central: cortar, montar, bordar, tensionar, dobrar e coser são ações repetitivas que introduzem na obra uma temporalidade baseada na atenção e na persistência, em clara oposição à lógica acelerada da produção industrial.

Mercedes Cerón, coordenadora da exposição e diretora da Galeria Nave: «Coordenar a segunda exposição de Sonia Navarro na capital portuguesa não só reafirma a forte ligação da artista com o público de Lisboa, como também tem um significado profundamente especial para mim. Isto deve-se tanto à enorme admiração que sinto pelo conceito e pela força da sua obra, como à cooperação com a Sociedade Nacional de Belas Artes, uma instituição-chave na cena artística lisboeta.»

Pão e fio propõe, em definitivo, uma reflexão sobre o valor daquilo que historicamente ficou fora dos sistemas de reconhecimento económico e cultural: os saberes transmitidos entre gerações, o trabalho das mãos, a reparação, a reutilização e as formas de cuidado que sustentam a vida. Navarro evoca estes gestos evidenciando a cultura material como um pilar fundamental para compreender a nossa história social e afetiva.

Restaurar nem sempre significa apagar a marca do tempo nem devolver a peça ao seu estado original; cerzir é uma forma de conservação que abraça a ferida. Cerzir é dialogar com o que está partido, respeitar o desgaste de quem usou aquele tecido e conservar a partir do afeto. Na tradição da emenda há uma memória viva: não se trata de ocultar a rutura, mas de habitar a dobra, de suster a matéria com o fio e entender que conservar é, acima de tudo, um acto de cuidado e permanência.

(Sonia Navarro)