Eu e meus horários...?
Não consigo manter uma rotina, disciplinar meus dias.
Agora, domingo, 16h45, fiz um monte de contatos, postei nas redes sociais, contradisse o que devia e o que não devia, trabalhei, retomei diálogo com amigos de infância para a próxima edição, 2ª, do livro Velhos do Cruzeiro Velho: somos a história viva de Brasília.
Entram as meninas também nesse original.
Resolvi escrever esse texto, aproveitando o intervalo do assado que está no forno e o início do jogo Fluminense x Vasco, pela semifinal do Cariocão.
Sou Flamenguista de coração e adoro futebol, torcendo agora para que o Vasco retome o caminho das grandes conquistas, que o levou a ser o Gigante da Colina.
Treinei no Vasco quando moleque, não era do Rio, vinha de Brasília trazido por olheiros, que insistiam que devia ser jogador de futebol, tal o talento visto nas peladas ou em campeonatos, e por conta de não ter passaporte e ser de fora, perdi a oportunidade de ir para um dos grandes times de Portugal, como amador, e voltar para o Clube Cruzmaltino.
Não é desculpa para não fixar torcida apenas para o Flamengo.
Mas sou daqueles que gostam de subir o sarrafo, seja no esporte ou no dia a dia.
Quanto maior o nivelamento, melhor a disputa, mais aguerrida a competição.
A vida é passageira de ilusões, e devemos aproveitar as oportunidades, mesmo que ela passe nas “tranças do rei careca”: ouvi muito essa frase na juventude...
Nessa de estar pronto para as oportunidades, entendi desde que comecei a trabalhar que o dever, a destreza, o cuidado com o que faz vêm a ser maiores para que aquele serviço prestado não volte, o que nos eleva em meritocracia.
Galguei vários postos, pulando até cinco estágios, porque sou pé-de-boi, e só largo o afazer pronto.
A persistência e a rigidez na execução daquele trabalho eram tão importantes para mim quanto a necessidade de não ouvir o que deveria fazer.
Muitas vezes, o superior ficava de olho ou com o indicador apontando para mim: demonstrava que estava esperto para o meu lado, como quem diz "meu cargo você não toma".
E nunca foi esse o objetivo.
O fator era concluir, e se precisasse, enxergasse que devia antecipar, fazia.
Vieram os embates, os alcaguetes, os imbecis travestidos de poder que não tinham.
Cito o exemplo quando entrei na Rede Bahia, jornal Correio da Bahia, criado com o objetivo de levantar a bola de ACM, que fora prefeito biônico1, governador, presidente do Senado, e na sequência, na época em que eu era empregado do jornal e da Gráfica Santa Helena, foi ministro das Comunicações.
O escritório de ACM era no prédio onde estavam instalados o jornal e a gráfica, na Paralela em frente ao bairro Imbuí, na área da Pituba ao Costa Azul da VIII Região Administrativa de Salvador.
Percebi no início, desde o faxineiro até funcionários graduados ou não, muita soberba.
Tipo: “Eu sou amigo do homem..., tenho 10 anos de casa...!”
As pessoas se comportavam como se tivessem poder, tal qual o "imperador" da Bahia, ou o Toninho Malvadeza2, ou o poder do 'cabeça branca'.
Olhares furtivos, acusadores, questionadores, eram a tônica por onde eu passava.
Aos poucos, de repórter, diagramador e me metendo em área que não era de minha alçada, assim pensavam, ignorando toda a bagagem de mais de 20 anos no segmento, especializações, criei nova tabela de cálculo para a diagramação com base no sistema a frio (digitação e formatação), que rendeu elogios dos chefes diagramadores (redação), da digitação, da paginação, da revisão e da fotolitagem, e mais ainda do Secretário Gráfico (editor executivo na oficina gráfica), que estava de saída do jornal, por já ter cumprido sua fase de aplicação do projeto gráfico adotado.
Essa nova maneira de cálculo, com bastante precisão, gerou menores custos e redução de tempo na confecção do jornal em todos os departamentos.
E antes mesmo da promoção, fechava a redação às 23h, e 1 hora da manhã o jornal já tinha sua impressão iniciada.
Logo em seguida, veio uma das três promoções; essa, de supervisor industrial somada à de Secretário Gráfico, me rendeu um extra por fora de 800 dólares, mais um aumento substancial no salário, o que animou bastante minha ex-esposa – ela assumia toda a administração da casa – eu sacava apenas R$ 500 para eu bancar uma cervejinha ou outra, quando íamos na madrugada de volta para casa, com uma paradinha providencial no Quatro Rodas3.
Esse salto nas empresas afastou todos os poderes daqueles que se portavam como um imperador sem coroação nos corredores, aproximando muitos deles por reconhecimento, outros por receio do revanchismo, e outros por necessidade hierárquica.
Eu, apesar de boa gente, era durão nas cobranças e determinações.
Os mais de 200 funcionários sob minha supervisão passaram a me olhar, agora, com receio, desdenho, orgulho, outros se aproveitavam da suposta amizade (pensavam)...
Do 1º escalão executivo do grupo recebia recados, outros davam tapinhas nas costas com um "em breve participaremos de reunião de diretoria"...
Diante do conhecimento, baixei 600 mil dólares de prejuízo anual para menos de US$ 60 mil, e ajudei, em muito, a reforçar o padrão de prestação de serviços da gráfica para terceiros.
A Gráfica Santa Helena se tornou a maior e melhor gráfica no Nordeste, porque seu faturamento praticamente bancava o jornal Correio da Bahia de ACM com melhor custo-benefício, e gerava lucros.
Com apoio dos amigos Dé e Mosquera, ambos técnicos de rotativa4, demos cores ao jornal, antes de um projeto tímido apenas cores na capa e na contracapa, e dois meses após ter assumido o cargo, e promovi cores em todos os cadernos.
A rádio corredor me apontava como um dos futuros gestores da TV Subaé, em Feira de Santana, a 1h de Salvador, partícipe do 2º escalão da holding.
Essa meritocracia sempre foi meu forte: trabalho e zelo.
O mesmo ocorreu em outras empresas, e a última delas, no Sindicato dos Servidores Públicos do Judiciário do Estado da Bahia, ainda com carteira de trabalho assinada.
Fui indicado como jornalista com especialização em marketing de guerrilha para reeleger a diretoria, o que consegui com honras e méritos, e em vez dos prováveis R$ 60 mil pelo feito, assinaram minha carteira.
Funcionário, conheci as agruras de partidos políticos envolvidos no sistema financeiro, é o que interessa, e armações, incriminações de inocentes.
Esse ponto me mostrou o que é assédio moral, ignorância e malversação financeira, culminando na agressão de não regularizar meu INSS, quatro meses, o que para os juízes responsáveis por minha aposentadoria indicaram a necessidade de dois meses e oito dias necessários para os 15 anos da contribuição.
Esse tempo me liberaria o equivalente ao salário de 70% do teto estipulado pelo Ministério da Previdência do governo federal.
Até hoje brigo na Justiça para reverter um salário mínimo que recebo de aposentadoria, por conta desse sindicato.
Mas somos únicos, e não estou chorando o leite derramado.
Afinal, tenho várias especializações, sou honesto (esse é o meu crime), gente boa, e apto a trabalhar; nunca me esquivei.
Sonhei montar na minha Harley-Davidson, Fat Bob, vermelha, se sair por aí, quando completasse 65 anos – lá vão cinco, e ainda estou aqui teclando...
Tenho três roteiros prontos, e outros dois em fase final, desde então.
Creio que em abril, agora, 2026, darei de presente ao meu ego, dois desses roteiros.
Visitar amigos, ex-namoradas, lugares aos quais tive importância, e hoje sou um mero desconhecido, potencializará o prazer de ir em frente, receber o vento bailando nas estradas desse Brasil adorável, o que deve fechar mais um ciclo de vida, um deles, porque somos circulares trabalhando como células e nos unindo para formar outra, e vida que segue.
Ah, ia me esquecendo do He-Man, um negão, amigaço, que tenho imensas saudades, que trabalhava no Fotolito da Tribuna de Imprensa.
Ele tem um capítulo especial no livro Oficina Comunicação, onde mostro o que era redação de jornal comparando com a tipografia, sistemas quente, a frio, digital – é um livro didático, que ensina até como estipular preço de coluna x centímetro, e o caminho que um texto percorre, também de seu “nascimento”...
As oficinas do jornal TI ficavam na parte de baixo de um casarão na Rua Lavradio, centro do Rio.
A redação e diretoria, instaladas na parte de cima.
Mal acostumado em Brasília, tínhamos café e transporte à disposição, cantina para lanches, almoço e janta.
Na Tribuna, a área em que eu atuava na oficina gráfica ficava numa sala central, e em volta os setores de digitação, revisão, fotolito, impressão, e mais à frente a encadernação, transporte e distribuição.
Ao lado da mesinha do chefe industrial Zezinho, com mais de 40 anos de casa, nesta sala ficava um banquinho com bandeja portando garrafa de café e copinhos de plástico.
Zezinho era fumante inveterado, e eu competia com ele apenas nos goles de café.
A garrafa esvaziava, e lá vinha He-Man pegar a garrafa, ia para o fotolito, e voltava com café fresquinho.
Nesse instante, mesmo que estivesse liberando caderno para a impressão, acorria para o cafezinho.
Um dos funcionários comentou com He-Man: "E aí? O café do Secreta é 0800?"
Ao que He-Man abriu um largo sorriso e aquietou o rapaz: "Deixa o menino. Secreta vai chegar junto, mais do que todos vocês..."
Foi aí que descobri que o café era pago.
Havia a cotização, e quem bebesse mais pagava quantia maior.
Às vezes, lembro da frase que eu repetia brincando após sorver o cafezinho feito por nosso querido He-Man: "Pelos poderes de Grayskull 'da Tribuna'... Eu tenho a força!"
Referências
1 O que significa "Prefeito Biônico": O termo "biônico" era uma referência pejorativa à série de TV norte-americana da época "O Homem de Seis Milhões de Dólares", cujo protagonista ganhava poderes artificiais. Na política, significava um cargo não eleito pelo povo, ou seja, nomeado diretamente pelos governantes militares ou seus aliados. ACM, portanto, não venceu uma eleição direta para a prefeitura, mas foi escolhido pela ARENA (partido de sustentação do regime). Ele foi prefeito de Salvador entre 1967 e 1970, nomeado para o cargo durante o período da ditadura militar brasileira (1964-1985).
2 Antônio Carlos Magalhães (ACM) recebeu o apelido de "Toninho Malvadeza" devido ao seu estilo político autoritário, agressivo e implacável com adversários, consolidado durante a ditadura militar e sua longa trajetória como líder na Bahia.
3 Ao contrário do Hotel Quatro Rodas, o apelido foi engenhosamente dado por fregueses da madrugada que consumiam feijoada, sarapatel, rabada, buchada, cozidão baiano, regados a pinga com raiz e cerveja super gelada, em várias panelas de 20 litros dentro de uma kombi estacionada perto da Praça Nossa Senhora da Luz, na Pituba.
4 A nossa era uma V 5. As impressoras rotativas de jornal são máquinas de alto desempenho projetadas para imprimir em grandes volumes e velocidades usando bobinas contínuas de papel. Chegamos a imprimir 50 mil exemplares por hora. Com o volume de serviços, passamos para uma Rotativa Goss Community - 5 unidades, que custou a bagatela de US$ 1,3 milhão de dólares aos cofres da Santa Helena.















