Em pequeno, pensava ser grande — um pensamento estreito e redutor de quem não sabe bem o que dizer ou como pensar. Tímido, vindo de um bairro pobre, tinha poucos amigos; na verdade, apenas um, com quem brincava ao fim-de-semana, enquanto as mães se encontravam no parque infantil do Parque Eduardo VII. Cresceu sempre à margem, mas sem grande dramatismo: mais por hábito do que por vontade, como quem aprende cedo a ocupar pouco espaço no mundo. Era um homem sem vocação para esperar, avesso a complicações ou a tudo o que exigisse demasiado tempo. Também não conseguia abarcar o conjunto das coisas: pensava aos pedaços, fragmentado, e, ainda assim, pouco organizado — para não dizer francamente desorganizado.
Custava-lhe levantar-se às seis e quarenta e cinco da manhã, ao contrário da mulher, incapaz de permanecer na cama depois dessa hora. Com o desemprego, então, encarnou o cliché do homem de roupão e barba por fazer, enrolado nos lençóis até perto do meio-dia, enquanto a mulher, já irritada, o tentava acordar com pequenos empurrões antes de sair para as aulas. A verdade é que ele próprio se surpreendia com a facilidade com que se deixava ficar ali, imóvel, como se o peso do corpo fosse maior do que devia. Acabou por se inscrever num curso na faculdade; acreditava ter algum jeito para as artes e para as letras e, mesmo consciente de que dali não surgiria carreira possível, decidiu arriscar no ramo artístico e cultural, como quem tenta, pela última vez, encontrar um sítio onde caiba.
Encontrou um mundo novo em instalações degradadas, para o qual não tinha grande paciência: o barulho no refeitório, o cheiro persistente de bacalhau de cebolada e de atum em conserva, misturado com alface fresca, azeite e alho; as tampas dos tupperwares a estalar no chão; o plim do micro-ondas; os restos de comida no ralo do lava-loiça. As raparigas de roupa preta acentuavam a maquilhagem ao estilo da família Adams; eles usavam suspensórios sobre camisas de pescador. Era um universo alternativo, demasiado acintoso para a educação conservadora que recebera de pai e mãe, sempre a enaltecer o respeitinho — por ser bonito e necessário, diziam — para manter a engrenagem que fazia o mundo girar. Admitia certas cedências e liberdades, mas a ruptura, completa e em todo o lado, parecia-lhe um entusiasmo sem travões.
As sardinhas em escabeche de um rapaz de gabardina preta, boina vermelha, barba farta e óculos quadrados de massa — futuro quadro das vanguardas artísticas, quem sabe — inundavam o espaço de refeição. Quem teria trazido arroz de berbigão? Os ovos escalfados com sabor a cebolada de um outro rapaz faziam franzir o cenho a um terceiro, que olhava a namorada com resignação. A namorada tinha aquela mesma secura pálida que ele observara recentemente num café do bairro, numa tarde de quinta-feira, à hora do lanche: duas mulheres vestidas de modo antiquado, muito direitas, fininhas, pele quase transparente de falta de praia, mastigando em silêncio e sorvendo chá.
Levantavam as chávenas ao mesmo tempo. A filha, esboroando um queque em pedacinhos, percorria com o olhar todos os homens presentes no café, antes de quebrar o silêncio para se queixar de tanta gente ali àquela hora. Desempregados, sentenciou. Era o que mais havia por ali. Como o drogadito do terceiro andar, acrescentou num sussurro moralista.
A adolescência e, depois, a entrada na idade adulta foram complicadas: a mãe apoiava-o enquanto rezava aos santinhos para que o vício das drogas lhe passasse. Sentia o coração apertar todos os dias, à espera de um sinal de redenção que nunca vinha.
Aliviou-se anos mais tarde, no dia em que o filho lhe apresentou uma namorada com quem casou pouco depois — tempo suficiente para calar os vizinhos e, mais importante ainda, para alimentar a esperança dela. E transbordou de alegria quando soube que ia ser avó, convencida de que, com isso, talvez o desvio já lhe tivesse passado, jamais ousando voltar ao assunto. A alegria durou pouco. Uma pedra no rim obrigou-a a ficar internada uma semana e, ao regressar, percebeu que o filho — a quem cedera a chave de casa para dar comida aos pássaros — remexera as gavetas à procura de dinheiro, provocando a devastação silenciosa de uma mulher simpática e ingénua.
Morreu atropelada numa segunda-feira, ao voltar das compras do hipermercado. Ficou presa debaixo de uma carrinha de construção civil. Enquanto esperavam o reboque, os bombeiros e o delegado de saúde para levantar a viatura e retirar o corpo, algumas pessoas juntavam, em pequenos montinhos no passeio, as laranjas, os iogurtes, as bolachas, os salgados e as embalagens de comida pronta espalhadas no asfalto.
E havia ainda a vizinha do quinto andar: aparecia sempre em horas impróprias para tratar da administração do condomínio, interrompendo o jantar ou o que quer que estivessem a fazer. Trazia uma lista de assuntos que levavam sempre demasiado tempo a resolver. Viúva, reformada, com dois filhos — a filha emigrada para Inglaterra e o rapaz casado à pressa com uma psicóloga, depois de a engravidar, interrompendo o mestrado em Económicas — era, apesar de tudo, boa pessoa. E às boas pessoas não se desejava mal.















