De vez em quando a eternidade sai do teu interior e a contingência substitui-a com o seu pânico. São os amigos e conhecidos que vão desaparecendo e deixam um vazio irrespirável. Não é a sua 'falta' que falta, é o desmentido de que tu não morres.

(Vergílio Ferreira)

Era uma pessoa doce, inocente, branda, com o perdão sempre pronto a oferecer — e por isso mesmo provocava nos outros o mau comportamento. Havia que lembrar o passado, não reconstruí-lo; por isso não inventava nada, não apimentava nem retirava, apenas expunha. Andava sempre à procura de um lugar seguro na vida, ou pelo menos a tentar passar o tempo sem mossa. E depois descobriu, ao fim de um par de anos que na realidade eram mais do que dois, que afinal não se amavam — entendiam-se apenas, apesar do cansaço.

Nasceu pequeno e com saúde, que isso da saúde era o mais importante. Nasceu pobre também, mas isso, ali à volta, era fruta da época. No bairro havia um pequeno cinema a quem a malta chamava cinema piolho, pela sua dimensão e por, normalmente, se apanharem piolhos depois de uma sessão de coboiada ou de kung fu. Ele costumava sentar-se num banco de granito num pedaço de jardim arrumado entre dois prédios e ficava a ouvir os sons do filme — as falas, os anúncios — que trespassavam as paredes sem insonorização. A mãe dissera-lhe um dia que quem falava línguas era um doutor, e ele tentava aprender inglês de ouvido. Absorvia falas e sons, imaginando o desenrolar das cenas, adaptando a imaginação ao que conseguia imitar. O mais fácil era a pronúncia chinesa, por causa dos filmes do Bruce Lee — uma vez que bastava, basicamente, abrir e arrastar as vogais: huáimmmm, ouuuuuiuuuuiaiiiii…

A mãe dissera-lhe também que, se fosse sozinho pela vida, seria um cabeça no ar. Ele encolhia os ombros e voltava o olhar para o jardim que se estendia à sua frente, emoldurado na janela. Do alto da copa de três castanheiros voaram alguns corvos que lhe pareceram abutres atrás do cheiro de carne putrefacta de guerreiros japoneses tombados numa planície. Tinha noção do tamanho fértil da sua imaginação — sonhava com os índios e os cowboys da infância, com naves espaciais e legionários romanos. Para além da imaginação, também fazia versos. A mãe tinha apreço, como dizia habitualmente, por ele se mostrar um rapaz sensível, mas temia que isso se tornasse numa imprudência. A poesia que ele deitava cá para fora tinha pernas para andar num divã de psicanálise, mas colocava-o em risco ao expor de forma tão desabrida o que lhe ia na alma — e poderia acabar por ter de pagar uma factura tremenda.

Era um rapaz muito linear, contido nas palavras que não fossem poéticas. Gostava de ficar, aos domingos de manhã, a ver documentários sobre animais, florestas exóticas e populações indígenas; logo a seguir ao almoço, lia as tiras de banda desenhada dos jornais, depois do pai fazer as palavras cruzadas. Durante a tarde dormitava e lia uns versos de Sophia. À noite, para o desfastio das letras, via um episódio do Homem-Aranha no canal dois. Nas suas leituras e pensamentos sobrava espaço para pensar na morte — por encontrar nela uma harmonização, uma espontaneidade disponível e democrática. A sua dedicação ao estudo da poesia e da morte, o seu interesse em forças ocultas e temas de baixo relevo no pensamento filosófico, advinha da convicção de não se sentir propriamente dotado para coisa nenhuma, preferindo interessar-se pelo que os outros consideravam não ter interesse.

Isso trazia-lhe alguma autoestima, pela superioridade do seu gosto pelo artístico e pelo sublime. Achava que ser normal era muito mais difícil e dava muito mais trabalho. Outras vezes achava que era precisa muita coragem para se sentir perdido, e que a realidade era, por si só, suficiente para lhe fazer perder o tempo; e que ele só inventava coisas porque estava desempregado, era alarve, insaciável e manifestamente indecoroso — contendo-se para não ficar refém da infelicidade.

Depois do divórcio, fez por se tornar invisível. Foi viver para um quarto alugado, onde uma velha passava o tempo a fazer malha e a ver novelas com o som muito alto. Com o tempo, viu-se a tomar conta da senhora — sem saber bem como chegara ali, como quem acorda já a meio de uma frase sem ter ouvido o início. Dobrou-se para apanhar a tampa da garrafa que caíra no chão da cozinha. O sol escondeu-se atrás das nuvens. Um dos gatos veio roçar-se na canela. Ele pensava no que havia de fazer para o jantar — talvez descongelar umas almôndegas, que a senhora gostava de almôndegas com esparguete, ou talvez ir ao Pingo Doce buscar comida pronta — e neste dilema tocaram à porta.

Abriu.

A luz entrou na casa sem pedir licença e inundou-lhe os olhos enquanto esperava, numa dolência serena, pelo derramar das horas. O vazio encontra sempre as mãos do dono.