Um dia a região metropolitana já foi interior e Belo Horizonte, tão distante, nem parecia que se situava na mesma região central do estado. Para uma criança que passava as férias na casa dos avós, proximidades e afastamentos entre perto e longe dançavam pelo caminho que ligava as duas cidades. Depois do Natal, se não tinha carona dos tios, partia-se da rodoviária para se chegar a Itaguara e ancorar — de acordo com uma das versões para o nome da cidade, da variação ancestral tupi-guarani ita-yguara — como uma habitante da pedra.

A pedra fundamental para a construção da família lá estava. Terra-pedra paterna que não foi filosofal para produzir o elixir da vida e prolongar a existência, nem riqueza infinita ou juventude eterna, mas que fez no tempo de Chronos a grandeza da afetividade nas histórias contadas pela avó, no sossego do avô, no amor das tias e na alegria do encontro de primos. Registro carinhoso no coração, como as festas que nos reuniam.

A família gostava de frequentar a matriz de Nossa Senhora das Dores e participava das religiosidades que se estabeleceram desde a colonização. Considerado como um dos primeiros arraiais conquistados violentamente pelos bandeirantes nas Minas Gerais, a doutrina católica e o cristianismo não deixaram vestígios da cultura originária em Itaguara. No entanto, a resistência que vem da raiz africana, representada pelas Congregações de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito, ainda que mescladas às tradições portuguesas e espanholas, têm o respeito e a representatividade cultural e religiosa na cidade.

Em janeiro, a avó precisava da ajuda de muitas mãos para preparar uma merenda caprichada. A casa recebia os foliões de reis. Era um grupo da Fraternidade de São Benedito, muita gente para celebrar os Reis Magos que seguiram a estrela e foram presentear o menino Jesus. Uma dupla reverência, aos Reis do Oriente e ao nascimento do filho de Deus. A cantoria reiseira ouvia-se de longe. Os meninos, rapazes e homens faziam um cortejo pelas ruas de terra com as indumentárias próprias, seus ritos e instrumentos. Já sabiam o trajeto e quais casas seriam visitadas. O mestre levava uma bandeira e organizava a comitiva; os cantos, o coro, as brincadeiras e danças eram todos orquestrados de acordo com a tradição.

A casa dos avós tinha uma grande área externa e, ao abrir o portão, uma mangueira, mais à frente, hipnotizava e conduzia-nos para a porta da cozinha, também com generoso espaço, divisando com o pomar. A porta da frente que já tinha ficado lá perto da entrada era apenas um adorno junto ao colorido jardim que tentava recepcionar as pessoas, mas o aconchego mesmo estava no delicioso cheiro que vinha do rústico forno de barro.

No dia 6 de janeiro tudo era preparado especialmente. Na simplicidade há coração em cada ingrediente dos variados biscoitos, bolos, doces, pães, broas... A avó era merendeira e tinha as mãozinhas mais arteiras do mundo, tamanha habilidade transbordava amor onde tocava.

O mestre da Folia de Reis com a bandeira do grupo pedia permissão e licença para entrar. No terreiro fazia-se a louvação ao avô e a avó, entoando seus cantos e abençoando aquele lar. E beija a bandeira pra cá e beija a bandeira pra lá e vai respeito para todo lado. O terno era humilde, mas tinha devoção.

Os olhos de criança via tudo com curiosidade e admiração; as danças, os chapéus enfeitados, as roupas coloridas, muitas fitas e os acessórios teatrais representando os três Reis Magos e os personagens foliões. Os cânticos misturados com as declamações formavam um idioma desconhecido para os ouvidos pouco apurados. As letras ao toque da percussão sugeriam cantos de outro lugar com suas batidas fortes. Os músicos acompanhados de pandeiro, viola, reco-reco, sanfona e caixa faziam pulsar o ritmo daquela cena que misturava céu e terra na mesma festa. Havia pouca compreensão do que significava aquilo tudo, mas a alegria no meio da humildade encantava a estranheza da menina que não vivenciava o 6 de janeiro na capital.

Com tanta energia da folia, a comida era muito bem-vinda e todos se deliciavam à vontade. Tinham ainda mais farra para espalhar, mais casas para visitar. Antes de ir embora, canto e ritual, dessa vez de despedida, agradecendo a saborosa acolhida e os donativos que recolhiam das pessoas que estavam no terreiro da avó. Além da família, vizinhos e amigos eram convidados para participar da folia da cultura popular.

A lembrança que fica do olhar da infância é dos avós felizes e satisfeitos, celebrando também a visita abençoada dos três Reis Magos que presentearam o menino Jesus com as prendas da riqueza, da sabedoria e da eternidade. Todos os enfeites de Natal eram retirados após o festejo e a casa arrumada para seguir os ciclos do tempo. E já foram tantos os ciclos e os tempos...

A festividade que cumpria uma tradição e tinha lares para abençoar hoje é patrimônio imaterial do estado. E quando o calendário marca janeiro, na mesma data, ao comer romã, onde quer que esteja, é impossível não lembrar das férias em família.

Sobre a pedra acolhedora da cidade ̶ que mudou de nome três vezes, que pertenceu a Bonfim e Itaúna antes de se emancipar, que já foi pouso de Guimarães Rosa e cenário para os lampejos da sua Sagarana ̶ , estão as memórias, os cultos, a fé. A criança que hoje não é mais ainda acha que Itaguara é interior de Minas, assim como é o interior do seu coração, com tantas folias e pretas saudades coloridas.