A Galeria Francisco Fino apresenta a primeira exposição de Helena Almeida (Lisboa, 1934 - Sintra, 2018) na galeria, reunindo um conjunto de obras produzidas entre a década de 1970 e os anos 2000. A exposição propõe um percurso através de diferentes momentos da prática da artista, evidenciando a consistência de uma investigação que, ao longo de várias décadas, interrogou de forma persistente os limites da pintura e do desenho, deslocando-os para um território onde o corpo, o gesto e a imagem se tornam indissociáveis.
Desde o final da década de 1960, Helena Almeida desenvolveu uma prática singular no contexto da arte contemporânea portuguesa e internacional, marcada por uma reflexão contínua sobre as condições de possibilidade da pintura. Formada em pintura na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, a artista inicia o seu percurso num momento em que as categorias disciplinares tradicionais começam a ser amplamente questionadas. A sua obra emerge desse contexto crítico, mas afirma-se sobretudo através de uma investigação profundamente autorreflexiva, em que o próprio ato de pintar e desenhar se torna objeto de análise.
Um dos gestos decisivos desta investigação consiste na introdução do corpo da própria artista no espaço da obra. A partir do final dos anos 1960, Helena Almeida começa a utilizar a fotografia como meio de construção das suas peças, registando ações realizadas diante da câmara nas quais o seu corpo se relaciona diretamente com elementos associados à prática pictórica e ao desenho — a linha, o pigmento, o gesto, o limite do suporte. A fotografia deixa assim de funcionar como mero registo documental, assumindo-se como o lugar final da obra, onde convergem ação performativa, pensamento pictórico e construção visual.
Neste processo, o corpo surge simultaneamente como sujeito, instrumento e matéria da obra. Ao ocupar o espaço da imagem, ele torna visível um conjunto de tensões fundamentais na prática da artista: entre presença e representação, entre gesto e inscrição, entre o espaço físico da ação e o plano bidimensional da imagem. Linhas que parecem prolongar-se para além do papel, manchas de cor que suspendem o gesto ou movimentos que sugerem resistência e deslocação tornamse elementos recorrentes de um vocabulário visual que questiona continuamente os limites do campo pictórico.
Ao longo das décadas, esta investigação desenvolve-se através de uma economia de meios cada vez mais depurada, mantendo, contudo, uma notável coerência conceptual. Nos trabalhos produzidos entre os anos 1970 e os anos 2000 — aqui reunidos — torna-se evidente a persistência de um mesmo problema: como habitar o espaço da pintura sem se limitar à superfície da tela. A resposta da artista passa pela construção de um dispositivo em que pintura, desenho, fotografia e performance se encontram profundamente interligados, permitindo que o gesto pictórico se expanda para o corpo e para o espaço.
Mais do que representar o corpo, Helena Almeida coloca-o em situação, fazendo dele o lugar onde a obra acontece. É nessa zona de tensão entre ação e imagem que o seu trabalho se inscreve, propondo uma reconfiguração radical das relações entre corpo, suporte e representação.
A exposição na Galeria Francisco Fino reúne um conjunto de obras que testemunham a continuidade e a densidade desta pesquisa ao longo de diferentes momentos do percurso da artista, sublinhando a singularidade de uma prática que transformou a pintura num campo de experiência onde imagem, gesto e presença se tornam inseparáveis.















