Entre energia contagiante e fragilidades técnicas, o concerto “O Compositor”, de Nelson Tivane, revela a ambição de transformar músicas populares em espetáculo ao vivo, com orquestra e instrumentos reais. Do entusiasmo do público aos deslizes vocais e ausências anunciadas, a noite de 28 de março no Centro Cultural Moçambique-China mistura virtuosismo, improviso e controvérsias, mostrando que a emoção nem sempre caminha ao lado da perfeição.

20 horas. O público, pouco numeroso, já está sentado. O palco está pronto. A Orquestra Xiquitsi está posicionada. Mas o concerto ainda não começa. O atraso, oficialmente de duas horas, marca o tom inicial. Não é dramático, pois já se tornou hábito, mas revela falta de controlo num espetáculo que exige precisão desde o primeiro momento.

Quando começa, a diferença é imediata. Em vez de bases pré-gravadas, há instrumentos reais. Violinos, violas de arco, sopros, percussão, guitarras, bateria. A proposta do compositor Nelson Tivane é clara: levar repertórios populares, como Pandza, Marrabenta, Kizomba, Ghetto-Zouk, R&B, Pop e Rap, para um formato totalmente ao vivo, com orquestra.

A ideia é ambiciosa. E funciona, em parte. A orquestra, liderada pela oboísta moçambicana Kika Materula, cumpre a imersão com segurança. Mantém estrutura, tempo e consistência ao longo do espetáculo. O coro esbanja glamour. As cordas conseguem adaptar músicas pensadas para suporte digital a uma execução acústica com eficácia suficiente para sustentar o concerto. E este é, talvez, o centro do espetáculo.

Isto não acontece pela primeira vez, mas desta torna-se mais evidente. Nelson Tivane e Kika desafiam a lógica dominante e cruzam dois extremos numa mesma proposta sonora. A operação não é simples. Obriga a converter camadas eletrónicas, repetitivas e previsíveis em linguagem acústica, com outras exigências de tempo, dinâmica e precisão. Nem sempre o resultado atinge um padrão de refinamento, mas o gesto tem consistência. Expõe limites, testa soluções e abre espaço para uma prática ainda pouco consolidada no nosso contexto musical.

Ainda assim, mesmo quando os arranjos procuram coerência melódica, a execução não acompanha a ambição. Os músicos nem sempre respondem às exigências do formato. Muitos cedem, condicionados por uma prática assente no suporte digital, pela tolerância do público a falhas técnicas e, sobretudo, pela falta de domínio do palco em contexto de atuação ao vivo.

Sem playback, quase todos os cantores revelam dificuldades: falhas de afinação, entradas fora do tempo, pouca resistência vocal. A transição para o ao vivo expõe um padrão já conhecido, mas aqui particularmente visível. O problema está nas vozes, pouco preparadas para este tipo de exigência e demasiado dependentes do estúdio.

A primeira atuação, com Lourena Nhate, encontra um público já disponível e animado pelo que a antecede. Há expectativa e abertura, mas o desempenho nem sempre corresponde a esse clima. A presença em palco é segura e a entrega é evidente, mas o controlo técnico falha: a voz oscila, as entradas nem sempre coincidem com a orquestra e a interpretação perde consistência em alguns momentos. O concerto mantém o ambiente positivo, mas não eleva o nível do espetáculo como se esperava.

Em “Nitsikane niti twissa”, Mabermuda extasia a plateia, que já se mantém animada, elétrica. A energia do público cresce com cada gesto e cada frase cantada. Com Marlene, em “Tara Tara”, repete-se o mesmo cenário. A força em palco é contagiante e a receção do público é calorosa, mas persistem dificuldades de afinação e de sincronização com a orquestra. Nos momentos em que tudo se encaixa, confirma-se o potencial da artista; nos restantes, a irregularidade reforça a necessidade de maior rigor técnico.

Nota-se, no entanto, que essas cantoras mais dançam do que cantam. Isso não é apenas uma questão de escolha artística: grande parte delas são, antes, bailarinas, e a interpretação vocal muitas vezes se subordina ao movimento e à presença cénica. O resultado é uma performance visualmente envolvente, mas tecnicamente irregular, evidenciando a tensão entre espetáculo e rigor musical.

A entrada de Nelson Freitas cria um ponto de comparação claro. A voz mantém-se estável, o domínio do palco é seguro e o controlo rítmico é preciso. A diferença em relação a Lourena Nhate e Marlene não se limita ao timbre: evidencia-se sobretudo na preparação e experiência para o ao vivo. Freitas, o cabo-verdiano-holandês, já percorre uma estrada longa no palco, acumulando apresentações em diferentes contextos, o que se reflete na confiança e na coerência da execução. A presença dele realça, por contraste, as lacunas técnicas e interpretativas das outras atuações, mostrando como a prática e a experiência moldam a performance ao vivo.

30 minutos entre linhas

A Orquestra Xiquitsi continua a fazer pontes entre músicas e estilos e isso reflete-se claramente no título do concerto, “O Compositor”, destacando o papel central de Nelson Tivane como criador e referência musical. A cenografia é excelente: o verde, presente nas cortinas e em quase todo o cenário, é sugestivo, conferindo frescor e unidade visual ao espetáculo. A iluminação complementa o ambiente, evidenciando os artistas sem sobrecarregar a perceção, enquanto a combinação de cores e movimentos cria uma sensação de imersão que transporta o público para o palco.

No entanto, o ambiente perde ritmo com a intervenção de Mário Madjaia. O momento inclui pintura ao vivo por Sebastião Coana e leilão de obras em apoio às vítimas das cheias. A intenção é relevante e louvável, mas a execução interrompe a fluidez do espetáculo. São cerca de 30 minutos que quebram o andamento do concerto, diluindo a energia acumulada e criando um contraste abrupto com a performance musical que o precede.

Essa estratégia de transformar concertos em vitrines propagandísticas não é novidade em Maputo. A ideia de criar sinergias entre diferentes expressões artísticas é louvável, mas perde efeito quando desvia abruptamente a atenção do público e altera os equilíbrios do espetáculo, convertendo o concerto único num sarau não anunciado.

Por isso, quando Nelson Tivane regressa, encontra um público menos concentrado. A entrada com uma música nova não ajuda. A reação é contida e o clima de expectativa parece diluir-se. A recuperação acontece quando ele simplifica: primeiro a capela, depois com a entrada gradual da orquestra. A interação com o público cresce e, rapidamente, fica claro que, quando reduzido ao essencial, o concerto ganha foco e intensidade.

O comportamento do público é um dos elementos mais consistentes da noite. Em vários momentos, mostra-se mais entusiasmado do que a própria performance justifica, reagindo ao repertório e à energia do palco, e não necessariamente à precisão técnica da execução. Essa dinâmica reforça a ideia de que, mais do que rigor, o concerto depende da conexão emocional entre artistas e plateia.

A música “Hiyavawela”, fresca na memória coletiva, é o mote de um dos momentos de maior interação com o público. A letra serve como ponto de reencontro entre artista e plateia. O refrão repetitivo e a cadência envolvente desencadeiam aplausos e cantos, transformando a performance numa experiência participativa: o público canta, bate palmas e responde, como se a música já fizesse parte das dores de todos ali presentes. É um momento em que a energia sobe, a distância entre palco e plateia se esbate e a expressão musical assume um carácter comunitário.

147 mil ‘mimos’ para Maengane

Com a entrada de António Marcos, os indicadores de êxtase sobem rapidamente. O público levanta-se, canta e dança, respondendo de imediato ao feeling do artista. Durante a interpretação de “Maengane”, a reação é ainda mais intensa: os espectadores acompanham cada gesto, cada frase, e a dança da cintura de Marcos faz verdadeiros milagres no público. O passo “ntsantsantsa” assume proporções impressionantes quando o toque evidencia a cadência da música, e a plateia transforma-se numa massa vibrante de dança e cânticos eufóricos, quase em uníssono.

No final da atuação, o público vai além do aplauso. Pedem o número de M-Pesa do veterano artista, desejando enviar contribuições como forma de reconhecimento pela sua performance e trajetória. No concerto, realizado no Centro Cultural Moçambique-China, foram transferidos 147 mil meticais, uma prova concreta da admiração e do envolvimento do público. O gesto também evidencia uma crítica implícita: muitos espectadores sentem que os artistas merecem apoio direto, e não apenas aplausos, destacando a relação entre valorização cultural e sustentabilidade da carreira artística.

E o clima nunca mais arrefeceu. Na mesma euforia do público, entra Mr Bow, cuja presença em palco mantém o clima em alta e contagia a plateia com a sua energia. Do ponto de vista técnico, surgem falhas como entradas fora do tempo e dificuldades de encaixe com a orquestra. Mas elas não comprometem a experiência: o público continua envolvido, cantando e dançando, guiado pelo entusiasmo coletivo que sustenta o concerto.

“Safadinha” surge como surpresa e verdadeiro furacão. É Ziqo, e a “safada” investe contra o público com batidas de pandza e eletrónico punk que dominam o palco. O corpo da dançarina segue o mesmo trilho rítmico, acompanhando cada impacto sonoro, mas a intensidade é tal que se torna mais do que mero sucedâneo: transforma-se em protagonista da experiência, impondo presença e exigindo atenção total do público.

A performance é visceral, quase agressiva na sua essência, e cria um contraste marcante com os momentos anteriores do concerto, mostrando que o espetáculo não se limita à música, mas é também movimento, atitude e provocação.

A entrada de Bander ocorre num momento já elevado do espetáculo. A adaptação dos elementos eletrónicos para instrumentos reais é visível, sobretudo nos agudos, assumidos pelas cordas do Xiquitsi. A solução funciona parcialmente, conferindo textura ao arranjo, mas expõe novamente limitações vocais que, num contexto menos receptivo, poderiam prejudicar a experiência. Ainda assim, a plateia acompanha, reforçando a dinâmica de interação que transforma o concerto numa celebração compartilhada entre palco e público.

Alinhamento, ausências e um fim brusco

Não são todos os dias que dois extremos da música se cruzam em palco, mas, neste concerto, o alinhamento revela fragilidades evidentes. Há momentos fortes, mas mal distribuídos; longas interrupções, muita conversa e entradas pouco estratégicas comprometem a progressão, quebrando o ritmo e deixando o espetáculo sem o impacto pleno que a proposta prometia.

No concerto, os artistas Liloca e Biver, embora anunciados no cartaz e promovidos em vídeos durante os ensaios, não chegaram a atuar. As razões? Até aqui são desconhecidas. Mas o problema é que os eventos culturais não são apenas momentos artísticos; são produtos organizados, promovidos e apresentados ao público. Quando nomes integram a comunicação oficial de um espetáculo, passam a fazer parte da proposta que o público adquire ao comprar um bilhete, e isso traz responsabilidades claras.

À luz da legislação moçambicana, particularmente no âmbito da defesa do consumidor, a informação disponibilizada deve ser clara, rigorosa e não enganosa. A inclusão de um artista num cartaz cria uma expectativa legítima. A sua ausência, sem qualquer esclarecimento, compromete esse princípio e levanta dúvidas sobre a transparência da organização.

Não se trata de acusar ilegalidade: imprevistos acontecem, na vida artística como em qualquer outra. O que não é aceitável é o silêncio. Ele fragiliza a credibilidade da organização, expõe o artista ausente a julgamentos infundados e transmite desrespeito ao público.

O público não é um detalhe do espetáculo. É parte central dele. E, como tal, merece ser informado, respeitado e colocado no centro das decisões de comunicação.

E, pior ainda, o final é abrupto e apressado. Não há construção de fecho nem tensão dramática que prepare a conclusão. O concerto termina mais por necessidade de encerrar do que por decisão artística, deixando uma sensação de incompletude, apesar dos momentos de energia e entrega que o antecederam. São quase 0 horas quando tudo se desliga, desesperadamente.

A próxima rodada do espetáculo, numa espécie de Compositor 2, está marcada para outubro deste ano. Até lá, espera-se que a experiência evolua: maior rigor técnico, transições mais fluídas e atenção à construção narrativa podem transformar a ambição do projeto num concerto à altura do talento dos artistas e da expectativa do público.