Na noite da última sexta-feira (7), Maputo e Matola brilharam de extremo a extremo: se no Centro Cultural Franco Moçambicano, Stewart Sukuma e Banda NKuvu deixaram no palco razões para serem lembrados, no Monarchy, Rhodália e sua banda foram para se eternizar.
A coerência não podia ser maior: "Vozes Livres", nome do espetáculo de Stewart Sukuma, foi essa demagogia musical, na qual todos tiveram lugar. Sala cheia, bilhetes esgotados antes do evento, e emoções ao rubro. No todo, imperou esse convite à libertação, à exposição da voz através da música, de mensagens curtas e claras. Ou, talvez, a ideia de que também pela angústia e preocupada reflexão se pode afirmar a sua qualidade, integridade, missão e sua relação como o seu público. “Ele é o cara”, disseram alguns, enquanto aguardavam do lado de fora da Sala Grande. Fomos ver, mas não demoramos.
O Scat singing da hiena Rhodália
A monstruosidade de Rodhália já é pública. Alguns a conhecem e admiram, agora, depois do seu recente arrebatamento em Portugal, no palco do Got Talent. Porém, a grandeza da sua história está feita há muito tempo. E disso a memória nos lembra:
Rhodália é uma cantora moçambicana, vencedora de vários prémios, destacando-se o Prémio Revelação, no Ngoma Moçambique 2017, a Melhor Voz de Moçambique, nos Ngoma Moçambique 2018 e 2022. Já atuou em colaborações nos palcos de Cape Town Jazz Festival em 2011, Bushfire, Azgo, Lake of Stars, e entre outros.
Não admira, por isso, que entre as muitas influências — entre swazis, seu povo, e moçambicanas, povo que lhe acolheu — tenha herdado fibra do seu pai, o Maestro Faustino António Chirute, um dos poucos africanos formados em regência de orquestras na ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e mentor do Majescoral — Maputo Jazz Espiritual Coral. Ela é feita dessa carne, dessa fibra, entretanto, hoje, na sua voz mora outra tradição: gira entre boas melodias, boa performance e um scat singing arrepiante.
É o que fez no Monarchy, no bairro de Boquisso, no município da Matola, na sexta-feira. Entrou a cantar Stimela, de Hugh Masekela — um clássico sobre outro clássico —, quebrando o sentido único da música no tempo. Há uma promessa feita na letra, “choramos pelos nossos filhos!/Choramos por nossos pais, mãe, oh!”, cantada em zulu. Todos trauteiam. Todos a conhecem. Mas agora está transfigurada, requalificada. Rhodália é assim. Já a vimos muitas vezes a cantar. Nela, cada apresentação é uma história, cada toque uma transformação, uma apropriação, até porque os grandes artistas não são os que se ouvem mais vezes, mas os que mais vezes se ouvem de formas diferentes.
A arte vocal de Rhodália, tatuada nas graves, voz de talento, essa qualidade em vias de extinção, transpira, em Stimela, por todos os lados: no timbre, nos ataques, na respiração, na capacidade de improvisação (incluindo o scat singing), até no próprio refrão. Há scat, solo de piano, bateria, baixo e tempo para viajar. O público acompanha com palmas. Em contraste, alguns bebem, comem, tiram fotos, fazem filmes. A casa está cheia. É Rhodália, no Monarchy; público restrito e os holofotes.
Sem sombras de dúvidas, a artista é uma das raras cantoras de jazz que garante a sobrevivência da tradição das mais nobres linhagens da sua história. Ao contrário da maioria das artistas femininas moçambicanas, é um exemplo, cada vez mais raro, de uma voz cujas influências entram pelos tímpanos adentro sem sacrifício da sua própria identidade. E essa é uma das artes mais difíceis: cruzar a tradição e a contemporaneidade.
Em suma, Rhodália Silvestre tem jazz e espalha-se pelo corpo. Tem carisma na atitude e na voz, que não compromete o ao vivo e desdobra-se em várias camadas. É sobretudo uma artista performativa, ou de palco, onde transforma as composições. Apesar da clareza da sua individualidade vocal, a dimensão lúdica do seu ato musical é também uma das suas feições.
Aplaudida, mas desconhecida
Sapatilha branca, vestido roxo, com uma racha até ao sartório, óculos numa tonalidade azul e cabelo em afro, é assim que Rhodália emergiu do público para o palco. A indumentária, um tanto “desproporcional”, diz muito sobre ela: não pertence só a este mundo. A arte é um de muitos outros mundos. É de outras influências. Por isso, entendê-la é mergulhar numa catarse contextual, cultural e literalmente boémia.
Na sexta-feira, Rhodália provou, mais uma vez, que é feita de liberdades – sim, no plural. No vestir, na presença em palco, no cantar, no falar. Depois de Stimela, seguiram outras músicas, da sua autoria, como Wansati. Quando soaram as primeiras notas do piano na introdução da música, percebemos de imediato que, embora todos continuem na mesma disposição, as energias do público baixaram. Talvez porque não esperavam. Talvez porque desconheciam. Talvez… porque há muitos talvez em jogo.
A verdade é que aqui, a partir deste momento, sentimos subtis diferenças do grito do público; sentimos a cantora a aquecer enquanto o público arrefecia em cada "set". Embora continuam a acompanhar, filmando e entusiasmados, o foco é quase totalmente na sua presença. Um momento mais intimista que se perde para uma farra ao estilo popular.















