“O que é sagrado deve ser respeitado”. Mas… por que uma vaca?

Eu não sei, desconheço totalmente se existe algum animal que não seja sagrado. Até nós somos (risos).

Também é verdade que sei pouco, entretanto, não me recordo de nenhum outro bicho, sem ser o bicho homem, que tenha sido símbolo de adoração.

No hinduísmo a deusa Surabhi, ou Kamadhenu, é conhecida como “a vaca da plenitude que realiza todos os desejos”.

A lenda diz que essa deusa representava a maternidade e a reprodução, também era considerada protetora das crianças, sendo invocada constantemente para protegê-las.

Kamadhenu é a deusa bovina da mitologia hindu e é vista como a mãe de todas as vacas e, segundo o mito, ela dava ao seu dono tudo o que ele desejasse.

E talvez seja por isso que, até hoje, esse animal não seja visto apenas como um animal.

Ter vacas em casa é possuir abundância. Garantia de leite e todos os seus derivados e, quando sacrificadas, elas servem os seus donos com a própria carne. Se tirarmos os véus que cada cultura coloca sobre os animais, não podemos afirmar que as vacas não são sagradas. Talvez, todas as vacas deveriam ser veneradas como a encarnação terrena da deusa. Até hoje, existem casas com imagens de Kamadhenu.

Mas, embora seja considerada uma das principais divindades do panteão hindu, ela nunca teve um templo dedicado exclusivamente à sua adoração. Ainda assim, o próprio animal vivo, a vaca, permanece como objeto constante de devoção.

No hinduísmo, ela é considerada como um símbolo sagrado máximo. Hindus de todas as partes do país, de diferentes culturas e línguas, veneram a vaca. Isso acontece porque todas as vacas, sejam hindus ou não, são vistas como descendentes da deusa Kamadhenu.

O nome Kamadhenu vem da raiz sânscrita “Kamaduha”, que significa literalmente “vaca da abundância”, aquela através da qual todos os desejos podem ser realizados.

Ela é considerada a mãe de todas as vacas e dos onze Rudras.

A deusa possui vários nomes e é conhecida como Surabhi, que pode ser traduzido como “aquela que é perfumada” ou “a que possui um cheiro suave e agradável”.

Geralmente, essa descrição se refere ao cheiro característico das vacas. Em algumas tradições, ela também é chamada de Matrika, que significa “mãe” ou “aquela que serve de exemplo”.

Outros nomes incluem Sabala (manchado) e Kapila, cujas histórias de nascimento estão ligadas à própria Kamadhenu. Mas, a origem de Kamadhenu não é única.

Não há um registro definitivo sobre seu nascimento. Diferentes escrituras apresentam versões variadas. Ainda assim, uma das mais aceitas diz que a vaca divina Surabhi surgiu durante o episódio de Samudra Manthan, quando o Oceano Lácteo, Kshira Sagara, estava sendo agitado.

Assim, ela é considerada descendente dos Devatâs e dos Asuras, que posteriormente foi oferecida aos Saptarishis, os grandes sábios. Brahma determinou que ela seria fornecedora de leite e ghee para os Yagnas sagrados, os rituais de sacrifício.

No Anushasana Parva, Kamadhenu é descrita como filha de Daksha, o deus criador. Segundo essa versão, Surabhi surgiu do arroto de Prajapati (o Criador), após ele beber o Amrita (néctar da imortalidade), originado do Samudra Manthan.

Com o tempo, e segundo esta versão, a deusa deu à luz a outras vacas douradas, conhecidas como Kapilas, consideradas também como as mães do mundo.

Há ainda versões que contam que o deus Brahma teria bebido Amrita em excesso e vomitado parte dele, e que a deusa Surabhi teria emergido desse fluido nectarino.

Já o Ramayana afirma que Surabhi é filha do sábio Kashyapa e de Krodhavasa, filha de Daksha. Por outro lado, o Vishnu Purana e o Bhagavata Purana a descrevem como filha de Daksha e consorte de Kashyapa, sendo também considerada a mãe de vacas e búfalos.

Porém, de acordo com o Matsya Purana, a deusa Surabhi era a consorte de Brahma e mãe da vaca Yogishwari, dos onze Rudras, além de cabras, ovelhas e de outras espécies. Em muitas narrativas, ela aparece como a mãe de todos os quadrúpedes.

Tem uma outra versão que afirma que ela é, na verdade, a mãe do Amrita, das vacas, dos brâmanes e dos Rudras.

Há ainda relatos de que os sábios Jamadagni e Vasishtha mantiveram Kamadhenu em seus eremitérios por longos períodos.

Durante esse tempo, os reis tentaram roubá-la; e foram severamente punidos pela própria deusa.

Nessas histórias, a Kamadhenu desempenhava um papel essencial: fornecia leite, sustentava, nutria e, quando necessário, os protegia. Dizem ainda que ela também tinha o poder de criar guerreiros ferozes.

No Mahabharata e no Devi Bhagavata Purana,

A vaca Nandini também é associada à deusa Kamadhenu, sendo, por vezes, considerada como a sua forma ou até sinônimo. Existem algumas poucas versões em que Nandini é descrita como filha de Kamadhenu.

E, segundo o Raghuvamsa, de Kalidasa, o rei Dilip, ancestral do Senhor Rama, deixou de prestar reverência à deusa Kamadhenu e, como consequência, foi amaldiçoado a viver sem filhos.

Mas, há sempre uma possibilidade de reversão. Seu guru, o sábio Vasishtha, orientou-o então a servir Nandini, que era considerada a filha de Kamadhenu.

Dilip e sua esposa cuidaram de Nandini com devoção, e a maldição foi desfeita. Eles foram abençoados com um filho, Raghu.

No Devi Bhagavata Purana, há também um relato de que Krishna e Radha, ao sentirem sede, deram origem à vaca Surabhi e ao bezerro Manoratha, criados a partir do próprio corpo de Krishna.

Dizem que Krishna ordenhou a vaca e começou a beber o leite, mas o pote caiu e se quebrou, espalhando todo o conteúdo.

Só que também dizem que não foi apenas leite que se derramou. E esse leite teria dado origem ao Kshira Sagara, o Oceano de Leite e, então, outras vacas surgiram diante de Surabhi, e Krishna as presenteou aos Gopas, seus companheiros pastores.

A partir disso, ele declarou que Surabhi seria símbolo de prosperidade e que seria adorada durante o Diwali (festival das luzes).

Acredita-se ainda que a vaca Kamadhenu habite em Goloka (o reino sagrado das vacas), distante de Patala (o inferno).

O mantra da deusa Kamadhenu é:

Namo Devyai Maha Devyai Surabhyai Cha Namo Namah
Gavam Bheeja Swaroopaaya Namaste Jagad Ambike.

Dizem que este mantra é capaz de realizar qualquer desejo. E talvez isso não seja lenda e talvez por isso ela continue sendo reverenciada.