O que caracteriza o gênero épico é o fato de contar algo em prosa ou verso, por isso se trata de um gênero essencialmente narrativo. A presença de um narrador é condição essencial do gênero épico. O narrador é o autor da obra? Nas narrativas ficcionais, não. O autor é o sujeito empírico, ou seja, o indivíduo biológico com responsabilidades jurídicas e sociais cujo nome (ou pseudônimo) aparece na capa e/ou no frontispício da obra (Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, José Saramago, Marques Rabelo), a quem cabe a autoria em todas as suas instâncias, quer a direitos, quer a deveres. Em sua atividade, o autor empírico, entidade real, é o responsável pelas estratégias discursivas: escolha de um autor textual, do(s) narrador(es), gênero, tema, personagens etc.
O autor textual é o enunciador no texto literário e pode delegar a função de enunciador a um narrador ou mais de um narrador. No caso das narrativas com narrador não explicitado, esse se confunde com o autor textual. Como essas entidades são ontologicamente distintas, pode haver entre eles distâncias, particularmente de natureza ideológica, de onde não se pode julgar o autor empírico pelo autor textual. Lembremos ainda que, quando o autor textual se manifesta no texto por um eu que fala no enunciado, ao apropriar-se do aparelho formal da língua, ele constitui um tu (o narratário) e instaura um sistema de coordenadas espácio-temporais que serão manifestadas linguisticamente pelos dêiticos e tempos verbais.
Ressaltamos que no texto literário os dêiticos, aquelas palavras cujos sentidos dependem do contexto em que são enunciadas, por exemplo, o advérbio aqui, não estão relacionados ao mundo factual, mas ao mundo construído pela narrativa, já que a linguagem literária se refere a um mundo construído pelo texto. No poema O barco da morte, de D.W. Lawrence, o dêitico agora, que inicia o poema, (“Agora é outono e os frutos caem / e há uma longa jornada para o esquecimento”) não deve ser entendido como se referindo ao momento em que o poeta escreveu o verso, mas a um tempo ficcional. O poema necessariamente não foi escrito no outono, os frutos podiam não estar caindo. Assim como o eu que fala no poema é ficcional, todo esse enunciado deve ser lido como ficcional. O texto a seguir é o início do Capítulo XLV de Dom Casmurro e serve como exemplo para esclarecer a distinção entre autor e narrador.
Abane a cabeça, leitor; faça todos os gestos de incredulidade. Chegue a deitar fora este livro, se o tédio já o não obrigou a isso antes; tudo é possível. Mas, se o não fez antes e só agora, fio que torne a pegar do livro e que o abra na mesma página, sem crer por isso na veracidade do autor. Todavia, não há nada mais exato. Foi assim mesmo que Capitu falou, como tais palavras e maneiras. Falou do primeiro filho, com se fosse a primeira boneca.
(Assis, Machado de Assis em 'Dom Casmurro')1
O autor de Dom Casmurro é o escritor brasileiro Machado de Assis, mas quem narra já na velhice é Dr. Bento de Albuquerque Santiago, o Dom Casmurro. Como o trecho acima é um enunciado narrativo-ficcional, a palavra autor nesse trecho não se refere evidentemente ao autor empírico, Machado de Assis, mas ao autor ficcional, que é o mesmo que no início da obra afirma: “Agora que expliquei o título passo a escrever o livro”. Por uma estratégia narrativa, quem escreve o livro é uma entidade ficcional, o Dom Casmurro, e não a pessoa Joaquim Maria Machado de Assis, que nasceu no Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839 e que foi casado com Carolina Augusta Xavier de Novais.
O gênero épico apresenta três elementos substanciais: personagem (ns), o acontecimento narrado, a história propriamente dita, e o espaço, local ou locais em se desenrolam os acontecimentos narrados. Além disso, há o tempo, pois os fatos narrados sucedem no tempo, ou seja, há sempre um antes e um depois.
As narrativas podem estar centradas no evento, como exemplos podemos citar: Ilíada, atribuída a Homero, que é focada na cólera de Aquiles; Os sertões, de Euclides da Cunha, centrado na campanha de Canudos, e em diversas narrativas breves como os contos, O peru de natal, de Mário de Andrade, centrado numa ceia em família na noite de natal, e Famigerado, de Guimarães Rosa, centrado no sentido da palavra que dá título ao conto.
Outras narrativas centram-se na personagem, como o poema épico Odisseia, atribuído a Homero, centrado na figura de Ulisses (Odisseu); os romances Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e Mrs. Dalloway, de Virgínia Woolf, o conto Gaetaninho, de António de Alcântara Machado, centrados nas personagens que dão título às obras. Há também narrativas centradas no espaço como o poema Divina comédia, de Dante Alighieri, e o romance O cortiço, de Aluísio de Azevedo.
Sob o gênero épico, abrigam-se produções literárias das mais diversas, indo dos poemas épicos da Antiguidade (Odisseia, Ilíada, Eneida) até o romance moderno, considerado por alguns estudiosos como uma transmutação da poesia épica, que é a narração de feitos de homens valorosos.
Ao contrário do que ocorre com o gênero lírico, que se apresenta como uma unidade indissolúvel, o épico admite fragmentação em partes menores. O romance e a novela podem apresentar capítulos (o episódio dos moinhos de vento, em Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, por exemplo). Um poema épico apresenta episódios em torno de um determinado acontecimento (o canto das sereias e o reencontro com Penélope na Odisseia, o Gigante Adamastor, o Velho do Restelo e Inês de Castro, em Os lusíadas). Enquadram-se também no gênero épico outras formas de narrativa como a novela, o conto, a fábula.
Nota
1 Assis, Machado de. 'Dom Casmurro'. In: ___ . Machado de Assis: obra completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1979 [p.858].














