Homo interpres da cultura oriental, construtor de pontes e um educador épico-ético simbolista é o poeta Camilo Pessanha.

Camilo Pessanha possui um espírito épico-ético e isso revela-se nas suas conferências e estudos como, por exemplo, Introdução a um estudo sobre a civilização chinesa (1912), ou o relato de uma conferência Sobre a literatura chinesa onde realça a obra de Confúcio e a importância da luz intensa que a civilização chinesa projecta sobre o modo de ser das civilizações extintas.

Uma das muitas abordagens em que o germe platónico se manifesta e acentua ao nível filogenético; pois ao nível ontogenético bastará lembrar que Camilo Pessanha enquanto professor de Filosofia e juíz se revelou um agente de educação notável orientado quer pelo Li de Confúcio, quer pela bússola egípcia, tão querida de Platão, o que faz com que a sua vida se torne uma metavida, convergente com a filosofia de busca de união mística com o Um, de Lao-Tse; essa admirável metafísica análoga ao inteligível mundo do filósofo.

Assim, ao ler Pessanha, há que ter em conta que a sua própria leitura dos grandes livros sagrados orientais (Poemas) foi feita à luz de um sol platónico, não esquecendo o sentimento nobre que os une: a Saudade. Segundo Dalila P. da Costa, o amor de Platão e a saudade serão uma dialéctica, conduzindo a uma revelação do absoluto (uma tese que defendemos na obra Camilo Pessanha, um educador épico-ético, editada em 2000 pela Fundação Macau). Ambos como disciplinas filosóficas e meios de libertação; isto porque a saudade elevará a alma da Terra ao Céu e lhe dará a visão da sua imortalidade.

Os poemas de Clepsidra não visam a liberar um conteúdo intelectual: funcionam como índice de uma realidade oculta (o estado de Graça, o sentimento de Dor), apenas perceptível pela manipulação adequada dos símbolos.

Em Camilo Pessanha, a leitura do poema estabelece-se a partir das imagens visuais e musicais ligadas entre si e capazes de despertar sentimentos e/ou sensações. Podemos, assim, pensar que constituiriam a “emoção prolongada”. Contudo, a ideia de símbolo em Pessanha não se esgota tão só nas imagens que evocam um ou mais estados de espírito, porquanto todo o poema vale como um símbolo maior. Por exemplo: em Arcadas de violoncelo, o poema é o violoncelo; atua como verdadeiro ícone desse instrumento musical. No poema Vénus, o poema é a mulher eterna, Deusa, Mãe; no poema Branco e Vermelho, o poema torna-se Luz, iluminação; Espírito Santo, renascimento.

É a linguagem dos místicos. O que estes poemas nos comunicam, misteriosos, em verdades inefáveis, é uma vivência que não tem transcrição possível nas falas humanas.

Branco e Vermelho é a poesia do símbolo e de mistério onde existem momentos brancos e vermelhos únicos; uma génese cromática em que o branco é sinónimo de pureza, uma espécie de vazio disponível a ser inflamado pelo vermelho encantatório e libertador. Trata-se, de facto, de uma experiência teológico-simbólica que atravessa os paradoxos da condição humana. É um deslumbramento experienciado que ajudará o homem ocidental na busca do seu Ser, da Luz.

A experiência da luz significa por excelência o encontro com a realidade última: essa é a razão de descobrir-se a luz interior quando se toma consciência do Si-Mesmo (atman).Nesta circunstância, o véu da ilusão e da ignorância é rasgado. Bruscamente, o homem é cegado pela luz branca, ou seja, é mergulhado no ser. Como nestes versos de Pessanha:

….Foi um deslumbramento … Fez-me perder a vista…

Em Pessanha, os símbolos possuem uma espécie de “aura luminosa”; eles revelam que as modalidades do espírito são ao mesmo tempo manifestações da vida e, por conseguinte, envolvem directamente a existência humana, pois traduzem uma situação humana em termos cosmológicos. Mais precisamente, revelam o vínculo existente entre as estruturas da existência humana e as estruturas cósmicas. O sujeito não se sente “isolado” no cosmos; está “aberto” para o mundo, que, graças ao símbolo, se torna “familiar”.

Camilo Pessanha faz esta orquestração; ele é o maestro que gostava que os outros ouvissem a música íntima e a música das esferas (a lírica e a épica) como ele a ouvia. É que quem compreende um símbolo não só se “abre” para o mundo objectivo como também consegue sair do seu contexto particular e aceder à compreensão universal. “Viver” é, pois, um símbolo e decifrar correctamente a sua mensagem implica a abertura para o espírito e, finalmente, o acesso ao universal.

No caleidoscópio clepsídrico que é a própria Vida, Camilo Pessanha é regido pelo signo Virgem, que, segundo Carlos Oliveira, astrólogo que elaborou a carta astral de Pessanha para a revista “Simbólica”, é regido por Mercúrio e, esotericamente, pela Lua.

Segundo este astrólogo, uma forte interiorização e vivência íntima predominam na sua estrutura e forma de ser devido igualmente à relação revelada entre Plutão e Mercúrio-Vénus no seu mapa astral. Este aspecto terá feito de Camilo Pessanha um ser único, enigmático “ louco” na sua forma muito própria de ser, na sua permanente insatisfação e contínuo “ morrer” e “ renascer”, que fez do simbolismo a sua fórmula de vida.