Conheci um casal cujos nomes eram Valdemiro e Valdemira. Juro! Casados havia longos anos, eram nossos vizinhos durante a minha infância.

Lembro muito bem dos dois. Ele alto, magro, narigudo, de orelhas grandes e pés enormes para dar equilíbrio àquela estrutura longilínea. Ela baixinha, gorducha, risonha, de cabelinho curto, olhos de azeitona e uma simpatia irresistível. Passavam na rua e os meninos, sempre pensando em esportes, cochichavam: o taco e a bola!

Mas a brincadeira era feita em segredo, pois todo ano, nas noites de Natal, vários meninos faziam uma visita ao casal, a pretexto de desejar uma noite feliz. Na realidade, estavam de olho nas deliciosas rabanadas quentinhas, preparadas e servidas gentilmente pela Dona Valdemira.

Eu nunca faltei a este compromisso imperdível. O casal demonstrava gostar da visita dos meninos, talvez por não terem filhos. Ela já fazia uma quantidade a maior das rabanadas, suficiente para que cada um de nós degustasse pelo menos duas daquelas delícias, polvilhadas de açúcar e canela. Ele dedicava-se a brincar conosco, fazendo posições com os dedos longos e ossudos que formavam desenhos, para adivinharmos o que eram. Quem acertava podia comer mais uma rabanada.

O fato de o casal ser praticamente homônimo sempre me intrigou. É incrível que neste mundão de Deus, um Valdemiro encontre uma Valdemira. E ainda mais que se apaixonem, casem e vivam o resto da vida juntos.

Estou lendo um livro sobre previsões para o futuro. Parece difícil que, por qualquer técnica, por mais elaborada e precisa que seja, alguém pudesse prever que tal fenômeno iria ocorrer.

Fico imaginando um casal escolhendo o nome do filho:

— Valdemiro? Não sei. Preciso pensar — disse o marido.

Ele volta uns dias depois:

— Você disse Valdemar ou Valdemiro?

— Valdemiro!

— Huummm. Aldemir?

— Não. Valdemiro.

Decorrido mais um tempo:

— É Casemiro ou Valdemiro?

— Ai meu Deus.

Na véspera da criança nascer:

— Não seria melhor Valdo? Sem o “miro”…

Numa cidade distante, um outro casal decide o nome da filha:

— Eu gosto de Valdemira.

— Valentina?

— Não! Val-de-mi-ra.

— Sei. Não seria melhor Irene?

— O quê?

— Está bem. Nem eu nem você: Valdirene!

Superadas as discordâncias e confirmados os nomes no batismo, corre a vida e um dia os dois se encontram numa festinha:

— Muito prazer, meu nome é Valdemiro. E o seu?

E ela, com as azeitonas arregaladas:

— Nossa! Que coincidência. Eu sou Valdemira!

— Não acredito! Você está brincando.

— É sério.

— Deixa eu ver a sua identidade.

— Então me mostra a sua também.

— Eu sou Valdemiro com “V”, não com “W”.

— Eu também.

— E o “d” não é mudo.

— Isso mesmo!

Daí em diante, encontrar outros pontos em comum deve ter sido facílimo. Claro que ia dar em casamento. Um só nome, uma só carne!

E a confusão na hora de conhecer a família? Fico imaginando que um belo dia, como o predestinado namoro estava firme, marcaram um encontro familiar, cada um com seus pais. Aí foi um tal da mãe de Valdemiro cumprimentar o pai de Valdemira, Valdemira conhecer o pai de Valdemiro, a mãe de Valdemira conhecer a mãe de Valdemiro, Valdemiro conhecer a mãe de Valdemira, enfim um encontro impossível de ser narrado por escrito!

Eu achava que Paulo e Paula, Lúcio e Lúcia ou Francisco e Francisca poderiam até ser um pouco mais fácil, nomes mais comuns. Mesmo assim, ao longo de toda a minha vida nunca conheci nenhum outro casal de mesmo nome, só trocando “o” por “a”. Quanto mais um nome raro.

Na faculdade, nos estudos de estatística, certa vez pensei em calcular a probabilidade desse evento, mas nunca consegui equacionar bem o problema, e menos ainda resolvê-lo. Minha pouca competência na matéria não me permitiu nem chegar perto do cálculo correto. Eu só tinha a certeza de que ninguém apostaria um centavo de que isto pudesse ocorrer. Com certeza, a probabilidade é baixíssima, tendendo a zero.

Num devaneio, imaginei que Valdemiro e Valdemira poderiam ter se casado no interior do Brasil, ali pela década de 1940. Não seria impossível conseguir em um cartório daquela época que, ao invés de mudar o sobrenome, houvesse mudado o nome da noiva. Aí sim estaria explicada a incrível coincidência. Bastaria que o pai da noiva fosse pessoa influente na cidade e, assim, poderia, através de um presente ou apenas por amizade mesmo, ter êxito em selar a aliança dos dois com este raro laço. Quem sabe, com isso, pensava estar contribuindo para que o casamento fosse realmente indissolúvel.

Nelson Rodrigues dizia que Deus está nas coincidências: neste caso, o pai teria feito o papel de Deus.

Esta explicação resolvia tão bem a intrigante questão, que durante algum tempo, mesmo sem nenhum fundamento, contentei-me com ela e continuei acreditando nos cálculos probabilísticos.

Até que um dia, lendo o noticiário político, me deparei com notícias a respeito de um político goiano chamado Iris Rezende. Fiquei interessado em conhecer mais sobre ele e, ao buscar informações, fiquei estupefato: é casado com uma mulher chamada… Iris!!

É demais!

Joguei fora o livro que estava lendo.

A realidade ignora a estatística.