Existe uma construção que nos habita desde o primeiro sopro de vida. Ela não tem paredes, nem vigas, mas sustenta o peso dos dias difíceis, das perdas inesperadas, das alegrias que chegam sem avisar e das dores que insistem em ficar.
Essa estrutura invisível é a alma. Ela tem uma arquitetura que necessita de manutenção e ampliação para que a dança diária do ganha e perde seja uma filosofia de proteção da saúde mental.
Mas o que fundamenta esta construção? Como se edifica a resiliência que nos impede de desmoronar quando o vento sopra mais forte? E qual o papel desempenhado pelo corpo? Pode esse território íntimo desta geometria da consciência ser moldado para a arte do bom viver?
Aprender a arte de viver é uma função que temos perdido nos últimos tempos, e a prova disso são as patologias que temos desenvolvido ao longo destes tempos. Ao alinhar as nossas reações emocionais ao funcionamento natural dos nossos órgãos, promovemos resiliência e evitamos que o “estresse” psicológico manifeste doenças físicas.
Antes de qualquer tijolo, existe o chão. Na arquitetura da alma, esse chão é feito de presença. Não a presença que se compra numa “vitrine” ou se conquista numa rede social, mas aquela que começa em algo tão profundo e invisível quanto a microbiota do nosso intestino.
Quando o nosso ecossistema interno está equilibrado, a nossa relação com o mundo exterior também encontra equilíbrio e aprendemos com a derrota. A balança do ganha e perde é balizada quando trazemos a espiritualidade para a filosofia de vida.
A espiritualidade é a cola entre a presença e a fé, aquela confiança no tempo divino, na dádiva da resiliência. A resiliência não é ausência de dor. É a qualidade estrutural que permite que o sistema consiga dobrar sem quebrar, absorver o impacto sem desintegrar.
As florestas ensinam-nos isso com uma eloquência que nenhum manual de psicologia supera. Apesar das devastações por fogo ou tempestade, elas não encerram o ciclo, mas ocorre uma sucessão ecológica.
Aqui não podemos deixar de citar as plantas espontâneas que insistem em romper anualmente no betão da cidade, aos pés dos muros e em tantos outros solos impróprios, que não imobilizam a sua capacidade de crescer em direção à luz.
A arte de viver ensina que "ganhar e perder faz parte" da vida, já dizia um músico. Ao canalizar essa filosofia, o indivíduo protege a sua saúde mental e física, pois, quando a pessoa aprende a "arte", ela não se deixa abater ao "apanhar" da vida, mantendo a cabeça erguida diante das derrotas.
Essa mesma arte traz a lição do combate ao desespero diante de uma dor que, por mais que se apresente avassaladora, o tempo mostra que é passageira. A arte de viver promulga a fé na superação e fortalece a esperança.
A resiliência também não se improvisa no momento da crise. Ela é cultivada nas escolhas pequenas e conscientes do quotidiano, como a escolha do alimento, a qualidade do descanso, as companhias que perpetuamos, os pensamentos que deixamos repetir. Cada escolha, como nos lembra T. Low Dog, é uma dose de cura ou veneno.
Uma arquitetura precisa de janelas, espaços abertos para deixar entrar a luz, circular ar novo e permitir enxergar além das próprias paredes. Na construção da alma, essas janelas podemos chamar de fé. Não uma fé religiosa, enclausurada, mas uma ferramenta que nos alinha com o desconhecido para além dos famosos cinco por cento.
Aqui defendemos a confiança fundamental na possibilidade da renovação, na crença de que o ciclo não termina na rutura, mas recomeça através dela.
Se a alma tem uma arquitetura, assumimos que o corpo é a sua catedral e não podemos excluir a existência de uma relação direta entre o estado emocional e a saúde dos órgãos internos. Juntos são uma equipa onde cada integrante possui uma função e uma "personalidade" própria.
O controle emocional e outros sentimentos afetam órgãos específicos, e posso citar dois exemplos e suas correlações: o estômago e o coração. Na medicina chinesa defende-se que existe uma correlação intrínseca destes órgãos com o controle e o desapego, respetivamente.
O estômago é associado à capacidade de aceitar o novo e confiar no trabalho em equipa dos outros órgãos. Ele recebe o alimento externo, inicia o processo digestório e entrega o seu produto para que os outros membros da equipa realizem o seu trabalho de aporte de nutrientes e liberação de dejetos, sem tentar controlar ou criticar o resto da equipa.
Problemas como a gastrite ou úlcera gástrica podem surgir quando a pessoa tenta centralizar tudo em si, não aceita ideias alheias, é excessivamente crítica ou tem receio de perder o controle. Normalmente, esse comportamento tem como origem uma infância onde se exigia perfeição para ser aceite.
Já o coração é um órgão que "não guarda nada para si" e simboliza a generosidade e o fluxo contínuo. A sua função é bombear o sangue para todo o corpo sem retenção e, desta forma, ensina a "deixar ir".
Doenças cardíacas estão relacionadas ao acúmulo de mágoas, ressentimentos e medo de perdas. Estudos comprovam que pessoas que foram obrigadas a amadurecer precocemente ou que vivem sob uma estrutura de preocupação rígida e controle sobre a família tendem a ter mais dificuldades nesse órgão.
A importância de um "controle emocional" voltado para a resiliência e a saúde dos órgãos depende da capacidade do indivíduo de aceitar as mudanças da vida com confiança e não acumular sentimentos negativos como a mágoa, o rancor e soltar o controle excessivo.
A nossa topografia emocional é a estrutura física onde tudo o que é invisível encontra expressão tangível. Não um corpo reduzido à sua biologia, mas um corpo entendido como território vivo, como cartografia de emoções, como biblioteca de memórias ancestrais.
Tratar o corpo como catedral é respeitá-lo como espaço sagrado: perceber que o descanso não é fraqueza, mas regeneração; que a nutrição não é indulgência, mas serviço; que se movimentar não é obrigação, mas celebração.
A saúde que emerge desta relação consciente não é a que se compra em frascos vendidos em drogarias de esquinas, e sim a que se cultiva em gestos simples, repetidos com intenção, ao longo de dias que se tornam anos que se tornam vida.
As grandes catedrais têm cúpulas que expandem o espaço interior para além do que os olhos esperam. Na arquitetura da alma, essa cúpula é a consciência de que o individual e o coletivo são partes da mesma construção.
A saúde que não transborda para o social é um bem-estar transitório. O corpo pode estar suplementado, mas o coração fechado à fraternidade espalhará sofrimento. Como no budismo tibetano, a vida ganha nova roupagem quando as nossas decisões buscam o bem do Todo e não o indivíduo como fim.
A nossa microbiota é a metáfora perfeita desta realidade: uma comunidade de microrganismos que cooperam, comunicam e sustentam-se mutuamente. Quando este ecossistema é diverso e equilibrado, o ser inteiro floresce. Quando empobrece, o ser adoece e espalha centelha de sofrimento para toda uma comunidade, constituída por familiares, amigos e consciência coletiva.















