Muitos alunos chegam nas minhas aulas de cerâmica se dizendo muito pouco criativos, com um pouco de dificuldade ao pensar no que querem fazer naquela aula. A liberdade de criação assusta muitos eles e eu acredito que seja porque existe uma ideia muito equivocada de que criatividade é um dom reservado a artistas, designers, publicitários ou pessoas “naturalmente criativas”. Como se fosse uma característica inata, quase um talento místico que algumas pessoas recebem ao nascer e outras não.

Mas, na prática, criatividade tem muito menos a ver com talento e muito mais a ver com repertório, treino e, principalmente, permissão. Permissão para pensar diferente, para testar, para errar. Permissão para não saber exatamente onde vai chegar.

E isso diz respeito a absolutamente qualquer pessoa — tanto em contextos pessoais quanto em contextos profissionais.

Ser criativo não é saber desenhar bem, nem ter ideias mirabolantes o tempo todo. Criatividade é saber encontrar caminhos novos para questões antigas. É olhar para um problema comum e enxergar soluções menos óbvias. É conseguir conectar pontos que, à primeira vista, não parecem ter relação nenhuma. E essa capacidade não nasce pronta. Ela é cultivada.

Ao longo dos últimos anos, fui percebendo algumas práticas muito simples que me ajudam a manter a criatividade viva no dia a dia e aqui nesse texto vou compartilhar algumas delas com vocês. São práticas que não exigem talento artístico, nem tempo sobrando, nem um cenário ideal. Exigem apenas intenção e constância.

O poder de organizar o caos interno

A primeira delas tem inspiração no livro O Caminho do Artista, de Julia Cameron, que sugere a prática das “páginas matinais”, que consiste em escrever três páginas, todas as manhãs, colocando no papel qualquer pensamento que esteja na cabeça, sem filtro, sem edição, sem julgamento.

Essa proposta do livro é disciplinada: três páginas, todos os dias, logo ao acordar, mas eu adaptei essa prática à minha realidade.

Não escrevo três páginas todas as manhãs, nem coloco essa obrigação sobre mim. Escrevo diários há muitos anos e quando descobri essa prática que Julia Cameron descreve no livro, entendi claramente por que me sentia tão bem com essa prática. Tentei adaptar e fazer exatamente como ela ensina no livro, porém depois de um tempo me frustrando, resolvi seguir fazendo do meu jeito, mas com uma nova forma de pensar, escrevendo de maneira mais intencional.

Tenho um caderno que virou meu espaço de despejo mental. Um lugar onde escrevo quando sinto que os pensamentos estão embolados, quando preciso desabafar, organizar ideias ou simplesmente colocar para fora coisas para as quais ainda não encontrei caminho.

Esse caderno não é bonito, não é organizado e definitivamente não foi feito para ser lido por ninguém além de mim. E talvez seja exatamente por isso que ele funciona tão bem porque ali, não existe autocensura. Não existe preocupação com forma, coerência ou conclusão. Existe apenas fluxo.

E é curioso como, muitas vezes, no meio desse “descarrego”, surgem conexões, soluções e ideias que não apareceriam se tudo continuasse apenas girando dentro da cabeça. Pensamentos que pareciam confusos começam a se organizar quando ganham forma no papel. Porque a criatividade também nasce quando a gente tira os pensamentos do campo abstrato e dá forma a eles.

Novas referências, novas ideias

Outra prática fundamental é buscar referências diferentes. E aqui não estou falando apenas de buscar referências dentro da sua área. Pelo contrário.

É muito fácil consumir sempre o mesmo tipo de conteúdo, ouvir as mesmas opiniões, seguir as mesmas pessoas e reforçar as mesmas visões de mundo. Isso cria uma espécie de bolha criativa onde tudo começa a parecer igual. As ideias se repetem, os argumentos se repetem, as soluções se repetem. No mundo de algoritmos em que vivemos, isso se torna ainda mais real. E quando isso acontece, a criatividade não desaparece — ela fica limitada.

Buscar referências opostas ao que você pensa, conhecer visões de mundo diferentes da sua, estudar assuntos que não têm relação direta com o seu trabalho — tudo isso amplia muito mais o seu repertório, que é matéria-prima da criatividade.

Como ceramista, por exemplo, muitas vezes me inspiro em peças de vidro para pensar formas na cerâmica. A transparência do vidro me faz refletir sobre a espessura. O acabamento polido me provoca a buscar novas texturas no barro. Já me peguei observando a trama de um tecido para imaginar uma superfície diferente numa peça. Ou analisando a forma como a luz entra em um ambiente para pensar no formato de um objeto utilitário.

Um arquiteto pode buscar ideias na natureza. Um cozinheiro pode se inspirar na pintura para montar um prato. Um gestor pode aprender sobre liderança observando as dinâmicas de um grupo artístico. Um professor pode encontrar soluções pedagógicas estudando jogos ou esportes.

Quando misturamos universos, novas possibilidades aparecem. Criatividade, muitas vezes, é apenas a capacidade de fazer boas misturas.

O valor das tentativas imperfeitas

Por fim, talvez o ponto mais importante: exercitar errando, sem medo.

Todo processo criativo é, por definição, imperfeito. Ele passa por tentativas ruins, ideias que não funcionam, caminhos que precisam ser abandonados no meio. Passa por frustrações, ajustes, recomeços. Mas se o medo de errar for maior do que a vontade de testar, a criatividade simplesmente trava.

Porque a criatividade não nasce do acerto. Ela nasce da experimentação. É testando que descobrimos novas soluções. É errando que enxergamos novas perguntas. É insistindo que começamos a perceber padrões e possibilidades que antes não estavam visíveis.

Esse talvez seja um dos maiores bloqueios criativos da vida adulta: a dificuldade de aceitar a imperfeição do processo. A necessidade constante de fazer algo já bem feito na primeira tentativa. A ideia de que errar é perda de tempo - quando, na verdade, errar faz parte do caminho para encontrar algo realmente novo.

Ser mais criativo, no fim das contas, tem muito menos a ver com “ter boas ideias” e muito mais com criar as condições para que elas apareçam. E isso passa por escrever, observar, misturar referências e, principalmente, permitir-se tentar sem a obrigação de acertar.

A criatividade é uma habilidade que vai se tornar cada vez mais valiosa em um mundo onde a Inteligência artificial assume tarefas técnicas, operacionais e previsíveis com uma eficiência impressionante. Quanto mais previsível for uma tarefa, mais fácil vai ser automatizá-la. Quanto mais padronizado for um raciocínio, mais simples será replicá-lo por meio de tecnologia.

O que continuará sendo profundamente humano — e impossível de automatizar — é a capacidade de conectar pontos improváveis, criar relações novas, enxergar caminhos onde antes parecia não haver nenhum. É a capacidade de imaginar.

Ou seja: ser criativo não é um luxo artístico. É uma habilidade essencial para o futuro, e a boa notícia é que ela não depende de talento especial. Depende da prática cotidiana. De pequenos hábitos. De pequenas permissões.

Depende de ter um caderno onde você pode pensar sem filtro.

Depende de olhar para fora da sua bolha.

Depende de aceitar que boas ideias quase sempre nascem depois de várias tentativas ruins.

E isso está ao alcance de qualquer pessoa disposta a se permitir pensar, observar e tentar de um jeito um pouco menos automático.

Talvez, no fim das contas, ser criativo seja apenas isso: viver de forma um pouco menos no piloto automático e um pouco mais em estado de curiosidade.