O que você vê quando olha para trás? Hoje pela manhã, enquanto eu passeava com o Bono – meu amigo de 4 patas – notei que nós estávamos atraindo alguns olhares, uns mais discretos e outros nem tanto. De início não dei muita trela, pois existe de fato uma certa fofura em passear com animais; mas logo depois comecei a perceber que algumas pessoas se cutucavam e cochichavam quando da nossa passagem. Fiquei curioso e não nego, mas não demonstrei, apenas perguntava ao meu companheiro… Bono, o que estamos fazendo de errado? Talvez estejam se perguntando quem está levando quem para passear, dado que meu amigo não para nem por um segundo, do começo ao fim do passeio. Passados cerca de 30 minutos, voltamos para casa e, antes de entrarmos, me deparo com a vizinha que manda o seguinte: cuidado para não pegarem uma gripe andando debaixo desta chuva… Bingo!
Mas foi exatamente a chuva a razão especial que nos levou à rua para o nosso breve passeio, descalços e com sabor de infância. Agora entendo os outros se acotovelando no café da esquina e murmurando enquanto passávamos; e os olhares indagadores de alguns transeuntes, definitivamente, estava claro que eles mataram a criança que outrora os habitava e dava fôlego à vida.
Lembro que momentos antes de sair, eu falei ao meu fiel: agora vamos ao Recife, e vamos rever as ruas de terra batida; vamos tomar banho de bica e pisar na lama, também muito mais que tudo isto, voltaremos à mais doce infância. Onde tudo era puro, sincero e eterno; onde certamente reside a verdadeira arte de viver. Naquela fase, nós tínhamos o mundo aos nossos pés, sim, literalmente aos nossos pés. Era incrível como tudo e qualquer coisa poderia se tornar em motivo de alegria, era cultural ter todo e qualquer motivo para tudo virar brincadeira de criança.
Não havia diversão de menino ou de menina, muito menos pudor quanto aos banhos de rio, tampouco separação por causa disto ou daquilo, éramos simplesmente um com todos e pronto. Dentre tantas brincadeiras possíveis, o corre-corre na chuva com os pés despidos me parece a que mais aquece e conforta a alma, é claro que tínhamos muito mais; tipo empinar papagaio, que era algo extremamente lúdico desde o fabrico ensinado por nossos pais, até as disputas com os colegas da rua e depois sair em desabalada carreira para recuperar as peças quando um era derrubado pelo outro, o que valia até mesmo invadir os quintais alheios para tentar recuperar as peças e, de passagem, aproveitar para colher algumas mangas, carambolas, tamarindos; eu disse colher; quem nunca ouviu? Menino, eu vou dizer a sua mãe, eu sei onde você mora e sei onde fica o Bar Do Bigode… Neste momento as pernas tremiam, a alma saía do corpo, e as canelas eram untadas de sebo para fugir dos insultos e de algum cachorro que às vezes fazia a vigilância da área invadida, mas de que adiantaria tudo isto se não tivesse um sabor de aventura, não é mesmo?
Isto sem falar nas outras tantas maravilhas que permeiam esta fase tão importante – e eterna, ao menos para alguns – da vida, o curioso é que havia época para determinadas brincadeiras; os papagaios do mês de agosto até o fim do verão, o consumo dos filhós e as brincadeiras de atirar ovos com farinha ou talco nos outros, assim como o molha-molha no reinado de Momo; e ainda havia as bolas de gude, os peões de madeira, a queimada, dentre uma infinidade de coisas que fazem parte da arte de se praticar a verdadeira cultura da infância, e que vez por outra, principalmente em dias chuvosos, a minha criança interior me olha e diz; vamos brincar?
Enquanto traduzo estas recordações em palavras, tenho agora os olhos rasos d`água, e lembro que um dia eu e os meus amigos saímos para brincar pela última vez e nem sequer nos demos conta disso, ou será que ainda estamos lá brincando uma brincadeira que nunca cessou? Eu só preciso fechar os olhos, e posso ver tudo o que ainda somos.
Não tenho como negar que me parte o coração ver que hoje em dia muito daquilo que vivemos foi simplesmente substituído por um pedaço de metal, plástico e minerais raros (estes últimos ainda serão motivo de guerras [sic], a pura deserção das crianças); outro dia vi numa postagem uma criança num parque de diversões, e ela estava sentada em um dos tantos brinquedos à disposição, mas não brincava, ou brincava; com o rosto completamente enterrado no aparelho que deveria nos conectar, mas que na verdade nos afastou, a prova é que bem ao lado do brinquedo, os pais da criança também estão enterrados no aparelho. Sem brilho, sem futuro, sem criança.
Por mim, tudo poderia ter parado ali no dia do quebra panela, da corrida no saco; no dia 27 de Setembro, dia dos Ibejis, estes que representam a alegria, pureza e a força da infância, sendo esta a melhor fase da vida. Uma fase onde a principal arte é cultuar a vida na sua mais poderosa e singela forma; na minha infância não havia guerra, não havia separação, tampouco dor, e parafraseando Gal Costa, eu lembro que na minha fase mais tenra, havia sim trincheiras mas elas eram de alegria e lá a única coisa que explodia era o amor.
Como eu disse mais acima; tudo poderia ter parado ali, mas pensando bem, tudo parou e fechando os olhos eu vejo que lá ainda estamos; Eduardo, Fábio, Juliana, Dudu, Dalmo, eu…
Hoje temos um belo dia de sol, e um grupo pula corda no meio da rua, logo mais à frente outros brincam de academia, e nos becos e vielas mais uma turma brinca de esconde-esconde; eis que eu sou mais rápido que o contador e chego com um “batida salve todos”; agora você vai ter de contar de novo. De repente uma buzina, o motorista reduz a velocidade enquanto damos uma ligeira pausa para ele passar; mas ele para, é o meu avô, ele nos entrega um saco de confeitos, jujubas e pirulitos, o qual dividimos entre nós e, em seguida, voltamos às estrepolias, sem nunca deixar que adormeça a nossa criança.
Caro leitor, que não deixe apagar a chama, a pureza, o brilho, é fato que o avanço das horas nos traz responsabilidades, como, por exemplo, cuidar das crianças; e cuidar delas é um ato de amor também consigo mesmo e com a sua criança interior, agora, se um dia você presenciar uma cena como a descrita no início do texto, feche os olhos, respire fundo e faça parte, você ainda pode voltar.















