Muito se fala que o oposto do amor é o ódio. Mas, segundo a psicologia analítica de Carl Gustav Jung, essa relação é mais complexa do que parece. Jung sugere que, na verdade, o verdadeiro antagonista do amor é o desejo de poder. Quando o amor está presente, a vontade de dominar desaparece; e quando o poder assume o controle, o espaço para o amor se esvai. Como sombras que se alternam, amor e poder se desafiam em silêncio.
A célebre reflexão de Jung, registrada no Volume 7/1 de sua obra, ainda provoca surpresa e desconforto, já que estamos acostumados a pensar que o ódio é o grande inimigo do amor. Jung, porém, nos convida a ir além do senso comum e a mergulhar nos fundamentos mais profundos da alma humana, propondo uma nova perspectiva sobre o que realmente separa ou aproxima esses dois polos tão presentes nas nossas vidas.
Para entender melhor as diferenças entre amor e paixão, segundo a psicologia analítica, é importante perceber que o amor pode aparecer de formas diferentes. Imagine o amor dividido em quatro tipos: porneia é aquele amor mais egoísta, voltado para os próprios sentimentos; eros é o amor de casal, com desejo e envolvimento; philia é o carinho e a amizade entre pessoas; e ágape é o amor generoso, que pensa mais no outro do que em si mesmo. Quando Jung fala que amor e poder são opostos, ele também coloca a porneia (egoísmo) de um lado e o ágape (generosidade) do outro. Já a paixão, por ser mais voltada para si e para o próprio desejo, está mais próxima da porneia do que do ágape. Ou seja, quando estamos apaixonados, muitas vezes enxergamos o outro como alguém que vai realizar as nossas próprias vontades e sonhos, sem perceber que ele também tem seus próprios sentimentos e desejos.
O estado de apaixonamento consiste, portanto, num desejo voltado para si mesmo, que é projetado sobre outra pessoa, tornando o outro uma extensão dos próprios anseios e idealizações.
Paixão tem origem no termo grego páthos, que significa afecção ou doença, e no latim passio, associado ao sofrimento passivo. Essa força arquetípica é retratada em mitos e na literatura, como We, de Johnson (1987), e Eros e Psiquê, de Neumann (2017), sendo frequentemente vista como um “excesso de amor” capaz de transformar vidas. Entretanto, sob a ótica da psicologia analítica, a paixão representa um estágio inicial, intenso e muitas vezes desestabilizador, que pode — mas nem sempre consegue — evoluir para formas mais maduras e conscientes de amar.
Jung dizia que todos nós temos agrupamentos de sentimentos muito fortes dentro de nós, chamados complexos, que são como “núcleos” emocionais universais. Quando um desses complexos do nosso inconsciente ganha força, ele chega à nossa consciência e passa a influenciar nossas atitudes — é o que Jung chama de “complexo constelado”. A paixão, segundo ele, é um desses momentos: quando estamos apaixonados, ficamos tão envolvidos por esse sentimento que deixamos de lado outros interesses e até mudamos temporariamente quem somos.
No estado de apaixonamento, o indivíduo é incapaz de relativizar ou ponderar, pois a lógica dominante é a do complexo, não do ego. Johnson (1987) alerta para a transitoriedade da paixão: ela acaba, e é nesse momento que se revela o outro tal como é, destituído das projeções do complexo. Muitos relacionamentos terminam nesse ponto, com a falsa ideia de que “o amor acabou”.
Amor é uma escolha, uma atitude. Amar é uma decisão que tomamos na vida, não é um sentimento, é dedicação. Diferentemente da paixão, o amor é uma escolha consciente, enquanto a paixão é um fenômeno impetuoso da psique. O amor exige esforço, compromisso e responsabilidade; é preciso querer amar e renovar esse compromisso diariamente, mesmo diante das dificuldades e das imperfeições do outro. Escolher viver o amor significa abrir mão de expectativas fantasiosas e investir numa construção conjunta, onde o respeito, a empatia e a entrega voluntária prevalecem sobre o mero desejo. Preferimos o entorpecimento da paixão, como Tristão ao tomar a poção ou Eros ferido por sua flecha — exemplos que ilustram como paixão e veneno são próximos na mitologia.
A paixão exerce grande influência nas relações humanas porque, ao nos apaixonarmos, tendemos a focar principalmente em nossos próprios desejos e necessidades. Esse sentimento faz com que, muitas vezes de forma inconsciente, tentemos controlar ou conduzir o comportamento do outro para que ele atenda às nossas expectativas, como se fosse uma extensão de nós mesmos. Viveret (2013) observa que esse tipo de postura cria conflitos nos relacionamentos, pois está ligada ao amor egoísta (porneia), onde não existe aceitação verdadeira da individualidade do outro; vemos o parceiro como “nossa propriedade”, “nossa metade” ou “nossa posse”.
Esse comportamento não fica restrito às relações amorosas: ele aparece também no trabalho, na família e nas amizades, sempre que insistimos para que tudo seja do nosso jeito. Quando estamos tomados pelo desejo de poder, deixamos de reconhecer e respeitar o outro como um indivíduo completo, ignorando assim o ideal de totalidade que Jung chama de Self.
O amor versus poder: seria esta realmente uma oposição necessária? Segundo Jung, o amor se coloca como oposto ao poder, pois enquanto o amor implica entrega e acolhimento do outro, o poder está ligado ao controle e à afirmação do ego. Quando o ego se torna excessivo, ocorre uma negação do Self, afastando-nos do nosso potencial de totalidade. O ódio, nesse contexto, surge como uma projeção sombria do desejo de possuir, representando a frustração de fantasias não correspondidas pela paixão. É importante reconhecer que o estado de apaixonamento faz parte do processo de amadurecimento do ego, sendo uma experiência comum e inevitável ao longo da vida, que nos desafia a refletir sobre nossos próprios limites e expectativas.
No processo de crescimento, é fundamental reconhecer que paixão anda lado a lado com poder. Ela surge para que possamos conscientemente lidar com nosso desejo de poder, construindo relações mais horizontais e altruístas, sem abandonar o próprio Self. Como na mitologia, Harmonia é filha de Afrodite (amor) e Ares (guerra/poder), sugerindo que o equilíbrio entre amor e poder é o caminho para relações maduras.
Na passagem bíblica, Jesus é tentado pelo diabo a possuir todos os reinos do mundo. Ele não nega o desejo de poder, mas o transforma em caminho para doar amor. Assim, a psicologia analítica nos ensina que reconhecer e integrar a paixão e o poder pode levar à harmonia interior e ao amadurecimento das relações humanas.
Por fim, apaixonar-se é parte do desenvolvimento psíquico, mas é preciso saber que, para além do encantamento, a verdadeira evolução reside na escolha consciente pelo amor, na aceitação do outro e no equilíbrio entre desejar e doar. O verdadeiro amor transcende o desejo de poder, transformando-o em força criadora capaz de promover crescimento mútuo. Quando somos capazes de integrar paixão e poder, escolhemos não a dominação, mas a construção conjunta, onde ambos crescem sem que um precise diminuir o outro.
O impacto dessa integração é profundo: o amor, aliado à consciência do poder, deixa de ser apenas um sentimento ou uma necessidade de posse. Ele se torna um ato revolucionário e maduro, que desafia o egoísmo para abrir espaço à generosidade, à entrega e à evolução pessoal. Nesse sentido, o maior poder está em amar de forma livre, honesta e recíproca, reconhecendo tanto nossas vulnerabilidades quanto nosso potencial de transformação. Assim, o amor não é submissão nem conquista; é escolha diária de liberdade, respeito e crescimento — a verdadeira vitória do espírito sobre os impulsos que nos separam do outro e de nós mesmos.















