Se eu vos contasse o estado lastimável em que se encontra a criatividade da Maria, talvez fôssemos todos obrigados a admitir que as rédeas curtas com que conduzimos a vida estão a asfixiar a nossa capacidade de imaginar. As normas que cumprimos cegamente, a obediência crónica e a nossa profunda desconexão do mundo real explicam, em grande parte, o deserto de ideias com que nos deparamos todas as manhãs. Sonhamos com grandezas que nunca concretizamos, soterrados debaixo do peso das obrigações. Culpa da criatividade ou da absoluta falta dela?

Diria, talvez, que é apenas a vida a acontecer e as obrigações a ocupar demasiado lugar.

A isto soma-se a ditadura contemporânea do “conteúdo de valor”. Exige-se que a Maria consuma apenas o que é formativo, esclarecedor e estritamente útil. O fútil foi criminalizado.

Talvez até perda de tempo, quiçá.

O problema é que, no meio de tanta utilidade, a Maria simplesmente bloqueia. E talvez fosse sensato resolvermos este bloqueio depressa, até porque os profetas modernos do mercado de trabalho garantem, em tom de ameaça, que, no futuro, “só os criativos terão emprego”.

É aqui que entra o Crazy 8. Para quem nunca ouviu falar e, bem resumidamente, trata-se de uma técnica de design que parece não ter nada a ver com a vida real, mas que, ironicamente, esconde o antídoto para a nossa inércia.

Se, em vez de se lamentar perante a folha em branco, a Maria aplicasse esta técnica, a sua vida ganharia imediatamente outro ritmo. Teria exatamente oito minutos para arranjar oito ideias para o seu dia.

Não importa se boas ou más. Importa escrever.

Sessenta segundos para cada rasgo de intuição brilhante ou de absoluta mediocridade. Sem tempo para embelezar a caligrafia, repensar soluções ou alimentar os seus dramas de estimação. Seria apenas aquilo: ação no seu estado mais puro e selvagem.

Quase como voltar a ser um “animal”.

A premissa desta técnica tem uma crueza quase poética. Foi concebida cirurgicamente para aniquilar o inimigo mais silencioso e letal da Maria — e, infelizmente, de todos nós —, fala-vos do excesso de pensamento.

O design apresenta-se aqui como a solução óbvia, quase matemática, para a estagnação em que todos teimamos em afundar-nos. Aquela estagnação manhosa que faz a Maria jurar a pés juntos que teve uma ideia genial, quando, na verdade, produziu apenas uma fotocópia barata daquilo que já toda a gente colocou em cima da mesa.

Mas a culpa não é dela, é do que nos tornamos. Máquinas.

O problema, lá está, reside na arquitetura da máquina. O cérebro da Maria não traz um cronómetro integrado de fábrica. É um mecanismo denso, perigosamente viciado na autossabotagem, com demasiado tempo livre para desconstruir aquilo que deveria ser assustadoramente simples.

A verdadeira tragédia da condição humana moderna é esta vocação inesgotável para o isolamento. A Maria encapsula-se na sua caixa hermética de “e se...” e “Ora, talvez...”, trancando a porta à espontaneidade e, por arrasto, à capacidade de criar. Tem um pavor paralisante de sujar a folha em branco.

Não julguemos, somos iguais.

Esquecemo-nos, coitados de nós, de que essa folha imaculada é apenas o reflexo bem polido das nossas próprias cobardias.

Contudo, alguém devia explicar à Maria que a vida não é um drama denso e complexo, digno de um romance russo; é apenas um jogo. Um cenário perfeitamente renderizado a que chamamos Terra, composto por fases e níveis de dificuldade variável. Na teoria, só temos que aprender a passar de nível.

A mecânica da criatividade não exige perfeição; exige a pura e dura tentativa e erro. Falhamos porque tentamos e só aprendemos falhando.

Vivemos asfixiados pela pressão constante de um idealismo que não nos deixa errar em paz, e a Maria é a personificação disso mesmo. Fechar-se sobre si própria tornou-se o seu mecanismo de defesa padrão, sufocando o pensamento livre debaixo da pesada e enfadonha manta daquilo que é suposto ser “normal”.

Afinal, quem ditou essas regras?

Só perdemos verdadeiramente quando levamos a vida a extremos de seriedade e nos esquecemos da nobre arte de improvisar.

Se a vida exigisse à Maria a urgência de um Crazy 8, ela seria incansavelmente dinâmica em oito curtos minutos. Teria o luxo das opções, nascidas precisamente da maravilhosa falta de tempo para as pensar em demasia. Como o universo não lhe concede este limite para forçar a espontaneidade, aplicar a regra por conta própria seria o maior presente que ela poderia dar a si mesma. Acabavam-se os bloqueios, as desculpas e os atrasos existenciais.

E o melhor de tudo?

É que a Maria poderia finalmente deixar as suas ideias saírem à rua, nuas e cruas, sem a deprimente previsão de que são péssimas antes sequer de verem a luz do dia. Afinal, no Crazy 8 que é a vida, ouvimos e não julgamos. Avançamos.