Será que a vida que cultivamos diariamente é o nosso verdadeiro remédio? E que os alimentos escolhidos, as conversas que permitimos trocar, o tempo e a qualidade do sono são os componentes da nossa farmácia silenciosa?
Praticar essa abordagem nos afasta da pressa e nos conecta com o território chamado corpo, uma vestimenta que nos acompanha nesta dinâmica lida como vida, onde segundo T. Low Dog, “cada escolha é uma dose de cura ou veneno”.
Pensar sobre a vida é lembrar de cuidado. Quando nascemos fomos cuidados por alguém que nutria e sustentava a rotina de um ser indefeso e por isso não descontinuamos.
O amor, traduzido em cuidado, foi a referência para alguém que cuidou de nós. Não um amor alusivo, um amor abstrato ou romântico, mas uma atenção genuína que garantiu a nossa sobrevivência.
Estas sequências de gestos simples, como a proteção do sono, a entrega do alimento, o cuidado com a higiene e todas as gentilezas que uma vida humana no seu início necessita, no decorrer dos anos, são gradualmente colocadas sob a nossa responsabilidade.
No entanto, ao crescer, o óbvio cai no esquecimento, começamos a resistir e a criar empecilhos para a simplicidade manifestar.
Deixamos de comer o mais adequado para o nosso ritmo biológico, de descansar sem culpa, de falar o que nos incomoda e tratamos a saúde como algo que pode ser comprado em espaços que denominamos farmácia.
A mercadoria da saúde embalada em frascos, prescrições de outrem e artigos preditos pelo consumo é o que faz sentido e não questionamos.
Mas, e se a verdade fosse outra? Se o wifi do nosso corpo físico fosse uma bússola que denuncia o mundo que nos adoce?
De fato, a vida que cultivamos é o fármaco que adotamos. Seja o alimento, as companhias, os pensamentos, os exercícios, as crenças, o tempo de sono, as experiências que permitimos vivenciar, este “combo” eclode na nossa vitalidade ou cansaço, clareza ou confusão mental.
Talvez a doença do século seja esse pensamento: resumimo-nos a um corpo e não reconhecemos que as nossas escolhas ecoam no tecido invisível da coletividade. Esta separação edifica as bases da resistência, criam muralhas que destroem não só a imunidade do corpo, mas também danificam a esperança.
O medo de questionar estas premissas, o apego ao prazer imediato, o vício moderno da pressa, as máscaras sociais, as distrações anestesiantes, as auto medicações e a negação de olhar para dentro e encarar as sombras perpetuam esta consciência.
E como não somos apartados do meio, contaminamos o Todo. Segundo tradições antigas, a enfermidade social é manifesta na separação, no egoísmo. A saúde que não transborda para o social é um bem-estar transitório, onde o corpo pode até estar suplementado, mas o coração doente, devido à falta da fraternidade, vai espalhar sofrimento.
Mas, como dialogar estes dois mundos paralelos e complementares? Corpo e alma coletiva? Descanso, movimento e nutrição com sentido de vida, valores e propósitos?
Fugir da abstração da alma e do hedonismo do corpo e estabelecer uma ponte de vida consciente entre cuidado pessoal e o serviço ao próximo. É o mesmo que nutrir o corpo, ou sentir a clareza de uma noite bem dormida e desta forma ser empático e fomentar a partilha.
Pequenas escolhas em modo consciente é um caminho. Avaliar as nossas motivações, sem filtros, podem mapear onde estamos. Ter um sentido de vida e checar diariamente se estamos a nos aproximar deste norte ou a não. Caso ocorra um retrocesso, pesquisar o que há de tão atraente no vício.
Quando descansamos regeneramos a vitalidade ou escondemos uma fuga? Temos valores reais ou um adorno social? O nosso trabalho serve para suprir as nossas necessidades pessoais e a nossa prática deixa um exemplo positivo?
A vida pede equilíbrio e viver com consciência é unir o visível, a matéria e com o invisível, onde a busca da saúde é ética e o encontro com a consciência seja uma prática. Não estamos a especular uma receita única e pronta e sim um espelho que transmite o incomodo da realidade e mostra a necessidade de ajustes.
Ao assumirmos o protagonismo da nossa saúde individual e coletiva, fica evidente que não existe como viver bem, se separamos o porquê viver bem. As relações e valores, senso de propósito, cuidado com o corpo e a mente, caminham juntos.
Como no budismo tibetano, a vida ganha uma nova roupagem quando as nossas decisões buscam o bem do Todo e não o individuo como fim. O cuidado que o nosso corpo necessitou na nossa chegada a este plano e alguém, por mais distraído que fosse, entregou, foi uma dádiva para estarmos aqui agora.
Não se trata do julgar o que fez e como fez, é perceber que agora somos nós que fazemos. Quando resistimos, permanecemos inertes e negligenciamos a vida com propósito, escolhemos o desequilíbrio e renunciamos a coletividade como expansão.
O indivíduo biológico e o coletivo consciente são partes da mesma moeda. Integrar estes dois polos pode ser um manual prático de um remédio invisível que cuida do corpo e resgata a cura e consciência universal.















