Quando se começa um recomeço? Quando o recomeço é um novo começo!
O recomeço como conceito de vida, de propósitos, de novos lugares e ares. De novos afazeres, olhares, pensamentos e ações.
A vida recomeça quando há o poder da ação, o movimento emana contornos que nos poderão ser úteis, afáveis e acolher nosso próximo passo.
Os recomeços ocorrem quando não há mais espaço, diálogo, aventura, comprometimento, confiança, aprendizado, quando o ar falta ou quando fica insustentável conviver com alguma dinâmica, rotina, lugar ou estilo. Quando o que se vive tira a paz e traz doenças, mesmo assim é possível sonegar essa informação até que de alguma forma aconteça algum tipo de expulsão, como um furúnculo que se rompe, de tão vermelho, dolorido e inflamado que está. Ao se romper e ser expurgado para fora, toda dor vai junto, só restando o poder da cicatrização.
Recomeços são constantes, grandes, pequenos ou imensos. A cada dia precisamos ajustar, mudar de rota ou ressignificar alguma coisa. Estranho é a forma como isso se dá, pois muitas vezes a dor anuncia a necessidade de novos inícios, pois sim recomeçar é sobre isso!
Em outros momentos o sentimento é até de leveza, de caminho que segue, que está tudo bem, que a vida flui na direção correta, porém instantaneamente tudo se quebra, e outra realidade atravessa o percurso.
Mesmo que não se tenha autorizado, ou mais forte que a consciência do momento, os indivíduos são levados a intuir que alguns sinais apontam para novos processos, ainda que não haja tempo suficiente para o aprendizado sobre o novo.
O incômodo é o primeiro passo, recheado de conflito, gastura, aflições, doenças e mecanicidade. Um tempo de escuridão onde não há entendimento do que é, só se sente algo terrível que abate a alma, que cai numa queda livre, se despedaçando pelos barrancos. A consciência vem depois ou muito depois com reflexões de toda ordem filosófica, sociológica, antropológica, cultural, moral, estética e até mesmo religiosa, e até que tenhamos a ação, pode levar um bom tempo.
É nesse intervalo entre o que se identifica do processo que se anuncia até que tudo tome outro caminho, que surgem a ansiedade, as dúvidas, as não permissões, a visão turva e os sentimentos contraditórios. Chega um momento em que não há o controle do que vai ser, e cada um deverá buscar o controle daquilo que é presente e se constitui de forma concreta diante de si, até que novas realidades se materializem.
Raro não haver nuvens ou decisões sem temores, mas ir em frente é preciso. Gosto dessa palavra “precisão” de precisar por necessidade e de ser preciso no sentido do acerto, da linha reta, do caminho seguro.
A ação é outro capítulo, que acontece aos empurrões onde não há outro jeito e a nova realidade se presenta, ou ainda é insistentemente pensada, ensaiada, cronometrada, e muitas vezes adiada.
Nem sempre os recomeços são tão bem administrados, há de se levar um tempo para conquistar o status de velho conhecido. A intimidade com um recomeço exige alguma trajetória, ferramentas, informação, caminhadas pequenas e silenciosas, realinhamento de expectativas e muitas vezes esperas mais longas do que se imagina. Nem tudo acontece de um dia para o outro, há longas esperas, paciência com o processo. Nesse sentido as viagens mais curtas são enganosas, simulam mudanças rasas e pouco consistentes.
Mesmo com todo esse ferramental, o indivíduo pode não ter aprendido, e seguir por uma nova trilha carregado de repetições, correntes, fantasmas e sobretudo afagando um ego sombreado e frágil, arrogante e ignorante sem uma visão lúcida e inquietante que o fará possuidor de elementos para de fato novas conquistas.
Recomeçar pressupõe zerar o relógio e ganhar sobrevida para novos aprendizados. Não que se negue o que já foi vivido, o que já se tornou conhecimento e todo legado, entretanto recomeços tem a ver com chances, com oportunidades para algum tipo de evolução, e com milagres. Talvez a sorte do lugar certo, na hora certa com a situação, espaço ou pessoa que ali deveria estar, para que o encontro acontecesse. Destino? Não, mesmo!
Finitudes proporcionam ao indivíduo urgências antes desconhecidas, ou que não estavam no campo da prioridade, e isso significa escolher a forma de como se dará o próximo passo. Para onde ir e o que se vai fazer. Quais filtros e transformações caberão para a reinvenção de viver a própria história, de forma diferente.
Muitas vezes o indivíduo sabe o que não quer ou por onde não deve transitar, mas o que é de interesse ou desejo pode transitar por muitas possibilidades e uma imensa gama de esquinas. Muitas vezes a escolha é acertada e se reconstrói muita coisa, novos pontos de partida, conquistas e realizações, para outras decisões é desde cedo prenuncio de que logo ali adiante haverá um novo reinício.
E quantos serão enfim os tais recomeços que a vida vai impor? Na verdade, muitos, infinitos e cabe a cada indivíduo protagonizá-lo.
Nos vemos já! já!















