Imagine o seguinte cenário: você está visitando uma cidadezinha no Japão com sua família e, dali, resolve ir para o zoológico. Lá, vê diversos animais — inclusive o Punch, um macaquinho filhote da espécie Macaca fuscata, carregando um orangotango de pelúcia da IKEA de um lado para o outro da sua área de convivência.

Punch foi rejeitado por sua mãe ao nascer, sendo ostracizado por outros animais da espécie (um processo perfeitamente natural e até relativamente comum de ocorrer, principalmente em animais que vivem em cativeiro). Vocês olham para aquela cena com o coração apertado: o macaquinho parece emular uma espécie de sentimentos muito genuínos, algo com que talvez você já tenha tido de lidar no trabalho ou que suas próprias filhas enfrentem na escola. A sensação de não pertencer, de não participar ou de estar “por fora”.

O macaco Punch nasceu em 2025, no zoológico da cidade de Ichikawa. Especialistas atribuíram o abandono a questões multifatoriais: idade, anseios pelo próprio futuro reprodutivo, inexperiência parental, alto estresse. Os tratadores informaram que ele teria nascido durante uma onda de calor (algo que está cada vez mais comum de ocorrer) e que, para a mãe, dedicar muitos cuidados a um filhote com baixas chances de sobrevivência, diante desses fatores ambientais, pode parecer um tiro no escuro. Assim, muitos animais optam por abdicar dos cuidados com os filhotes.

Mesmo natural e acontecendo com certa frequência, a história emocionou muitos outros primatas ao redor do mundo (nós). Punch foi colocado no setor Montanha dos Macacos, no zoológico, com cerca de outros 60 colegas, mas, a princípio, não conseguiu se adaptar bem. Segundo os relatos dos trabalhadores, teve dificuldade de se integrar, estava isolado, distante e ansioso. Mesmo assim, Punch foi perseverante. Para que seus músculos não atrofiassem e que conseguisse melhor desempenho social, os funcionários do zoológico deram a ele um Djungelskog, um orangotango de pelúcia produzido pela IKEA. Foi exatamente a esse brinquedo que Punch se agarrou e se apegou, quase como se ele fosse sua própria mãe.

Arrastava a pelúcia de um lado para o outro como se a própria vida dependesse daquele bicho estofado com algodão. Ainda parecia ansioso e, talvez, deprimido. Mas também demonstrava ver naquele objeto aparentemente inanimado algum tipo de estrutura. O orangotango não era exatamente uma família em si mesmo, mas oferecia familiaridade. Carregava o odor do macaco, além de imitar seu porte físico. E, assim, tornou-se algum tipo de pelúcia de suporte emocional.

Vemos esse macaquinho e nos identificamos, construímos analogias e participamos ativamente de sua narrativa. Eu mesma confesso que, na primeira semana em que vi o assunto surgir, ficava chorando quietinha pelos cantos de casa só de me lembrar. Simpatizei forte e terrivelmente com o filhote: ele dava vida a um tipo de solidão e rejeição muito comum a nós, seus primos primatas. O ponto é: talvez isso aconteça mais vezes do que temos estômago para encarar. Mesmo entre amigos e familiares, consigo imaginar a gente reproduzindo comportamentos semelhantes.

A notícia, de início triste, acabou tendo um final feliz. Em fevereiro de 2026, o zoológico fez postagens online sobre a história, e o caso acabou viralizando. Punch passou a receber muita atenção midiática, além de longas filas de visitantes aguardando para poder vê-lo e apoiá-lo no zoológico. As vendas do Djungelskog foram às alturas, esgotando-se em grande parte das lojas da IKEA. Até o Google adicionou animações para homenagear o macaquinho.

Cerca de um mês depois de ter se tornado um hit na internet, Punch começou a se integrar à Montanha dos Macacos. Continuava sendo alimentado pelos funcionários do zoológico, mas já conseguia lidar com algumas interações cotidianas, como seu asseio diário. Aos poucos, começou a fazer novas amizades e, depois de ser mais bem aceito por outros de sua espécie, logo se viu como parte fundamental do grupo. As notícias mais recentes apontam que ele ainda dorme com seu orangotango de pelúcia, mas que está cada vez mais independente.

A história de Punch é cativante por vários motivos. Um deles é que todos nós podemos nos identificar com o sentimento de nos sentirmos solitários e indesejados em algum lugar. Mas acho que uma das coisas que mais nos impressionam é que ela nos dá esperança e nos faz acreditar. Talvez Punch nos mostre que só fazemos sentido quando em coletivo e, para isso, precisamos construir redes de apoio sólidas e diversas.

Ele se apoiou, claro, em sua “mamãe” orangotango. Mas existia toda uma rede de pessoas motivando e apoiando esse processo: os funcionários do zoológico (que cuidaram dele e o alimentaram, além de fornecerem sua pelúcia favorita, até que pudesse ter mais autonomia), os apoiadores nas mídias sociais e até os outros macacos (bastou um se dispor um pouco mais para que Punch fosse, afinal, incluído).

Se tem algo que aprendi é que podemos, sim, nos apegar às pequenas coisas que nos fazem ter vontade de continuar: nossa música favorita, o próximo episódio de uma série, ter que colocar ração para o pet. Essas são as coisas que, assim como o Djungelskog, nos sustentarão quando nada mais funcionar. Mas, apesar disso, também precisamos de um coletivo: pessoas fazendo arte, atores da saúde mental, professores, médicos. É construindo a nossa sociedade que nos tornamos parte de um coletivo.

Nossas redes de apoio parecem ser o que dá significado à nossa existência no mundo. O sucesso, nesse caso, não veio de um esforço individual, mas sim de uma grande ação coletiva que se recusou a deixar Punch para trás. A trajetória de Punch demonstra que, se um bicho de pelúcia conseguiu ser a chave para conectar um macaquinho solitário ao seu grupo, nós poderíamos fazer muito mais por meio de presença intencional e consciente. Com um pouco de vontade pública, é possível.