Fazia frio naquele dia em Londres. Era 12 de janeiro de 1983. Deu numa quarta-feira. Tudo seguia ordinário. Notadamente na City of London. Lugar de bancos e banqueiros. Tudo rotineiro e normal mesmo. Não fosse uma curiosa cerimônia na Guildhall em favor do Sir Siegmund Warburg (1902-1982).

Uma orquestra alternava melodias de Bach, Mozart e Haendel. Ária, adágio de um Concerto para violão e ária do Water Music. Peças preferidas do homenageado. Morto semanas antes. E que, agora, recebia uma imensa toalha com a pintura do seu rosto na parede principal daquela instituição que ele fundou. Nada menos que o primeiro banco de negócios europeu. Forte e potente. Único. Como seguia a cerimônia.

Tudo ia sensível e harmoniosamente. Emocionante. Um momento à altura do fundador. Apreciado, em memória, pelos olhares atentos de seus familiares. Sua esposa à frente. Logo em seguida, seus filhos. Todos na primeira fileira. Todos taciturnos. Mas inequivocamente muito honrados em seu interior. Visto que a cerimônia – malgrado sóbria, singela e quase simplória – matizava futuros, projetando no infinito a linhagem Warburg. Indicando que, mais que passado – que àquela altura já cumpria séculos –, a família dispunha de devir. Sem dúvidas suntuoso.

A gente do povo talvez desconheça os Warburg. Mas todos sabem que a Alemanha possui uma cidade com esse nome.

A verdadeiramente alta sociedade de qualquer parte do mundo, em contrário, sabe exatamente o que Warburg quer dizer. Um nome. Uma inspiração. Uma reputação multissecular. Muito sinceramente expandida pelos feitos de Siegmund Warburg.

Nascido em 1902, em Seeburg, na Alemanha, ele tornar-se-ia um dos homens mais influentes do século. Banqueiro, homem de ideias, negócios e muitos contatos. Conselheiro de reis e príncipes. Confidente de industriais e artistas. Fiador de políticos. Amigo muito próximo de gente da qualidade de Thomas Mann. Para ficar apenas num.

Mas, como todos, ele precisou de um momento de verdade na vida. E, em seu caso, esse momento foi durante a ascensão do Reich. Quando tomou todos os ricos e contrariou Hitler e os nazistas. Firmando-se como um dos mais destemidos opositores do regime.

Homem de envergadura e sem concessão. Um tipo em extinção. Que ficou sem chão naquele março de 1933. Naquela Berlim apática e condescendente que via a República de Weimar claudicar diante da fúria de Hitler. Foi naqueles dias de 1933. Naqueles 19, 20, 21 e 22 de março. Quando toda a gente de bem e de consciência seguia muito inquieta na Alemanha. O novo regime ia se instalando sem dissimular as intenções. Especialmente o seu ímpeto de exterminar judeus.

Os Warburg eram judeus e Siegmund Warburg sabia das implicações.

E, por tudo isso, seguia inquieto. Sobretudo porque naqueles dias, ele precisaria de ausentar de Berlim, em viagem de negócios para Nova Iorque. Para onde pretendia ir sozinho. Mas, frente às turbas, não lhe parecia seguro ausentar-se e deixar mulher e filhos à mercê da gente de Hitler. Uma gente mesquinha. Que, pouco a pouco, ia lançando o país no desconhecido. Pois, desde a entronização dos novos parlamentares – que Hitler fez questão de desconvidar os socialistas eleitos –, que ocorreu naqueles dias, a brutalização de todas as relações tomou conta de tudo e de todos. Especialmente porque o Reich começou a identificar, caçar, perseguir, cassar pessoas “politicamente suspeitas”. Hostilizando-as. Prendendo-as. Matando-as.

Siegmund Warburg via tudo aquilo com apreensão. Uma apreensão que beirava o temor. Malgrado o seu poder e malgrado a sua influência.

Por tudo isso, ele pediu audiência com o ministro das relações exteriores do regime, Konstantin Freiherr von Neurath, barão de Neurath. Seu amigo de infância. Cujas famílias nutriam relações havia séculos. Frequentando-se. Integrando-se. Namorando e casando entre eles. Fazendo negócios. O que permitia a Siegmund Warburg dirigir-se ao barão com naturalidade, proximidade e intimidade. E vice-e-versa.

Assim, tão logo participado da demanda, o barão anuiu em receber – e receber imediatamente – o seu amigo sem maiores complicações. Mesmo que nos últimos tempos viam-se com menos frequência.

Siegmund Warburg chegou e foi direto ao assunto evocando dois temas: o novo Parlamento e o destino do país.

Sem pestanejar, abordou o caráter nitidamente aleatório, ilegal e imoral das prisões em massa realizadas naqueles dias. Lembrou que a Constituição de Weimar interditava aquele tipo de expediente. E indicou que aquela violação precisaria ser notificada ao presidente Paul von Hindenburg. Que, naquele caso, poderia e deveria utilizar o artigo 19 da Constituição de Weimar para inibir aquelas aberrações e, consequentemente, aquele “monstro” que era Adolf Hitler.

O barão Neurath ouviu tudo pacientemente. Sem interromper nem contrariar. Fazendo entender que Siegmund Warburg tinha em tudo razão. Mas declinou em auxiliar. Explicou ao amigo que era ministro do regime. Que era vigiado e visado por todos os lados. Que corria riscos também. Podendo ser enquadrado como “politicamente suspeito”. Ser hostilizado, destituído, cassado, caçado, preso, deportado e até assassinado.

Siegmund Warburg entendeu as justificações como covardia. E ficou ainda mais irritado quando o seu amigo, agora barão e ministro de Hitler, desejou-lhe friamente “boa sorte” e “adeus”.

Siegmund Warburg internalizou a mensagem. Não esbravejou nem retrucou. Levantou e partiu. Saiu da sala do ministro em silêncio. Sem se despedir. Saiu pensativo. Dispensou a limosine e voltou a pé pra casa. Meditando e murmurando a cada passo, rua e esquina. Com a decisão drástica e decisiva completamente materializada em sua cabeça. Seu destino era partir. Berlim e Alemanha não davam mais.

Chegou rápido em casa e entrou. Tomou a mulher de lado e comunicou. Disse que iriam todos embora. Naquele momento. Naquela manhã. Com os pertences que conseguissem levar. Rumo ao primeiro trem. Para jamais voltar.

Assim se fez.

Arrumaram-se e rumaram para a estação. Tomaram o primeiro trem Estocolmo, capital da Suécia e uma das sedes do banco dos Warburg.

A intenção era ter com Max Warburg. Ancião da família. Primo do pai de Siegmund Warburg. Homem de confiança e conciliador. Dono da última palavra.

Uma vez com ele, Siegmund Warburg reportou a situação de Berlim. A conversa com o ministro. A decisão de partir. “Hitler não passa de um maluco”, disse ele. E disse mais: “esse maluco vai matar todos os judeus”. Max Warburg ouviu pacientemente. Absorto em pensamentos. Como quem lê esfinges. Ao final, reagiu. Tentou acalmar Siegmund Warburg. Disse que a situação não era tão grave. Que Siegmund Warburg estava fora de si. Que tudo era fruição. Que as coisas, agora, que iriam melhorar. Sobretudo porque Hjalmar Schacht, amigo incomum de todos os banqueiros, acabara de ser escolhido para ministro da fazendo do Reich. O que prenunciava dias bons para todos e para os Warburg em todas as partes.

Mas nada disso dissuadiu Siegmund Warburg. Que, agora, novamente, contrariado, levantou-se, mais uma vez, mudo, virou as costas, fechou as portas atrás de si e partiu para Nova Iorque. Foi na primeira embarcação. Despachando mulher e filhos para Londres. Onde foi recuperá-los em seguida.

Foi em Londres que ele viu o mundo desabar.

Ele estava correto. Anteviu tudo. Inclusive a matança de judeus.

Diante de tudo, incorporou-se às forças britânicas para conter Hitler. Auxiliou notadamente nas discussões sobre esforços financeiros de guerra. Em seguida, participou ativamente da construção das instituições de Bretton Woods. Onde conhecia todos e era amigo de todos.

Após a guerra, firmou-se como banqueiro de referência na City of London. Talvez o mais relevante de seu tempo. O único a negociar literalmente com o mundo inteiro, em variados setores. Em seguida, criou o primeiro banco de abrangência europeia.

Morreu em fins de 1982. Naquele janeiro de 1983, recebia as honrarias que sua família, seus empregados e sócios imaginavam que ele merecia. Passou para a posteridade como um homem de influência. Aquele que anteviu a debacle e combateu o Reich.