Normose é a patologia da normalidade. É quando práticas violentas, abusivas e desumanas passam a ser vistas como parte da rotina, como se fossem aceitáveis. É quando a sociedade se acostuma a ver crianças no tráfico, adolescentes na prostituição, jovens espancados pela polícia — e não se indigna. É quando a vulnerabilidade deixa de ser exceção e se torna regra. Essa normose social é sustentada por uma necropolítica cotidiana: a política da morte, que decide quem merece viver e quem pode morrer, quem será protegido e quem será descartado. No Brasil, essa necropolítica se manifesta na omissão diante da infância e da adolescência e na indiferença de profissionais e instituições que deveriam proteger, mas escolhem julgar, punir ou ignorar.
O Estatuto da Criança e do Adolescente afirma que nenhuma criança ou adolescente será objeto de negligência, violência ou exploração. O Código Penal prevê punição para quem abusa, para quem explora, para quem viola. Os Direitos Humanos proclamam a dignidade como valor universal. Mas na prática, esses instrumentos jurídicos são invisibilizados pela normose. A interseccionalidade da violência contra crianças e adolescentes não é linear. Ela se articula em múltiplos eixos: pobreza, gênero, raça, território, uso de drogas, negligência familiar, falha escolar, omissão estatal. É nesse cruzamento de fatores que se produz a vulnerabilidade extrema. Cada relato que trago aqui não é exceção. É cotidiano. É estrutural. É repetido em todos os lugares, todos os dias. E todos os nomes foram trocados para preservar as identidades.
Sete irmãos. Sete crianças. Todos abusados pelo pai, incentivados ao consumo de drogas e álcool, obrigados a relações sexuais entre si, sob o olhar cúmplice da mãe. Quando o Estado descobriu, foram encaminhados aos tios. Mas lá, a história se repetiu. O abuso era estrutural. O pai havia sido abusado. O tio também. E agora, as crianças reproduziam o mesmo comportamento. Uma cena me marcou: um menino de nove anos obrigava uma criança de quatro a praticar ato sexual. Quando questionei, ele respondeu: “Por que você está espantada? Meu pai faz isso, meu tio faz isso, meu avô faz isso.” Para ele, o normal era o abuso. O anormal era eu. Essas crianças pediram socorro por anos. Não foram ouvidas. E quando se tornarem adultos, quem tiver a infelicidade de cruzar seus caminhos será quem pedirá ajuda. Esse caso escancara a naturalização do abuso como prática familiar e a necropolítica que decide que essas crianças não merecem proteção integral.
Benhur conheceu a droga aos oito anos. Cresceu em uma família inteira usuária. Aos quinze, buscou tratamento. Mas a abstinência o levou a se evadir da unidade. Roubou pequenos objetos, trocou em pontos de venda de drogas (biqueira, local de comércio ilegal), foi explorado por traficantes. A Polícia Militar o encontrou vendendo entorpecentes. Espancaram-no. Disseram que, se fosse mais tarde, não seria levado à delegacia, mas ao velório. Benhur foi encaminhado ao CAPS, depois à Santa Casa, e finalmente à Fundação Casa. E eu me pergunto: onde estava o ECA nesse percurso? Onde estavam os Direitos Humanos? Onde estava o Estado que deveria protegê-lo?
Benhur deixou de ser criança. Deixou de ser adolescente. Passou a ser “nóia”, “trombadinha”, “delinquente”. Sua identidade foi apagada. Sua história foi esquecida. Apresento a vocês a identidade/droga ou a identidade/delito. A pessoa deixa de ser João, Mariah, Benhur e passa a ser o maconheiro, o ladrão. Esse caso escancara a aceitação da violência policial contra adolescentes pobres e a necropolítica que decide que a vida de Benhur não importa. Todos os nomes foram trocados.
Mariah convivia com a mãe e o padrasto. Sofreu abuso do padrasto. A mãe, em vez de protegê-la, expulsou-a de casa, indignada com a “traição” da filha. Sem ter para onde ir, Mariah conheceu um homem conhecido na região por “acolher” crianças. Mas todo acolhimento tinha um preço. Na casa dele, as crianças precisavam trabalhar. Podiam vender produtos no sinal, vender drogas ou se prostituir. Para ele, não importava o meio, apenas que o dinheiro chegasse semanalmente às suas mãos. Quando a polícia descobriu o esquema, as crianças que traficavam foram encaminhadas para a Fundação Casa. As que eram obrigadas à prostituição foram para abrigos. As que se prostituíam e usavam drogas foram para tratamento.
Mariah foi uma delas. Saiu apenas com a roupa do corpo. Sem pertences, sem história, sem nada. O mais cruel é que ninguém olhava para a história dela. Ninguém via o abuso, a negligência, a violência. Todos viam apenas uma “menina mulher usuária de drogas”. Mais uma vez, a identidade/droga e a identidade/delito apagavam a identidade humana. Esse caso escancara a naturalização da exploração sexual e da prostituição infantil e a necropolítica que decide que Mariah não merece dignidade. Todos os nomes foram trocados.
Luciana perdeu a mãe aos quatro anos. Foi encaminhada para um abrigo, adotada e devolvida duas vezes. Na última devolução, o Estado descobriu que havia uma questão de violência sexual. Desde então, Luciana carrega uma dor que não encontra espaço para ser acolhida. Essa adolescente tenta por fim à própria vida quase todos os dias, usando fracassadamente todas as técnicas acessíveis para tirar a própria existência. Quando alguém descobre que ela fez isso, sabe o que recebe? Retaliação. Não acolhimento, não cuidado, não empatia. Retaliação. E eu me pergunto: será que essas crianças são ingratas ou será que nunca conheceram gratidão, amor e empatia?
Luciana não é exceção. É o retrato de uma sociedade que devolve crianças como se fossem objetos, que pune a tentativa de superar a dor, que transforma o sofrimento em motivo de julgamento. É o retrato de profissionais que deveriam proteger, mas que escolhem desdenhar. O psicólogo que vê uma crise de ansiedade e diz que é frescura. A assistente social que vê uma tentativa de suicídio e diz que é para se aparecer. A equipe multidisciplinar que não acolhe a história de abandono, abuso e negligência. Os policiais que tratam adolescentes como criminosos antes de tratá-los como seres humanos. O sistema não erra sozinho: são as pessoas que o compõem que falham, que se recusam a enxergar, que perpetuam a violência. Todos os nomes foram trocados.
Esses relatos não são exceções. Eu poderia relatar inúmeras outras situações que mostram que, se o erro é da rede, precisamos lembrar que a rede é composta por pessoas. Quem são essas pessoas? São os psicólogos, os assistentes sociais, os professores, os policiais, os gestores, todos aqueles que falham em acolher, que falham em proteger, que falham em enxergar. A normose nos faz acreditar que é normal ver crianças no tráfico, adolescentes na prostituição, jovens sendo espancados pela polícia.
O que mais me fere é perceber que quem errou com essas crianças nunca será punido. A mãe que negligenciou. O pai que abusou. A escola que ignorou. O psicólogo que desdenhou. A assistente social que julgou. O policial que violentou. Todos erraram. Mas quem paga é o adolescente. Ele é punido porque a mãe errou. Ele é punido porque o pai errou. Ele é punido porque a escola errou. Ele é punido porque o Estado errou. E no fim, o que recebe em troca? Punição. Não acolhimento. Não reparação. Não cuidado.
Quando as pessoas me dizem: “Eu não serviria para esse serviço. Eu não conseguiria.” — isso me atravessa como uma lâmina. Eu não sei como conseguem fingir que isso não acontece, como conseguem dormir sabendo que o futuro do nosso país está sendo enterrado todos os dias. Será que não entenderam que o futuro do Brasil são as crianças? E que estamos perdendo nossas crianças para o tráfico, para a droga, para a prostituição, para o crime? O que mais me revolta é perceber que a sociedade parece ter perdido a alma. Uma criança em situação de rua deveria nos indignar, deveria nos revoltar, deveria nos arrancar o sono. Mas não. Passamos por elas como se fossem invisíveis. Naturalizamos a barbárie. Aceitamos a morte como rotina. E, no fim, morremos na contramão, atrapalhando o tráfego.















