Para produzir seu pão de cada dia, o Brasil precisa de trigo. Ao longo da história, grandes impérios em climas temperados dependeram do trigo para fazer pão e alimentar seus povos. As variedades de trigo utilizadas exigiam uma estação fria para seu ciclo de vida. Elas eram plantadas no outono e germinavam. Permaneciam em estado vegetativo durante o inverno antes de amadurecer no início do verão. O plantio no outono permitia que o trigo utilizasse a umidade do outono e da primavera para a germinação e o crescimento, muitas vezes amadurecendo antes dos verões quentes e secos das zonas mediterrâneas e temperadas. Enquanto o trigo de inverno era essencial para as regiões temperadas, variedades alternativas eram utilizadas de acordo com o clima. Em áreas onde os invernos eram rigorosos demais para a cultura sobreviver, plantava-se o trigo de primavera, que não exigia um período de hibernação. No entanto, o trigo não consegue crescer em climas tropicais. Por isso, o Brasil precisa importar de 6 a 7 milhões de toneladas métricas por ano, principalmente para atender à demanda interna, que excede a produção local. Mais de 65% das importações provêm dos países do Mercosul, principalmente da Argentina.
Assim, os cientistas da Embrapa desenvolveram variedades de trigo que se desenvolvem bem nos trópicos 1-3. Eles mostram que é possível produzir trigo no Ceará. O avanço é resultado do desenvolvimento de variedades adaptadas a climas tropicais. Isso inclui o Cerrado, uma vasta região agrícola que abrange vários estados do Brasil. Ele é o segundo maior bioma da América do Sul e do Brasil, conhecido como a "savana brasileira" e o "berço das águas".
Em algumas regiões, diversas variedades de trigo podem prosperar tanto no cultivo de sequeiro (sem irrigação) quanto no cultivo irrigado. Em geral, o plantio de trigo de sequeiro é possível em regiões com altitudes superiores a 700 metros e em solos com mais de 30% de argila. Isso inclui áreas em altitudes mais baixas nos estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais. O cultivo irrigado é recomendado para áreas com pelo menos 400 m de altitude e em solos com mais de 15% de argila.
A pesquisa da Embrapa sobre o trigo tropical concentra-se no desenvolvimento de cultivares de alto rendimento, resistentes a doenças e adaptadas às condições quentes e úmidas do Cerrado e, mais recentemente, das regiões Nordeste e Norte do Brasil. Esse trabalho visa expandir a produção de trigo para novas áreas, ajudando o Brasil a alcançar a autossuficiência na produção de trigo e reduzir a dependência das importações. A Embrapa desenvolve material genético especificamente para o trigo de sequeiro e irrigado em regiões com temperaturas mais elevadas e ambientes tropicais. As principais cultivares incluem a BRS 254, uma cultivar adequada para sistemas irrigados no Cerrado, com rendimentos elevados e consistentes e excelente qualidade para panificação; a BRS 264, uma cultivar de crescimento rápido com alto rendimento de grãos, adequada para o Cerrado da Região Central do Brasil; e a BRS Savana (BRS TR135) e a BRS Cracker (BRS TR013), que são cultivares recentemente destacadas para sistemas de sequeiro e irrigados, respectivamente.
As pesquisas e os ensaios estão se expandindo para além do Cerrado, abrangendo estados como Alagoas, Ceará, Maranhão, Piauí, Pará e Roraima. A Embrapa Soja mantém um programa de melhoramento de trigo para a região Centro-Sul do Brasil, abrangendo os estados do Paraná, São Paulo, Santa Catarina e sul do Mato Grosso do Sul. Este programa é desenvolvido em parceria com a Embrapa Trigo (Passo Fundo/RS), a Unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária responsável pela coordenação do Programa Nacional do Trigo, e também com a Fundação Meridional de Apoio à Pesquisa Agropecuária e com o Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná – INR-PR.
Cultivares de trigo tropical irrigado de alta produtividade e qualidade industrial, além das principais práticas recomendadas pela pesquisa para minimizar o acamamento das plantas, foram apresentadas pela Embrapa no Dia de Campo – Trigo Irrigado 2025. O evento reuniu cerca de 200 produtores, técnicos, profissionais de revendas e consultores do DF e Entorno. O pesquisador Júlio Albrecht, da Embrapa Cerrados (DF), falou sobre as variedades de trigo BRS 254, BRS 264, BRS 394 e BRS 404, desenvolvidas para o Cerrado e indicadas para cultivo em sistema irrigado em regiões com altitudes acima de 500 metros. A época de semeadura recomendada é de 11 de abril a 31 de maio, sendo que a melhor época é a primeira quinzena de maio, a fim de garantir maior potencial de rendimento de grãos, além de reduzir a ocorrência da brusone, principal doença que acomete a triticultura na região.
A cultivar BRS 254 é um trigo melhorador com elevada força de glúten, estabilidade acima de 12 minutos e peso hectolítrico (PH) de 80 kg/hL (acima do PH de 78 kg/hL exigido pelo mercado), o que proporciona uma farinha de elevada qualidade. É uma cultivar muito utilizada para melhorar outros trigos com problemas de qualidade para panificação. As plantas têm ciclo precoce (120 a 125 dias) e são moderadamente resistentes à germinação da espiga (no caso de semeadura tardia). O potencial produtivo é de 110 a 125 sc/ha, sendo que em 2021 alcançou 147,5 sc/ha em área de pivô de 101 ha na região do PAD-DF.
Detentora do recorde mundial de rendimento médio diário (80,9 kg/ha/dia) em 2021 na propriedade do agricultor Paulo Bonato, em Cristalina (GO), a BRS 264 alcançou um rendimento total de 160,5 espigas/ha (ou 9.600 kg/ha) naquele ano, ao longo de um ciclo de cultivo de 119 dias. A cultivar é excelente para panificação, com alta força de glúten, estabilidade acima de 15 minutos e PH acima de 81 kg/hL.
Classificada como trigo pão e melhorador, a cultivar BRS 394 apresenta alta força de glúten (acima de 314 x 10-4 J), estabilidade acima de 17 minutos e PH acima de 80 kg/hL. Apresenta ciclo precoce (115 a 125 dias) e maior tolerância ao acamamento em relação às outras cultivares da Embrapa. O potencial produtivo é de 115 a 130 sc/ha, tendo produzido 137 sc/ha na região em 2017.
Apesar de inicialmente desenvolvida como trigo de sequeiro ou safrinha, a cultivar BRS 404 também tem sido utilizada em sistema irrigado devido à rusticidade e por demandar menor quantidade de água. Em pivôs mais velhos, em que não se consegue aplicar o nível de água suficiente, os produtores têm colhido em torno de 100 sc/ha em média. Pode-se utilizá-la em rotação de culturas para diminuição de nematoides no solo e da ocorrência de Fusarium spp. e plantas daninhas. De qualidade de trigo pão, a cultivar tem força de glúten de 280 x 10-4 J, estabilidade acima de 10 minutos e PH acima de 80 kg/hL mesmo em anos desfavoráveis para a lavoura. O ciclo é precoce (90 a 110 dias no sistema de sequeiro e 120 a 125 dias no irrigado) e, devido à boa tolerância à seca e ao calor, o que minimiza o risco de perdas, pode ser semeada após o dia 15 de março. A produtividade média na safrinha é de 45 sc/ha, sendo que em 2023 chegou a produzir 71,9 sc/ha, com PH de 84.
A Embrapa está preparando uma nova cultivar para o ano que vem: a BRS Savana, indicada tanto para o sistema de sequeiro como para o irrigado. Será uma cultivar com a translocação 2NS/AS, fragmento de cromossomo de uma espécie selvagem parente do trigo (Aegilops ventricosa) que confere maior tolerância à brusone. A cultivar está entrando em fase de produção das sementes básicas. O material foi classificado como trigo pão e de ciclo precoce. O lançamento oficial está previsto para maio de 2026 na AgroBrasília, principal feira agropecuária do Brasil Central.
Notas:
1 Embrapa. Cultivar de trigo tropical da Embrapa tem rendimento 12% superior em anos secos. 2024.
2 Lobato, B. Embrapa. Embrapa apresenta genética de trigo tropical e manejo para minimizar acamamento em Dia de Campo. 2025.
3 Embrapa. Trigo. 2026.















