Século XXI, século da efemeridade. Até o século XIX, o mundo se desenvolvia lentamente. As guerras, as invenções e a tecnologia não tinham acesso à divulgação. Com a televisão chegando a todas as camadas da população, o noticiário se tornou o centro das famílias, que têm acesso a todos os acontecimentos do planeta. E o mundo passou a girar mais rapidamente. Invenções, notícias, moda, países do mundo inteiro têm acesso ao mesmo tempo. E o consumismo se fez presente na sociedade contemporânea. Mesmo a ida à lua não atrai mais a atenção, e aquilo que é genial em um determinado contexto, é rapidamente substituído por outra novidade.
Vivemos tempos em que, conforme Zygmunt Bauman, nada é feito para durar, assim, vivenciamos uma era da sociedade líquida, em que tudo passa muito rapidamente. As amizades duradouras são raras, as pessoas vivem com milhares de amigos virtuais nas redes sociais. Vivemos também o século da aparência, as pessoas criam quase que uma segunda identidade movida pela tecnologia da informação. Nosso objetivo, não está em criticar esse contexto, mas em apontar a necessidade para a reflexão sobre essa sociedade de consumo em que vivemos.
Em artigo que publicamos no ano de 2019 já apontávamos para uma reflexão sobre esse fenômeno da vida líquida:
Nessa perspectiva, o conceito de modernidade líquida relaciona-se a outro conceito que investigamos, o do consumismo que, segundo nossa leitura, impõe-se como um dos sintomas da sociedade líquida. Trata-se de uma sociedade que busca consumir cada vez mais. Com o avanço crescente da tecnologia, também se percebe que os produtos se desatualizam, perdem a “validade” diante do novo que continuamente surge e às pessoas resta substituir o objeto tão ansiado por outro, mais atualizado. As pessoas tornam-se escravas do consumismo, e, doloroso, não só do consumo, mas também do trabalho. Impõe-se trabalhar mais, para ganhar mais dinheiro, para poder comprar e pagar pelos produtos que consideram necessários para a vida.
(Gabriel, Pereira e Gabriel, 2019, p.690).
O consumismo faz com que tudo se transforme em mercadoria. A própria religião torna-se mercadoria. Basta ligar a TV para ver “preceitos religiosos” sendo comercializados em diversos canais, salvo algumas exceções sobre a relação entre fé e mercadoria. Muitos discursos religiosos vinculados a uma alegada teologia da prosperidade desafiam os fiéis a fazerem doações com a promessa de recompensa com bênçãos financeiras em suas vidas. Em um universo em que tudo é mercadoria, também a religião se torna mais um instrumento de troca.
Zigmunt Bauman entende que as redes sociais se transformam em confessionários eletrônicos portáteis em que as pessoas expõem sua intimidade sem dar-se conta de que estão expondo para milhares de pessoas informações pessoais que deveriam partilhar apenas com pessoas de sua intimidade. Criam-se nas redes sociais novas identidades, não as identidades reais, mas aquelas que as pessoas acreditam que não são mais convenientes, e as pessoas observam a prosperidade das outras pessoas na internet que, por sua vez, também criaram outra personalidade nas redes sociais.
Em outro artigo sobre Bauman e a modernidade líquida, assim sintetizamos a questão da modernidade líquida e o derretimento dos sólidos:
“Dessa maneira, Bauman (2007) entende que uma das caracterizações dos tempos líquidos é a de que há um colapso do planejamento a longo prazo; além disso, nesse mundo líquido, valorizamos demasiadamente a flexibilidade, em vez da conformidade com as normas que eram próprias da modernidade sólida. Nossas perspectivas de vida são instáveis; a noção de estabilidade no emprego e nos relacionamentos perde lugar para uma fluidez constante.
Passamos, segundo Bauman (2007), a alimentar um grande medo existencial, conforme podemos depreender também do pensamento de Foucault (2014), que anunciara que vivemos na sociedade do ‘vigiar e punir’. Em nome do medo da segurança pessoal não ser respeitada, nossa vida torna-se um grande big brother, em que constantemente estamos sendo vigiados, para não dizermos perseguidos por câmeras que monitoram nosso comportamento por onde quer que caminhemos.
(Gabriel, Gabriel, Pereira, 2022, p. 126).
Não queremos ser saudosistas e entender que os tempos sólidos seriam melhores que os que os sucederam, inclusive o período da liquidez em que vivemos, mas apenas afirmar que estamos em um novo cenário em que tudo é feito para não se perenizar. Tudo que não dura muito é louvável nesse cenário de liquidez. As amizades são aos milhares nas redes sociais, mas não são profundas e são diálogos entre as imagens das pessoas; não revelam a verdadeira identidade das pessoas com seus dramas pessoais cotidianos.
Diante desse cenário, somos convidados a refletir sobre os limites da liquidez em nossa própria existência. Até que ponto é saudável o consumismo em que nos atiramos? Será que precisamos nos esgotar de trabalhar para suprir a avidez consumista? Ou podemos diminuir nosso tempo de trabalho, consumir menos, trabalhar menos? Em um universo em que tudo é mercadoria, será saudável que também nós sejamos reduzidos a uma mercadoria a ser exibida nas redes sociais? São questionamentos que realizamos diante das situações que a vida nos propõe, a de buscarmos viver nesse universo líquido em que ora nos encontramos.
Enfim, o universo líquido desperta em nós reflexões sobre os limites da liquidez na nossa sociedade. Não há um parâmetro para dizer se a liquidez é melhor ou pior que a vida no mundo sólido. Fato é que somos convidados a refletir sobre a condição de liquidez em que ora nos encontramos e ser sinceros conosco mesmos sobre o que realmente queremos para a nossa existência, se queremos uma vida líquida na sua mais máxima expressão ou se será mais prudente adotar uma vida menos turbulenta.
Referências
Gabriel, Fábio Antonio.; Pereira, Ana Lúcia; Gabriel, Ana Cássia Modernidade líquida e consumismo no pensamento de Zygmunt Bauman. Revista Intersaberes, [S. l.], v. 14, n. 33, p. 698, 2019. DOI: 10.22169/revint.v14i33.1542.
Gabriel, Ana Cássia; Gabriel, Fábio Antônio.; Pereira, Ana Lúcia . A sociologia de Zygmunt Bauman: modernidade líquida e consumismo no contexto da contemporaneidade. Humanidades em Perspectivas, [S. l.], v. 4, n. 8, p. 121–137, 2022.















