Para compreendermos a génese da “coitadização”, precisamos de olhar para a evolução da relação entre pais, filhos e escola. Passámos, num curto espaço de tempo, de um modelo autoritário e rígido para um modelo de hiperproteção.

Surgiram os "pais helicóptero" (que sobrevoam cada passo do filho) e os "pais limpa-neves" (que removem todo e qualquer obstáculo antes mesmo de a criança o atingir). Esta mentalidade transferiu para a escola a obrigação de que o percurso académico seja sempre plano, sem arestas e, acima de tudo, indolor. Quando um aluno falha, a primeira reação do sistema e das famílias raramente é questionar o esforço ou a falta dele; é procurar um culpado externo:

  • O programa é demasiado extenso;

  • O professor não foi empático e é rígido;

  • O exame foi "uma rasteira";

  • O aluno tem um bloqueio emocional que o impede de ser avaliado.

Ao rotularmos o aluno como um "coitado" que não aguenta a pressão de uma nota negativa, estamos, na verdade, a retirar-lhe a dignidade do esforço e a possibilidade de superação.

A escola como "espaço seguro" vs. "bolha de vidro"

É consensual que a escola deve ser um lugar de segurança, inclusão e acolhimento. Contudo, a “coitadização” confunde segurança emocional com ausência de desafio.

O erro, que deveria ser o maior pedagogo da ciência e da vida, passou a ser visto como um potencial trauma; o aprender fazendo e o aprender errando cada vez mais são bloqueados. Quando um docente aponta uma falha de forma direta, corre o risco de ser acusado de "desmotivar" o estudante ou de exercer uma pressão excessiva, pois o aluno “deverá ter um reforço positivo”. Esta cultura do "o que conta é participar" ou do "está tudo bem, no próximo corre melhor" (sem que se analise por que motivo correu mal desta vez) cria uma geração que desconhece a frustração.

Sem essa exposição ao desconforto, o aluno torna-se um "coitado" que desmorona perante o primeiro "não" ou a primeira crítica construtiva. Estamos a trocar a resiliência por uma gratificação instantânea que não sobrevive um único dia fora dos muros da instituição de ensino.

Curiosamente, a “coitadização” não faz o aluno sentir-se mais forte ou amado; faz com que ele se sinta intrinsecamente incapaz.

Quando os adultos agem como se o jovem não conseguisse lidar com as consequências das suas ações, a mensagem subliminar é: "Nós não acreditamos que tenhas fibra suficiente". O aluno desiste antes de tentar, porque o papel de "coitado" é socialmente aceite e até recompensado com condescendência e facilidades.

Além disso, esta postura gera um narcisismo frágil. O aluno sente-se o centro do universo pedagógico, mas é um centro que não consegue sustentar o seu próprio peso. Se o sucesso é garantido por "decreto" ou por pressão parental sobre os conselhos diretivos, o mérito esvazia-se. E um sucesso sem mérito é um castelo de cartas que cairá mal surja o primeiro vento de exigência real.

O drama da “coitadização” revela-se em toda a sua crueza no dia seguinte à formatura. O mercado de trabalho é, por definição, pragmático. Às empresas e às organizações não interessa se o colaborador "se esforçou muito mas não conseguiu cumprir o objetivo"; interessa o resultado e a capacidade de resolução de problemas.

Temos hoje jovens brilhantes, com percursos académicos aparentemente impecáveis, que entram em colapso na primeira semana de trabalho porque o patrão não usou um tom de voz suave ou porque o prazo de entrega era inegociável. A chamada "geração de cristal" é, em grande medida, a vítima direta deste processo de “coitadização”. Foram ensinados a acreditar que eram especiais apenas por existirem, e não pelo que eram capazes de construir, aprender ou suportar.

O professor é, talvez, a figura mais fustigada por este fenómeno. Pressionado por burocracias asfixiantes, por pais que veem o docente como um prestador de serviços que deve garantir a felicidade do filho, o professor acaba muitas vezes por ceder.

No entanto, o verdadeiro ato de amor pedagógico é o oposto da piedade: é a exigência.

Tratar o aluno como um ser capaz é a maior forma de respeito que se lhe pode prestar. É reconhecer a sua agência e a sua potência como futuro cidadão.

Reverter esta tendência não implica regressar à palmatória ou ao autoritarismo cego. Implica, sim, resgatar o valor da responsabilidade individual e do mérito.

Reabilitar o valor do erro: o erro deve ser discutido abertamente, analisado e valorizado como um passo necessário na aprendizagem. Falhar um teste não é um estigma; é um indicador de que o método de estudo precisa de ser afinado.

Responsabilização: os alunos devem arcar com as consequências das suas escolhas. Se não entregou o trabalho no prazo, a nota sofre a penalização prevista no regulamento. Sem exceções baseadas em "peninha".

Fomentar a autonomia real: os pais devem permitir que os filhos resolvam os seus próprios conflitos com os colegas ou com os professores, intervindo apenas em situações extremas.

A “coitadização” é, em última análise, uma forma de roubo. Rouba ao aluno a oportunidade de descobrir quão forte ele realmente é. Ao tentarmos poupar os jovens de todas as arestas da vida, estamos a entregá-los ao mundo "sem pele", vulneráveis a qualquer toque mais áspero.

Precisamos de devolver aos alunos o direito à dificuldade. A satisfação de resolver um problema complexo de matemática, de interpretar um texto denso ou de recuperar de uma nota negativa através de semanas de estudo é o que verdadeiramente constrói o carácter e a autoestima sólida.

Um aluno não é um "coitado". Um aluno é um projeto de liberdade e de competência. E a liberdade só se conquista com autonomia, responsabilidade e a coragem de enfrentar o mundo tal como ele é. A bitola escolar e académica deverá ser exigente e não colocar os seus limites no mínimo, criando um aluno e uma sociedade de facilitismos.