Desejamos, muitos, algum sol primaveril que, pelo menos, nos afaste, nem que seja por momentos, da invernia de narrativas de pérfidas guerras que vão poupando um pouco por todo o lado. Não por fuga, talvez por mero almejo esperançoso de alguma paz, nem que seja de espírito.

Já cansados de tanta trumpiana ou putiniana verborreia e altivez presuntiva e letal, até começamos a invejar o silêncio oriental que pingianamente vai liquidando em purgas insanáveis e habituais no império do meio.

Mas voltamos ao narrativo que, mesmo que degradado e derivante, vai conseguindo sobreviver a um quotidiano agreste e tempestuoso nos climas e nos homens que ora se guerreiam ora regressam a passados obliterados e ora ressuscitados para gáudio dos humoristas que tão sagazmente vão captando as espumas dos dias de formas tão sarcásticas que deixariam gregos muitos dos antigos mestres da sátira.

Se conseguirmos sossegar por uns minutos bem podemos tirar uma foto exacta do presente apenas revendo as tiras dos cartoonistas de tantos e variados horizontes geográficos do nosso azul planeta que tudo vai estoicamente aguentando.

Também a riqueza produtiva e plural de narrativa e poesia não é tão afectada, como se poderia julgar, pela revinda de censuras, cancelamentos e clausuras já fora de prazo, mas tão na moda nestes tempos inconvenientes e turbulentos. Que regozijo e aplauso devíamos sentir por isso.

Não se pense que qualquer bacoco e balofo aspirante a ditador possa quebrar o ímpeto criador de tantas e díspares vozes que nunca se saberão calar ou ofuscar pelas trombetas da guerra ou do ridículo de tantos reis nus. Talvez momentaneamente possa agrilhoar ou tentar silenciar uns tantos, mas a habitual veleidade da verdade absoluta esbarra naturalmente na tempestiva resposta da pluralidade dos registos hoje cada vez mais desregrados e livres.

Mesmo a tentação de novilínguas orwellianas de padrão único rapidamente é atropelada pelo salto comunicacional e tecnológico que, se facilita a desinformação e a propaganda, rapidamente é ultrapassada pela quantidade de dados e divulgação aleatória de novidades.

Igualmente a contrarreferenciação permite-nos evitar o pensamento único e o cancelamento da diversidade criativa… Mesmo que a algoritmia automática, ora tão na onda da modernidade, vicie ou enviese o pluralismo, só acontece se o quisermos.

Mesmo assoberbados por uma autêntica enxurrada informativa, qual overdose destrutiva que tudo obnubila e adormece, podemos sempre resgatar a liberdade de múltiplas dependências, se assim vontade se crie e alento continue para seguirmos em frente, buscando e construindo novos e diferentes desafios pessoais e colectivos que muito dificilmente podem ser aplacados ou impedidos.

Na disfunção e ou na confluência de diversos e caóticos momentos, ensina-nos a história, surgem as mais diversas e criativas narrativas e desafiadores projectos… No paradoxo de tempos letais e destrutivos sempre renasceram esperanças e se construíram caminhos diferentes… Também nos invernos mais inclementes se semearam searas de trigos ou de joios que se separaram e seguiram estradas diferentes, mas ficaram as estradas e os destinos mais distintos e variados.

Independentemente de valorização ou rejeição teremos que procurar entender os nossos tempos com a naturalidade que outras épocas exigiram também. Se pensarmos no que outros humanos experimentaram e vivenciavam em períodos temporais agitados e semelhantes aos que agora passamos, rapidamente podemos concluir com alguma exactidão que, desde que nós humanos descobrimos formas de registar o que vivíamos, sentíamos e observávamos, logo se tornou possível compararmos, relativizarmos e estudarmos a diversidade imensa do planeta em que vivemos e as complexas interações que geramos e recebemos de tudo o que nos circunda… no espaço e no ínfimo tempo em que nos movemos.

A narrativa ultra diversificada que conseguimos abarcar desde que conseguimos ir registando o devir deve-nos também relembrar que a infinitésima pequenez da nossa existência bem pode ser sinal da premência do registo, da comunicação efectiva e tentativamente perene da nossa história e estórias que criamos e contamos para memória futura.

Sim, muitos se querem egoisticamente assegurar de que apenas a sua narrativa possa prevalecer, mas se não estamos enganados, isso dificilmente aconteceu, acontece e acontecerá. Cada vez mais vamos descobrindo outras narrativas e outros registos que até julgávamos perdidos no passado, mas que, subitamente, se revelam e nos permitem aceder a outras realidades e outras histórias e estórias.

O que realmente importa é que a abertura de espírito e a tolerância mesmo em tempos de chumbo possa reacender e abrir portas e janelas para sóis diversos que possam furar véus e nuvens de tempestade chuvosa que possam alimentar com as suas águas a terra premente de semente que possa germinar e frutificar em novas primaveras criativas e verões de quentes emoções ou calmas calmarias que deixem registo.

Que do talento e expressividade de tantos de nós se façam inúmeras e díspares estórias, versos, quadros e esculturas, sinfonias ou simples canções que não sejam esquecidas porque lidas, ouvidas, observadas com deleite de narrativas primaveris.