Quando alguém ler este artigo, espero que a minha crise existencial tenha já melhores dias. Quando alguém ler este artigo, terei acabado a minha vida de estudante há sensivelmente 10 meses. Quando alguém ler este artigo, espero já ter encontrado um trabalho, de preferência na minha área e que me pague as contas. Não sou esquisita e não preciso de ser um ordenado extravagante. Apenas preciso que as empresas e os recrutadores saiam do pedestal em que estão, tão inalcançável, para nós jovens acabados de sair das universidades, consigamos a dita oportunidade. É tão simples quanto isto: os jovens sujeitam-se à mísera coisa para mostrarem o que valem e para serem independentes dos pais. Não é preciso ser nenhum guru das matemáticas para perceber isso.

Agora, a questão que importa perceber é por que é que as empresas e os recrutadores enveredaram pela política do ghosting para com os candidatos? A meu ver, dá uma má imagem da própria empresa no geral. Serão os candidatos assim tão desmerecedores de resposta, que nem isso valem?! Tanto na vida como no trabalho, não podemos agradar a todos, mas no mínimo há que manter o respeito pelo outro. E neste caso, o mínimo que os recrutadores/empresas tinham o dever de fazer era dar uma resposta aos candidatos, independentemente de encaixarem na vaga ou não.

Além do ghosting dos recrutadores, agora também viraram moda as fases infinitas de entrevista. Como se conseguir um emprego nos dias fosse como atirar uma moeda ao ar – a coisa mais simples do mundo. Não é, e pelo andar da carruagem, quem tiver um trabalho “seguro”, o melhor que tem a fazer é segurá-lo muito bem seguro! Pode do dia para a noite ficar a ver navios, como diz o outro.

Que me lembre, nunca fui a uma dessas entrevistas da moda, porque também às vezes que fui chamada, foi quando o rei fez anos e, no fim, nunca deram em nada. A única que deu, ao fim de um mês, o suposto “patrão” deu-me ghost a mim. Enfim.

Mas para dizer que neste momento, o simples ato de procurar trabalho é pior do que ir ao médico queixarmo-nos das nossas mazelas. Pelo menos no médico, à partida sabemos o que nos dói. Nas entrevistas, se soubermos dizer o nosso nome e idade, sem nos engasgarmos, já fizemos muito.

Digo isto porque, das duas uma, ou o recrutador sabe o que está a fazer, ou seja, conhece a vaga, o trabalho, o candidato que tem à frente ou simplesmente, são os candidatos a irem dar uma aulinha de como entrevistar pessoas. As perguntas que se ouvem por aí não têm pés nem cabeça, quanto mais nexo!

Depois, o pior, as sacrificadas, na sua maioria, são as mulheres. Porque é do género “onde é que se imagina daqui a 5 anos? É que se estiver a planear ter filhos, a nossa oferta pode não se enquadrar nos planos...”. Por que é que não enquadra? Certo, havendo filhos pelo meio, a mulher terá de faltar por doença/indisposição da criança, baixa na gravidez, a acrescentar o tempo de pausa para amamentação, etc. Mas aos homens não perguntam nada disso, porquê? Os filhos não são apenas da mulher, aliás, para serem feitos são precisos dois...

Depois as alterações que a Srª ministra do trabalho quer implementar, acho que também não vêm augurar nada de bom para os trabalhadores. Não se iludam, os patrões, têm o deles sempre garantido. Se não tiverem, arranjam maneira.

No fim das contas, estão os jovens acabados de sair das faculdades, que mais uma vez, o que querem é mostrar o que valem e o que sabem. Ou andaram 3, 4, 5 anos a gastar o dinheiro dos pais e “matar” a cabeça para quê? Viverem às custas dos pais e dizerem que tiraram um curso, porque sim. Menos, por favor.

Enquanto andava a estudar e a procurar trabalho, um mísero part-time que fosse, mas que ajudasse nas contas para não sobrecarregar tanto os meus pais, a desculpa de mau pagador para a não contratação era porque estava a estudar. Agora, que tenho, não um, mas dois canudos na mão, dizem-me que me falta a experiência. Em que planeta já se viu um recém-graduado ter experiência naquilo que estudou? Em nenhum, mas se calhar nós é que andamos todos a pensar mal e a fazer dos recrutadores os maus da fita.

São estas politiquices de meia-tigela, para não dizer outra coisa, que me fazem pensar e acreditar que este país nunca vai sair cepa torta. São estas politiquices, que nada acrescentam ao cerne da questão e que tanto infernizam a vida de quem só quer uma coisa a que tem direito: um trabalho! Não estamos a pedir nada demais e nada a que não tenhamos direito! Formamo-nos, acreditamos no sonho e, agora, com o canudo na mão, só o queremos concretizar!

A minha geração e as que hão de vir, mas pela minha falo, acreditaram no sonho barato que lhe venderam e agora tantos anos depois vê-se obrigada a depender dos pais e dos avós para ter um teto sobre a cabeça. Quando deveria ser o contrário, deveríamos ser nós a garantir-lhe conforto e carinho na velhice.

Por não existirem oportunidades, os jovens veem mais futuro nos países dos outros do que no seu. Na altura das eleições prometeram mundos e fundos aos jovens e agora, um ano depois do governo de Luís Montenegro parte II, os jovens têm de decidir entre receber a devolução das propinas ou o IRS Jovem ou pior têm de escolher se vão estudar ou trabalhar, porque o governo de Luís Montenegro trabalhou tanto, mas tanto, que a melhor opção que arranjou para tornar o Ensino Superior mais incluso para todos foi descongelar as propinas. (Mas não se esqueceram do reparo à descida do número de inscritos nas universidades no ano letivo 2025/2026).

Resumindo e baralhando, os jovens estão muito desamimados com os tempos e com os governantes, que dizem que tudo fazem para nos manter cá... No fim, nada fazem e continua tudo na mesma. O país está velho e os jovens acabam, inevitavelmente, por ir embora. Pessoalmente, a ideia de ir embora já me atraiu menos.