Existia um tempo em que uma performance de espelhos e luzes causava terror e espanto numa época que tinha como medo as sutilezas dos avanços da tecnologia e também de tudo que era excêntrico. Inspirada em uma história real da vida de Júlia Pastrana, a mulher-gorila sofria de hipertricose, uma doença rara que causa crescimento excessivo de pelos, inclusive no rosto. A mulher barbada e peluda era considerada indescritível.
Dizem que Júlia tinha uma mandíbula para fora e uma estatura de 1 metro e 37 que favorecia uma aparência de um gorila que abalava os desavisados com tamanho espanto. Assim, Júlia foi vendida pela mãe para um homem que fazia espetáculos com aberrações. Esse homem, chamado Theodore Lent, ensinou Júlia a cantar e dançar. Com o tempo de convivência, eles resolveram se casar em 1854. Mas a história da Júlia durou por muitos anos.
Em 1860, o casal teve um filho que nasceu com o mesmo problema de hipertricose. Só que o bebê resistiu por apenas 35 horas. Alguns dias depois, Júlia também não suportou as complicações do parto e morreu. Lent vendeu os dois corpos para um professor da Universidade de Moscou. Quando percebeu que os corpos embalsamados viraram atração, Lent os pediu de volta. Passou a exibir as múmias de Júlia e do filho em cabines de vidro.1
(Guia dos curiosos)
O estigma de Júlia Pastrana foi suficiente para se instalar no século XX sua história, em que, a partir do jogo de espelhos, criado por “Pepper’s Ghost”, um cientista britânico, John Henry Pepper, ajudou a disseminar a história de Júlia pela atração da mulher que vira gorila. Havia, assim, toda uma sedução nas apresentações de Júlia numa época em que os circos domavam e enjaulavam os animais selvagens para exibirem seus desempenhos. Pois, tudo o que era bizarro servia de atração.
O circo chegou ao Brasil a partir dos povos ciganos e dos europeus. O circo Maximus por volta do século IV a.C durante a Roma antiga já exibia apresentação de animais, depois na Idade Média, artistas populares e saltimbancos começaram a utilizar as praças públicas, as entradas das igrejas e as feiras livres para exibição de suas performances. Mas foi em Londres, por volta de 1768, que o inglês Philip Astley exibiu num anfiteatro shows com cavalos, malabarismo e palhaçaria. A evolução do circo é bastante interessante.
Hoje, o circo integra o internacional-popular. Traz o processo de hibridização em suas atrações, como é o caso do Cirque du Soleil (Canadá), Circus Krone (Alemanha), Moscow State Circus (Rússia), Ringling Bros. and Barnum & Bailey (EUA), Circus Oz (Austrália), Cirkus Cirkör (Suécia), Circuba (Cuba), Circus Vargas (EUA), entre outros. Mas no Brasil existem circos de atrações grotescas que hibridizam com a modernidade, formando uma estética peculiar de latinidade. Temos o Circo Stankowich, um dos mais antigos do Brasil; também existem o Circo Maximus, o Circo Americano, o Circo Mundial e o Circo Garcia, entre outros.
No Nordeste do Brasil temos os circos Real, Kroner e o Tirú, entre outros. Agora, o circo mais sensacional são aqueles circos das pequenas cidades do interior, são circos onde os artistas se apresentam pela sua inventividade, sem recursos, com um roteiro ingênuo entre questões políticas, ideológicas, midiáticas e mitológicas. O circo mais atraente é o Circo Pindorama2. Formado por sete irmãos anões, revela o poder de exibir a arte pelo pitoresco exótico imaginário coletivo.
Diante do exposto, pode-se confirmar que o circo, antes de qualquer coisa, é um espaço de ofício e entretenimento. Um lugar agregador de diversas manifestações e tendências, aquilo que pode agradar e entreter a plateia, seja pelo sublime, pelo risível ou pelo grotesco. O circo é uma empresa de entretenimento e a arte é o seu produto de venda. O artista circense transforma em arte o sublime e o grotesco do corpo humano. Uma bela bailarina é bem-vinda, assim como uma Mulher-Barbada, um Hércules (homem ou mulher portador de força bruta) tem espaço no circo, assim como um anão. A arte e a fantasia vendidas pelo circo são compostas por essas dicotomias que se mesclam e se unem em prol do bem de todos, belos e feios, artistas e público3.
O circo é um espaço de imaginários extraterritoriais. Com isso, a mulher-gorila faz a gente pensar no poder dos mitos. Afirma Campbell: “A mitologia é um mapa interior da experiência desenhada pelas pessoas que a viajaram”4. Segundo Joseph Campbell, “o ser humano precisa contar histórias para tentar concordar com o mundo.5” Isto é, a vida imita a arte e a arte imita a vida.
Estamos acostumados desde crianças a conviver com os mitos, mas hoje em dia os mitos extrapolaram do real para o virtual. Antes da chegada do Wi-Fi, a mulher-gorila, na década de 1980, foi sensação nos parques de diversões. O jogo de espelhos era um fenômeno para os desavisados. Lembro-me que fui com a minha irmã Renata, a uma festa no bairro da Várzea no Recife, Pernambuco para assistir o espetáculo da Monga: a mulher-gorila na década de 1980. O show não começava; havia um ar contundente para causar mais aflição na plateia. O locutor ficava pedindo para todos sentarem nos bancos. Era tudo muito arcaico e improvisado, com jogos de luzes feitos nas garagens das casas, e o microfone era abafado e reproduzido em caixas de som sem potência. Como estávamos com medo, ficamos em pé, atrás de todos que estavam sentados. De repente, apareceu uma mulher dançando de biquíni.
A mulher era um tanto desengonçada; não ria, parecia tímida. Depois de um tempo, começava o jogo de espelhos na mulher com a figura do gorila. Era algo que a gente sabia que não era real, mas o medo tomava conta de nossos pensamentos. Muitas vezes a boca do gorila não ficava exatamente na boca da mulher. Era imperfeito, mas trazia e fazia a mágica de assustar. O gorila começou a gritar e a empurrar a grade. Batia no corpo e dizia com a voz grossa: "Quero sair!" E, como eu e a minha irmã continuávamos em pé e perto da saída, que tinha uma cortina grossa, o gorila falou: "Ei, vocês duas, por que estão em pé?" Eu nem olhei mais para nada, dei uma carreira com a minha irmã e com o coração acelerado chegamos em casa.
Hoje, fico sorrindo com a história da Monga. Foi divertido, mas também foi assustador. Certa vez, tive que realizar um evento na Fundação Joaquim Nabuco onde reproduzi uma festa de rua. Para realizar o evento, precisava de uma Monga para que ficasse atrativo com um ar de quermesse. Foi quando tive a ideia de buscar uma Monga na Região Metropolitana do Recife, em Camaragibe. Fui no período da tarde, tempo bom, pois a festa não havia começado. Avistei o caminhão da Monga e fui falar com o proprietário.
Bati palma e apareceu uma mulher com short apertado na cor laranja com um biquíni cobrindo os seios. Comecei a falar com ela, mas ela não respondia nada. Então, passou um homem de bicicleta e disse que ela era surda. Pedi desculpas e depois chamaram seu Antônio, o dono do espetáculo da Monga. Seu Antônio disse que a Monga era surda, mas que ela fazia direitinho o seu papel. São muitas histórias, com muitas carreiras, bem mais do que se a gente visse a perna cabeluda5. A perna cabeluda é um mito de Recife que assusta, chutando pessoas até onde der. Contam que a perna cabeluda surgiu na década de 1970 por boatos, narrativas e relatos de pessoas na capital pernambucana. Dizem que os mitos surgem depois de alguma repressão, crises, guerras, fenômenos entre outros conflitos, ocasionando o seu poder de aparecimento.
Pode ser que a mulher-gorila ainda exista em alguns parques de diversões. Hoje, há um vídeo em sua apresentação; a ideia sobrevive, pois o poder dos mitos tem uma força que atravessa gerações. Há de se considerar que em todo lugar que tem muitas festividades, há muito do sagrado. E onde tem o sagrado, há solo fértil para o imaginário coletivo. Acredito que os jovens da década de 1980 levaram a carreira da mulher-gorila ou têm uma história muito boa para contar sobre essa manifestação. A transformação da Monga, por uma década, por ser algo rudimentar e fantasioso que alimentava as expectativas dos incrédulos. “Iluminada por um foco de luz na escuridão, a mulher encarava o público com um olhar ameaçador.
Geralmente bonita, encontrava-se presa numa jaula, parecendo guiada por um transe hipnótico, tão intenso quanto fossem as palavras do locutor, que aludiam a paisagens distantes, instintos adormecidos e a um passado misterioso.” Mas, já havia na década de 1950 no playcenter de São Paulo apresentação da Monga. De contexto sexualizado, onde mistura o brega, o massivo e o popular, a Monga revela a metamorfose da mulher-gorila numa versão da história típica da época. Hoje, a mulher-gorila “ganhou asas.” Com aparição restrita, a Monga encontra-se em extinção.
Talvez o contexto atual não dê mais conta do jogo dos espelhos. Pois, a tradição e a modernidade caminham juntas para evidenciar a construção social de seus territórios. Vale salientar que as veias econômicas de dominação atravessaram e atravessam as culturas populares. Tornando indissociáveis o massivo do popular. Talvez, os tecnossauros como fita cassete, videogame, DVD, foram os causadores do afastamento do público do show da Monga. Mas o que podemos salientar é que a globalização favoreceu o processo de hibridização e o que era transformação passou a ser acesso. Uma manifestação entra em extinção quando não consegue caminhar ou se hibridizar com as novas tecnologias.
Atualmente, encontramos nos interiores do Brasil e também nas capitais, especialmente nos subúrbios, o fenômeno da Carreta Furacão. A Carreta Furacão surgiu na região Sudeste do Brasil, inicialmente como um trenzinho da alegria para animar festas infantis onde os integrantes se vestiam de personagens da televisão e das revistas em quadrinhos, como super-heróis e palhaços. Mascarados quase como uma caricatura de seus personagens prediletos, a Carreta Furacão é como um trio elétrico com faíscas do mundo infantil, mas com músicas de cunho adulto. Um verdadeiro retrato da folkcomunicação. Conta a pesquisadora Lis Retti Donzel que:
Primeiramente, busquei entender o que é de fato a Carreta Furacão e a origem do meme. A Carreta Furacão é um tipo de trenzinho da alegria, criada em 2005, na cidade de Ribeirão Preto, em São Paulo, pela empresa de entretenimento e festas infantis Dominium. A pesquisa me mostrou que “Carreta Furacão” do meme nomeava um evento cultural muito maior: os trenzinhos da alegria. Estes, também conhecidos como “carretas da alegria” , são veículos de grande porte modificados para acomodar grupos de pessoas e realizar passeios, acompanhados de dançarinos fantasiados de personagens de desenhos infantis e heróis da mídia, ao som de música. Esse tipo de entretenimento itinerante é encontrado em vários lugares do país, apresentando diferentes modelos de personagens, fantasias e veículos.
A Carreta Furacão, hoje em dia, passa pelos bairros ou municípios onde as pessoas pagam para fazer o percurso ao som ensurdecedor das músicas da atualidade. O percurso ganha destaque na era do acesso. Vários memes são criados e no Instagram da Carreta Furacão vários likes dos internautas são computados. É um fenômeno atual que o mundo em movimento ganha adeptos. Talvez esse fenômeno seja a expressão da construção social extraterritorial, trazendo a dimensão do internacional-popular.
Assim, essas manifestações traduzem significados significantes de transformação entre a estreita relação da tradição e da modernidade. Onde o popular e o massivo se encontram, há sempre a revelação da hibridização. Digo mais: a mulher-gorila deve estar hibernando, esperando o momento adequado para ressurgir com novos contextos e atualizações. Vale ressaltar que a palavra extinção, para uma manifestação, não é adequada num mundo onde a cultura é subversiva.
Notas
1 A história de Monga, a mulher gorila.
2 Pindorama - A Verdadeira História dos Sete Anões.
3 Pinduca Show de Atrações: a trajetória de um palhaço que, com base nos saberes adquiridos no circo tradicional, moldou sua carreira como empresário do entretenimento.
4 O Poder do Mito.
5 "Perna cabeluda" evoca identidade cultural do Recife.















