No dia 13 de abril de 1831, pelas onze horas da manhã, na freguesia de Santo Antonio, em Salvador, na Bahia, no Brasil, Cipriano José Barata de Almeida e sua família tiveram a atenção tomada pelos tumultos nas ruas do largo da Cruz do Pascoal. Correram à janela e avistaram um homem ensanguentado e aparentemente morto sobre um sofá carregado por pretos acompanhados de uma multidão aos gritos de “os marotos mataram um brasileiro, morra maroto”.
O morto era o brasileiro e homem de negócios na cidade baixa Victor Pinto de Castro. O assassino fora o português e também homem de negócios na cidade baixa, Francisco Antonio de Souza Paranhos.
Enquanto Paranhos fugia para se esconder, seus compatriotas começaram a ser duramente hostilizados. Quase toda casa de português era arrombada. Vendas e armazéns, invadidos. Pipas de cachaça e de outras bebidas, violadas. Prateleiras, quebradas. Fazendas, rasgadas e jogadas no meio da rua. Donos ou caixeiros, espancados e mortos.
A alternativa dos portugueses foi procurar abrigo nas embarcações estrangeiras estacionadas no porto. O comerciante João Teixeira de Carvalho corria em disparada na direção da baía quando avistou no mar uma canoa pilotada por um preto que, pelo visto, oferecia ajuda. Carvalho não titubeou. Adiantou a passada, pulou n’água e se aproximou do barquinho. Por infortúnio, o preto, ao invés de salvá-lo, espancou-o até à morte a golpes de remo.
Cipriano Barata se recusava a presenciar aquelas cenas. Saiu da janela e começou a caminhar aflito pela casa. De repente, ouviu firmes e incessantes batidas na porta principal. Era o visconde de Pirajá, então comandante das armas, acompanhado do juiz de paz da freguesia, Sr. Lázaro José Jambeiro. Pirajá, por alcunha “Santinho”, era gente dos Garcia d’Ávila e velho conhecido de Barata. Apressou-se em abraçar o redator da Sentinela da Liberdade para demonstrar a sua fraternal afeição e amizade. Sem delongas, começou a relatar a “total anarquia” que tomava a cidade. Informou que os soldados de várias guarnições tentaram, sem sucesso, conter a intranquilidade. Que só cresceu e esgotou as forças do governo. Nesse contexto, Barata, pela popularidade que tinha diante da gente da Bahia, era a derradeira e providencial alternativa.
Sem muita prosa e a contragosto da família, Barata aceitou a incumbência. Todavia, ressaltou que tentaria acalmar o povo não pela súplica de “Santinho”, mas por amor à pátria.
Às rápidas, colocou a típica casaca preta de algodão da terra, os sapatos de couro de veado sem tinta, o chapéu de palha e empunhou uma rama de café.
Num repente, rumou para a cidade baixa. Por onde passava, discursava e acalmava o povo. Este, serenado, punha-se a segui-lo, gritando seu nome e a cantarolar a conhecida quadra:
Fora Marotos, fora
Viagem podem seguir
Brasileiros já não querem
Marotos mais no Brasil.
Pelas seis da tarde, os tumultos já tinham sido contidos e o sossego público, restabelecido. Por essas horas, numerosas pessoas, em ritmo de festa, aglomeraram-se à frente da casa dos Barata para aclamar Cipriano presidente da Província. Acenavam lenços brancos, cantavam, davam vivas. Da janela, Barata agradecia àqueles gestos de admiração e respeito, repetidos noite adentro.
Na madrugada, quando a calmaria tomou conta, o iniciador de todo o alvoroço, o homicida Francisco Antonio de Souza Paranhos, saiu de seu esconderijo no forro duma de suas lojas na cidade baixa.
Sem pestanejar, porém trêmulo e ensimesmado, pediu para o seu funcionário Joaquim Pereira Marinho o pintar de preto e ir à rua ver se não havia gente suspeita. Como tudo estava deserto e estar pintado de preto dificultaria eventual identificação ou interceptação, seguiu a passos largos, na companhia de seu funcionário Marinho, na direção do porto onde havia um brigue inglês na espera. Sem contrição nem repeso, partiu para a Europa.
O pano de fundo de tudo isso refere-se ao fato de que no ano de 1831, os portugueses monopolizavam o comércio de Salvador, possuíam grandes propriedades pelo Recôncavo e ocupavam os cargos mais expressivos do governo da Bahia. Muitos dos baianos que se consideravam brasileiros tinham ojeriza a essa situação; especialmente, porque os portugueses, geralmente, dificultavam o seu acesso a gêneros de primeira necessidade, impondo a venda dos produtos a preços exorbitantes, e os constrangiam e oprimiam nos cargos públicos, sobretudo no Exército. A rivalidade e a antipatia entre baiano-brasileiros e portugueses produziam tumultos, assaltos e assassinatos recorrentemente e imprimiam caráter penetrante à desconfortável sensação de memento mori.
O extraordinário acontecimento do dia 13 de abril foi produto desse contexto. A dualidade e as aporias de brasileiros e portugueses na Bahia advieram de longo e complexo processo de formação das sociedades baiana e brasileira que, a partir do Oitocentos, começaram a projetar e protagonizar a construção de um Estado independente de caráter nacional. A definição das bases desse Estado processou a aceitação, negação e negociação de elementos de um passado de matriz lusitana com um futuro que se queria brasileiro. O ano de 1831 foi – ao menos nos tempos, escalas e espaços restritos à relação entre o Brasil e a Bahia da primeira metade do século XIX – o momento decisivo desse processo. O episódio do dia 13 de abril evidenciou a participação da Bahia no conjunto dessas tensões e contradições.















