Maria de Oliveira, de 20 anos, estuda piano. Em 1941, escreve de São Luís, Maranhão, onde encontrara o conto “Piá não sofre, sofre”, na revista Planalto. Entusiasmada, deseja ler mais desse autor que o irmão lhe recomenda. Expressando-se com graça e desenvoltura, ganha, em São Paulo, um amigo que lhe oferece o livro Clã do jabuti, músicas e paciente atenção. Retribui com um azulejo antigo e uma boneca de feira. Victor Brecheret, escultor, mostra ao companheiro e crítico modernista, croquis do que anda fazendo em Paris, no ano de 1922, apesar do frio. A carta, mistura de português e italiano capaz de fazer inveja a Juó Bananere, contrasta com o rigor no traço.
Otávio de Faria, em novembro de 1937, tem seu personagem Carlos Eduardo, menino cheio de pureza, comparado a Renato, irmão caçula falecido de quem datilografa, com cópia, uma análise longa do romance Mundos mortos.
Oneyda Alvarenga, a discípula diretora da Discoteca Pública, vê as perguntas que articula sobre arte, respondidas num calhamaço, até com título de ensaio: Do conhecimento técnico, em 14 de novembro, 1940. E ele, Alberto Soares, nem soube, talvez, onde chegaram as informações sobre quadras populares mineiras que, em 1921, passara ao mecenas carioca Arnaldo Guinle, na grande pesquisa sobre o folclore do Brasil encomendada a tantos, para comemorar o centenário da Independência. A pesquisa, mudado o caminho, alimenta a invenção das Bachianas brasileiras.
A matéria recolhida torna-se, como a literatura de cordel transcrita em vários volumes nos Fundos Villa-Lobos, oferta de Guinle, lógico, ao estudioso da cultura popular, Mário de Andrade. Este ali descobre documentos para o seu Compêndio de História da Música.
E, em Milão, Carlos Gomes compositor, no dia 15 de um ano que lhe e era óbvio, no século XIX, almeja uma boa interpretação para suas Canzonetta e Serenata. Pede, a um certo Giovannini, o favor orientar a cantora Nicolini. Adquirida ou mimo, a missiva alegra o colecionador empenhado na salvaguarda da memória cultural do Brasil.
Retomada de “Uma ciranda de pape l”. In: Galvão, Walnice Nogueira e Gotlib, Nádia Batella, org. Prezado senhor, prezada senhora: Estudos sobre cartas. São Paulo, Companhia das Letras, 2000, p. 275-285.
As cartas, nessa ciranda de papel, pertencem à valiosa série Correspondência Mário de Andrade, organizada no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP), como parte do arquivo do polígrafo, cuja vida decorreu entre 9 de outubro, 1893 e 25 de fevereiro, 1945.
Legado de quem se declarou “correspondente contumaz”, chega perto de 8 mil documentos, subdividida em Correspondência Passiva, a mais extensa, Ativa e de Terceiros custodiados. Colige cartas, bilhetes, cartões-postais, ofícios e notificações. Está entre datas limites, na Correspondência Passiva: 3 de fevereiro, 1914 e 17 de maio, 1946: carta de Carlos de Moraes Andrade, o irmão mais velho de Mário, e ofício do Museu Folklorico Provincial de Tucumã. Abrange Brasil, França e América Latina.
A série foi processada pela Equipe Mário de Andrade no IEB-USP, com a participação de pesquisadores estagiários, em três projetos que coordenei, com financiamentos BID, FAPESP, VITAE, IEB e CAPES (curso de pós-graduação de Literatura Brasileira, FFLCH-USP): Organização da Correspondência de Mário de Andrade, Elaboração do catálogo da correspondência de Mário de Andrade e Preparação editorial do catálogo da Correspondência de Mário de Andrade.
Todas as providências sobre processamento e utilização dos documentos resolveram-se na Comissão Curadora da Correspondência, formada pelo Eng. Carlos Augusto de Andrade Camargo, representante da família de Mário, pelos Profs. Drs. Antonio Candido e Gilda de Mello e Souza, Marta Rossetti Batista (então Diretora do IEB), Flávia Camargo Toni, pesquisadora da área de Música; pelo representante dos estagiários, Marcos Antonio de Moraes e por mim.
O catálogo, na organização final, que assinei com Marcos Antonio de Moraes e Tatiana Longo dos Santos em 1997, abriu-se para a ampliação da série, mediante a incorporação de documentos doados e resgatados. Consolidou-se em um novo catálogo, coordenado por Marcos, cujo percurso acadêmico enriqueceu a Universidade de uma nova área de estudos – a Epistolografia. A Coleção Correspondência de Mário de Andrade, projeto do IEB com a Editora da Universidade de São Paulo (Edusp), tem divulgado, desde 2000, a interlocução do assíduo carteador com intelectuais relevantes do Brasil e do exterior. Os títulos, hoje num total de 15, trazem notas dos pesquisadores que os organizam, esclarecendo ocorrências nos manuscritos, aspectos biográficos e históricos. Ilustram-nos fotografias e outros documentos.
Notas
1 Retomada de “Uma ciranda de pape l”. In: GALVÃO, Walnice Nogueira e GOTLIB, Nádia Batella, org. Prezado senhor, prezada senhora: Estudos sobre cartas. São Paulo, Companhia das Letras, 2000, p. 275-285.
2 Participaram do primeiro, Ana Maria Paulino, Claudete Kronbauer, Cláudio Silva, Darcilene Rezende, Eliane Mattalia, Gibson J. P. Rodrigues, Marcos Antonio de Moraes, Maria Salete Corrêa de Pinho, Marlene Gomes Mendes, Mercia Montag e Tatiana Longo dos Santos; do segundo, Denilson Cordeiro, Marlene Mendes, Marcos Antonio de Moraes e Tatiana Longo dos Santos; no terceiro continuaram estes últimos pesquisadores acompanhados de Beatriz Christino, Cristiane Camara e Rosana Tokimatsu. As Profas. Flávia C. Toni e Yêdda Dias Lima foram consultoras em música e paleografia.















