O tema deste artigo consiste num desafio: relacionar literatura ao mundo digital, entendendo por mundo digital as novas tecnologias, em especial as relacionadas à internet, incluindo as redes sociais e agora a inteligência artificial.
O tema proposto nos leva a unir o passado com o presente, a tradição com o contemporâneo. Mas, como diz Hannah Arendt, tomando emprestada uma frase de Faulkner, "o passado nunca está morto, ele nem mesmo é passado".
A história nos mostra que o novo nem sempre é novidade e que o tradicional nem sempre é velho. Novas tecnologias são sempre sedutoras. As pessoas se sentem narcotizadas e isso pode levá-las a perder a dimensão histórica dos acontecimentos, mas não é preciso, como fez Ulisses na Odisseia, tapar os ouvidos com cera para não se deixar entorpecer; pelo contrário, é preciso estar atento às novas tecnologias para compreendê-las e assim fazer o melhor uso delas. Com as redes sociais, tudo virou presente e o passado é, muitas vezes, apagado. Como exemplo, temos os stories que foram criados para desaparecerem em apenas 24 horas.
As tecnologias digitais apenas estão acelerando esse apagamento do passado. No X (antigo Twitter), políticos e influenciadores digitais combatem postagens que lhes imputam alguma acusação pautando outro tema. Um influenciador acusado de assédio sexual “defende-se” por meio de um post em que afirma que ficou noivo ou que sua mulher está grávida. Assim, se estabelece a impermanência, a fugacidade, a descontinuidade.
Embora essa estratégia de apagamento do passado já existisse antes das redes sociais, as novas tecnologias fizeram com que seus efeitos passassem a ser devastadores, não só pelo número de pessoas atingidas, mas também pela velocidade com que as informações circulam (alguns milhões de pessoas em poucos minutos).
As novas tecnologias criaram ainda a cultura do aceleramento do presente e, por extensão, a não reflexão. Não contentes com a rapidez com que as informações circulam e morrem, pessoas buscam uma rapidez ainda maior nos aplicativos digitais, ouvindo mensagens de áudio e vendo vídeos no modo acelerado. Tudo acontece e se desmancha no ar muito rapidamente. As tecnologias digitais, e agora a Inteligência Artificial, mudaram as formas de nos relacionarmos com os textos.
Poderíamos estender a discussão alertando para o grau de profundidade de muitos textos que circulam nas redes sociais. Qualquer texto analítico cuja leitura demande algo em torno de pouco mais de dez minutos tem enorme chance de ser descartado. Por outro lado, um vídeo curto e engraçadinho de um minuto no TikTok terá milhões de visualizações a mais do que um texto escrito cuja leitura demande cinco minutos.
Entre um conto de Machado de Assis, de Clarice Lispector ou de Tchékhov e um reels de quinze segundos, fica-se com o reels. Nessa tentativa de relacionar a literatura ao mundo digital, muita coisa que hoje consideramos novidade, já estava presente em obras literárias.
As novas tecnologias
Toda nova tecnologia traz um impacto imediato. Assim foi com o surgimento da televisão (muita gente achava que ela acabaria com rádio). No Fedro, Platão (428 – 327 a.C.) relata que Sócrates rejeitava a palavra escrita porque ela poderia significar a perda da memória. Para esse filósofo grego, a escritura, por ser exterior à memória, era nociva, pois não revelava a verdade, mas apenas a aparência.
Segundo Umberto Eco, o Fedro platônico nos mostra que toda modificação cultural se apresenta como uma profunda colocação em crise do ‘modelo cultural’ precedente. No caso, a passagem de uma cultura oral para uma cultura escrita. Se transportarmos as colocações expostas no Fedro platônico para os dias de hoje, observaremos que um ‘modelo cultural’, representado pela cultura impressa é colocado em crise por um modelo que o sucede, a cultura digital, na medida em que os textos têm-se apresentado em suportes outros que não o tradicional livro em papel.
As novas tecnologias nos seduzem, por isso nem atentamos que elas envelhecem muito rapidamente. A velocidade com que as transformações digitais ocorrem provoca uma situação angustiante, já que o que se fala dela agora poderá estar desatualizado em pouquíssimo tempo. Não há muito tempo usavam-se discos flexíveis (os disquetes) para armazenar arquivos produzidos em computador. Hoje, disquetes são peças de museu.
As pessoas têm smartphones que suprem suas necessidades, mas vivem de olho num modelo mais novo. Os jornais costumam noticiar que, quando a Apple lança um novo modelo de iPhone, há filas para adquirir o produto, embora o “antigo” dê conta de todas as necessidades.
Devemos estar atentos ao presente e aproveitá-lo ao máximo, mas sem perder de vista que o presente logo será passado, por isso jamais devemos perder a perspectiva histórica. Aí é que entra a literatura. Por meio dela, temos acesso ao perene, ao universal, a valores humanos – demasiadamente humanos –, para usar uma expressão de Nietzsche.
A literatura é uma das formas pelas quais a cultura se manifesta e tem caráter durativo: ela se estende no tempo e o novo se constrói e se sedimenta no velho. Paralelamente aos posts e aos stories das redes sociais, a boa literatura não é efêmera. Até hoje as pessoas leem a Odisseia, uma obra, presumivelmente escrita por um tal de Homero no século VIII a.C., ou seja, há mais de 2700 anos, e sabem quem foi Ulisses e que ele resistiu ao canto das sereias entre outras aventuras.
Sabem que foi Hamlet quem, num célebre monólogo, disse Ser ou não ser, eis a questão, e que Hamlet é um personagem criado por Shakespeare e pertence a uma tragédia do mesmo nome e que o autor de Hamlet escreveu uma tragédia de amor que todos conhecem, Romeu e Julieta. Shakespeare publicou essas peças há mais de 400 anos. Na mesma época de Shakespeare, na Espanha um escritor publicou em 1605 uma obra que todos conhecem, até mesmo as pessoas que não leram essa obra: Dom Quixote de La Mancha.
Sobre ela, o escritor argentino Jorge Luis Borges diz: "Poderiam perder-se todos os exemplares do Quixote, em castelhano e nas traduções; poderiam perder-se todos, mas a figura de Dom Quixote já é parte da memória da humanidade".















